François Ozon é o primeiro a admitir que se há dois anos alguém lhe dissesse que seu próximo filme seria a adaptação de O Estrangeiro, a resposta seria - "Você está louco." Mas aí, ele brinca, o universo conspirou. Planejava um novo filme com seu ator de Verão de 85 - Benjamin Voisin -, a história de um jovem homem insatisfeito com o estado do mundo e que pensa em matar-se.
Não estava contente com o próprio roteiro, e comentou com pessoas de confiança. Suicídio, mal-estar existencial, geracional. Começou a ouvir que era "muito Camus". Como todo estudante francês, havia lido O Estrangeiro na escola. O adolescente que era não ficou impactado. Voltou ao livro, e dessa vez foi diferente. Imediatamente visualizou Voisin no papel. O próprio ator ficou mexido.
Como O Estrangeiro ainda não caiu no domínio público, comprar os direitos não foi tarefa fácil. Ele teve de convencer a filha do escritor que certas mudanças teriam de ser feitas. Ela relutava, terminou por aceitar. Virou defensora do filme. E eis O Estrangeiro de Ozon prestes a estrear nos cinemas brasileiros - na quinta, 16.
Há um mistério Mersault. O protagonista de O Estrangeiro é esse francês que, na Argélia colonial, dispara cinco tiros contra um árabe. Pode ter sido o calor, o efeito do sol. Mersault não se justifica, nem o escritor o explica. No Mito de Sísifo, Camus escreveu - "Um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões, é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num mundo subitamente privado de ilusões e de luz, o homem sente-se um estrangeiro."
É o mundo de Mersault, escreve Olivier Todd, autor da densa e volumosa biografia do escritor - Alberto Camus, Uma Vida (Record) -, absurdo, entre outras razões, porque ele não procura a significação para o que lhe acontece. Abstém-se de comentar, ou julgar. O escritor também não comenta nem julga. Mersault, o inexplicável.
Livro controverso, filme diferente do livro
"Era o grande desafio ao trazer O Estrangeiro para a tela. Explicar seu gesto talvez o tornasse banal. Procurei ser fiel à letra do romance, às sensações que ele transmite, mas embora estejamos falando de um clássico da literatura, uma obra-prima, o livro possui aspectos controversos. Camus aborda o colonialismo do ponto de vista de um francês. As tensões entre França e Argélia ainda ressoam, são feridas não cicatrizadas. Tive de filmar no Marrocos. Mais de 80 anos após a publicação - em 1942 -, seria intolerável não tentar lançar luzes sobre esse passado", diz.
É o que Ozon faz de cara, iniciando seu filme por material de arquivo, atualidades que ajudam a contextualizar a história. Em 1967, quando fez seu Estrangeiro, Luchino Visconti também considerava necessário fazer mudanças, mas chocou-se com a intransigência da viúva de Camus, guardiã de sua obra e que não lhe permitiu a mínima margem de manobra. A filha foi agora mais flexível. Ozon nomeia o homem que Mersault matou, nomeia a mulher.
"Creio que essa é a maior mudança dessa versão, as personagens femininas saem da opacidade a que eram relegadas. Ainda não é o protagonismo, mas já é uma evolução em relação ao passado." O livro é colonialista? "Não, mas seu ponto de vista é parcial." É político? "Não é preciso aceitar integralmente sua visão para admirar o que a crítica de Camus representa como engajamento e raiva."
Apesar de suas contribuições à literatura filosófica, Camus não se considerava filósofo. Via-se como um escritor e um moralista. Visconti havia lido o livro enquanto preparava Obsessão, de 1942. "Estávamos na aurora do existencialismo, era impossível ser artista naquela época sem se questionar sobre o estado do mundo e o nosso papel de intelectuais", comentou numa entrevista. "Meu filme teria sido muito diferente, se o tivesse feito naquele momento."
Na releitura do livro, Ozon foi seduzido por sua linguagem. Camus tece metáforas como "quebrar a harmonia do dia", fala sobre "a terna indiferença do mundo". Como transformar isso em imagem? O próprio conceito de absurdo, no escritor, é controverso. O absurdo camusiano engloba o que em inglês seriam absurd e nonsensical. Não é acurado dizer, como ele fazia, que o suicídio é o único problema filosófico sério, pelo menos do ponto de vista histórico.
Olivier Dodds lembra que os filósofos, tradicionalmente, dissertaram mais sobre alma, causalidade, essência, existência, transcendência." Ozon diz: "Consultei filósofos e especialistas na obra de Camus, mas o que me interessa não é a dimensão filosófica, embora não a ignore. É o personagem, seu mistério. É possível fazer um filme inteiro sobre um enigma, sem resolvê-lo?", questiona.
Em outras entrevistas para o Estadão, Ozon já disse que faz cada um filme contra o anterior. Seus filmes recentes como Graças a Deus e O Crime É Meu, têm abordado as questões do tribunal e do julgamento. N'O Crime É Meu, o julgamento tinha algo de cômico. Foi contra isso que ele fez seu Estrangeiro? "Não necessariamente, porque o julgamento de Mersault é tão absurdo que também possui uma dimensão cômica, mas eu não seria louco de filmá-lo como comédia. A vítima não é identificada, é apenas um árabe, e Mersault é julgado menos por seu crime do que pela indiferença que revela em relação à morte da mãe."
Indiferença = frieza. O livro inicia-se pela morte da mãe. "Mamãe morreu hoje." Ozon, no filme, começa a esculpir o enigma Mersault antes da morte da mãe. Mostra-o no trabalho, na pensão. Ele vai ao asilo em que ela vivia, não verte uma lágrima durante o enterro e, na volta, vai ao clube, à piscina, onde encontra Marie. "Você está de luto!" "Sim, minha mãe morreu." É uma diferença e tanto, em relação ao livro e ao filme de Visconti.
O Mersault de Ozon pode ser frio, mas é sensual. O Estrangeiro tem cenas bem fortes de sexo. O próprio Camus era o que se chama de 'ladies man'. Teve ligações intensas com mulheres, gostava de sexo. "Acho que é uma dificuldade boba que a gente tem", reflete Ozon. "Parece que não cai bem um filósofo que gosta e pratica sexo."
Por meio do seu Mersault ele não deixa de espelhar o escritor. O final também é diferente. O de Ozon não é o de Visconti, o do livro. É uma liberdade dele, fundamental para o processo de atualização a que se propõe. "Filmo, conscientemente, da perspectiva de quem vive em 2025. Trazer o ponto de vista árabe é decisivo. Fui muito influenciado por Kamel Daoud e sua contra-enquete sobre Mersault."
Um dos fracassos do Estrangeiro de Visconti foi o ator, e não por que Marcello Mastroianni não fosse um grande ator. "Para nós, franceses, é muito difícil aceitar um estrangeiro no papel de Mersault. Visconti queria Alain Delon, que teria sido um belo Mersault, gélido, na linha d'O Samurai (o clássico de gângsteres de Jean-Pierre Melville)."
"Na vida, Benjamin Voisin é alegre, comunicativo, divertido. Para vestir o seu Mersault, eu sugeri que lesse As Notas Sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson. Não queria que ele 'interpretasse', queria que fosse um tanto neutro, como os intérpretes de Bresson, que recitam o texto com voz branca, sem emoção. Benjamin radicalizou. Atravessou a filmagem isolado, quase sem falar com ninguém. Houve até quem viesse reclamar comigo, achando-o antipático. Ele estava servindo ao personagem, o mais próximo de Benjamin era a sensualidade desse Mersault. Os críticos norte-americanos viram homo-erotismo no filme. A cena da morte do árabe. É próprio deles, eu vejo erotismo, e ponto."
Filme em preto e branco
Ozon já enumerou seus desafios, mas O Estrangeiro não deixa de também propor um desafio para o público. Filmes em preto e branco são raros. Um exemplo é o Narciso de Jeferson De, atualmente em cartaz. O próprio Ozon já fez Frantz em PB. O romance tem muita cor, o sol é um personagem à parte. Visconti, consciente disso, privilegiou o azul e o dourado em seu filme. Então, por que Ozon escolheu o PB?
"No inconsciente coletivo francês, a questão da Argélia, o colonialismo, a guerra da independência, foram sempre documentados em PB. Quase não existem fotos coloridas daquela época. Conversei muito com meu diretor de fotografia, Manu Dacosse. Para sermos fiéis ao espírito da época, teríamos de filmar em PB. Filmamos em HD, em cores, mas eu já via o filme no monitor em preto e branco. No final, fizemos a viragem. Existe um Estrangeiro em cores, o laboratório enviou-me essa outra versão quando estava finalizando o PB. Dei uma olhada. É um filme completamente diferente. Parei de ver para não tumultuar minha cabeça."
Nunca veremos esse outro Estrangeiro? "Talvez no DVD, ou no blu-ray." Ozon é possivelmente o mais prolífico dos diretores franceses. Praticamente emenda um filme no outro. O próximo? "Será um filme sobre uma criança." E...? "Talvez um Mersault em gestação", ele brinca.