'O Fim da Rua' é um filme de dinossauros divertido, mas poderia ser muito mais

Dirigido por David Robert Mitchell, longa com Anne Hathaway e Ewan McGregor encontra uma boa aventura, mas abandona discussões sobre fé, sociedade e sobrevivência

16 ago 2026 - 12h11

Tudo ao redor está esquisito. A luz acabou, a água não chega, o rádio a pilha não sintoniza, o calor está insuportável e a vegetação parece ter crescido inexplicavelmente do dia para a noite. As pessoas de toda a vizinhança estranham, mas seguem suas vidas. Tomam café da manhã, se arrumam e vão trabalhar. E é aí que vem a surpresa: todo o bairro foi transportado, sem explicação, para a era dos dinossauros. Essa é a premissa de O Fim da Rua, filme de aventura e ficção científica que chegou aos cinemas nesta semana.

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Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell, o talentoso nome por trás do terror A Corrente do Mal, o filme não perde tempo tentando justificar o absurdo da premissa. Não há grandes explicações, regras ou tramas mirabolantes. A situação simplesmente acontece -- e, a partir daí, a sobrevivência vira a palavra-chave. É uma escolha bastante diferente daquela adotada pelos filmes de Jurassic World, que investem em pirotecnia, explicações e tentativas de expandir a mitologia criada por Steven Spielberg. Aqui, não. Os dinossauros aparecem, as pessoas precisam sobreviver e o filme segue. E é justamente essa honestidade que sustenta boa parte dos pouco mais de 90 minutos de história.

O público, sem precisar entender muita coisa ou se preocupar com tramas paralelas, embarca facilmente na história da família formada pelos pais Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor) e pelos filhos Audrey (Maisy Stella, o ponto fraco das atuações) e Brian (Christian Convery). Eles querem apenas dar um jeito de sobreviver e enfrentar os dinossauros que aparecem pelo caminho e no quintal de casa, enquanto também arrumam comida, bebida e procuram o cachorro sumido.

Mesmo com efeitos especiais ruins e dinossauros com penas (o que é cientificamente correto, mas desconfortável), o longa-metragem vai se sustentando dessa forma. É simples, é eficiente, é divertido e, acima de tudo, um bom respiro para tramas de dinossauros.

'O Fim da Rua' e tudo que poderia ser

No entanto, é impossível não pensar como O Fim da Rua poderia ser mais do que apenas realmente divertido. Em vários momentos, o texto de Robert Mitchell se aproxima de discussões que poderiam colocar potência dentro da história. Logo no primeiro dia na nova era, por exemplo, a família senta na sala de estar e discute se há realmente saída. Afinal, como vão passar o resto da vida naquela situação? Greg, mesmo frequentando pouco a igreja, levanta a questão de Deus. "Mas e as pessoas lá fora, que estão sendo comidas?", questiona a filha, numa lucidez impressionante para o momento, desconcertando o pai.

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Essa sequência, que dura menos do que cinco minutos, é mais brilhante do que todo o resto do filme. Flerta com temas como teologia e existencialismo e, ainda, traz a velha questão: se Deus criou tudo, em qual momento pensou nos dinossauros? Foi antes de fazer o homem à sua imagem e semelhança? Como cereja do bolo, ainda, o diretor brinca com a tal da dioptria dividida, que é quando coloca dois objetos distantes em foco, com o meio desfocado. Técnica muito usada por Brian De Palma, por exemplo, ajuda a aproximar esses personagens e mostrar o embate de ideias existente na família com uma só técnica visual.

Mas, de novo, isso é acerto passageiro. Logo o filme volta a ter uma cara de uma produção do J.J. Abrams, que realmente é um de seus produtores, para mostrar os répteis gigantes, as pessoas sendo comidas por eles e, claro, tiranossauros nos jardins. Falta um pouco mais de O Nevoeiro, por exemplo, que mostra justamente pessoas confinadas em uma situação extrema e passando a ter até mesmo atitudes fascistas. Falta examinar a psiquê humana, as decisões de rebanho, os absurdos da sociedade. O longa, enfim, se contenta com pouca coisa perto de tudo que poderia ser. Mas é isso: no futuro do pretérito, muitas coisas poderiam acontecer. No tempo presente, O Fim da Rua é apenas divertido -- e nada mais.

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