Nomes importantes da indústria cinematográfica, como os diretores brasileiros Kleber Mendonça Filho e Karim Ainouz, assinaram uma carta em apoio à diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, após a notícia de que o governo alemão estaria planejando destituí-la do cargo nesta quarta-feira, 25. A carta foi obtida pelo Deadline e já conta com quase 700 assinaturas.
Além de Kleber e Karim, nomes como Tilda Swinton, Nancy Spielberg e Sean Baker também assinaram o documento. A carta defende que o Festival de Berlim é "um espaço de troca de ideias" e "mais do que um tapete vermelho ou uma série de manchetes".
"As críticas recentes têm se concentrado em declarações feitas no palco. Nenhuma dessas observações foi feita pela própria direção do festival, mas sim por cineastas convidados", diz um trecho. "Um festival internacional de cinema não é um instrumento diplomático; é um espaço cultural democrático que merece ser protegido. Sua força reside na capacidade de acolher perspectivas divergentes e dar visibilidade a uma pluralidade de vozes."
O documento ainda defendeu que a Berlinale "sempre foi política — não partidária, mas socialmente engajada". "Se toda controvérsia leva a repercussões institucionais, o discurso dá lugar ao controle. Defendemos uma cultura de troca, não de intimidação. Onde a diversidade permanece visível, a democracia permanece viva."
Leia a carta completa
"Carta aberta sobre o futuro da Berlinale
Como cineastas na Alemanha e em outros países, estamos acompanhando com profunda preocupação os debates atuais em torno da Berlinale e a possível demissão de Tricia Tuttle. Defendemos a Berlinale por aquilo que ela é fundamentalmente: um espaço de troca de ideias.
A Berlinale é mais do que um tapete vermelho ou uma série de manchetes. É um espaço onde perspectivas se cruzam, narrativas são questionadas e tensões sociais são trazidas à tona. É aqui que o discurso se desenrola - no próprio coração do cinema.
As críticas recentes têm se concentrado em declarações feitas no palco. Nenhuma dessas observações foi feita pela própria direção do festival, mas sim por cineastas convidados. Um festival internacional de cinema não é um instrumento diplomático; é um espaço cultural democrático que merece ser protegido. Sua força reside na capacidade de acolher perspectivas divergentes e dar visibilidade a uma pluralidade de vozes.
Uma fotografia da direção do festival com cineastas, na qual era visível uma bandeira palestina, também foi alvo de críticas. Ser fotografado com convidados internacionais faz parte da prática de um festival como este. A visibilidade de diferentes identidades não é um endosso; é uma expressão de uma esfera pública aberta e democrática.
Quando as consequências para o pessoal são extraídas de declarações individuais ou interpretações simbólicas, um sinal preocupante é enviado: as instituições culturais ficam sob pressão política.
Se uma reunião extraordinária for convocada para decidir o futuro da direção do festival, estará em jogo mais do que uma simples nomeação. O que está em questão é a relação entre a liberdade artística e a independência institucional.
A Berlinale sempre foi política — não partidária, mas socialmente engajada. O cinema torna os conflitos visíveis, amplia perspectivas e torna tangíveis as experiências de injustiça e violência. O cinema levanta questões morais e nos convida a conviver com a ambiguidade em vez de resolvê-la prematuramente. Ele ilumina as estruturas de poder e dá visibilidade às experiências de opressão — não para oferecer respostas fáceis, mas para possibilitar um debate público significativo. É precisamente aí que reside seu valor democrático.
Especialmente em tempos de crise global, precisamos de espaços capazes de acolher o desacordo. A independência das instituições culturais salvaguarda não só a liberdade artística, mas também a própria vitalidade do discurso democrático.
Se toda controvérsia leva a repercussões institucionais, o discurso dá lugar ao controle.
Defendemos uma cultura de troca, não de intimidação.
Onde a diversidade permanece visível, a democracia permanece viva."
Entenda o caso
Nesta quinta, o jornal alemão Bild noticiou que o governo da Alemanha teria convocado uma reunião com o objetivo de demitir Tricia Tuttle. O motivo seria um discurso do diretor sírio-palestino Abdullah Al Khatib, premiado no sábado, 21, pelo filme Chronicles from the Siege, que acusou o governo alemão de ser "cúmplice do genocídio cometido em Gaza por Israel".
O único integrante do governo que compareceu à cerimônia de premiação foi o ministro do Meio Ambiente, o social-democrata Carsten Schneider, que deixou o local naquele momento.
Além de Abdullah, outros vencedores também fizeram discursos pró-Palestina. Tom Courtenay, que levou a melhor como atuação coadjuvante, apontou que os Estados Unidos "aparentemente viraram suas costas para a Europa". Sandra Hüller, que recebeu o prêmio de melhor atuação como protagonista, agradeceu a outros ganhadores por terem "dito a verdade".
Emin Alper se dirigiu aos povos da Palestina, Turquia e Irã, destacando que "não estão sozinhos". Marie-Rose Osta protestou: "Crianças em Gaza, em toda a Palestina e no meu Líbano não têm superpoderes para se proteger das bombas em Israel." Tricia encerrou a cerimônia afirmando que o festival estimula a liberdade de expressão e suas complexidades.
No último dia 17, mais de 80 personalidades do cinema, como Javier Bardem, Tilda Swinton, Fernando Meirelles, Mike Leigh e Adam McKay, assinaram uma declaração de condenação contra o Festival de Berlim para denunciar seu "silêncio" sobre Gaza e o "genocídio dos palestinos".
Na ocasião, os signatários da carta aberta afirmaram estar "consternados com o silêncio institucional da Berlinale" sobre o tema, depois que o presidente do júri, o cineasta Wim Wenders, respondeu a uma pergunta sobre Gaza conclamando a "manter-se à margem da política".
*Com informações da AFP