Filme sóbrio sobre conselheiro de Putin, 'O Mago do Kremlin' expõe como a narrativa molda o poder

Longa-metragem de Olivier Assayas é baseado em livro, tem Paul Dano e Jude Law no elenco e estreia nesta quinta, 9

10 abr 2026 - 12h12

Vadim Baranov (Paul Dano) é daqueles nomes que ninguém nunca ouviu falar, mas que tem uma importância geopolítica ímpar. Personagem principal do novo longa-metragem O Mago do Kremlin, estreia desta quinta-feira, 9, Vadim era um produtor de TV que se tornou, de maneira inesperada, o principal conselheiro de Vladimir Putin. Uma história pouco conhecida, relevante e que, mesmo com as habilidades do cineasta Olivier Assayas, consegue cair num vácuo de desinteresse total.

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O material de base é genuinamente fascinante. O Mago do Kremlin parte do romance homônimo de Giuliano da Empoli, que narra como um homem criativo e aparentemente apolítico se vê engolido pela máquina de poder do Kremlin. A premissa lembra, em essência, o que Vice fez com Dick Cheney: pegar uma figura do bastidor, alguém que moveu os fios sem nunca estar bem no centro do palco, e tentar entender como o poder funciona por dentro. Mas onde Vice apostava no sarcasmo, na irreverência formal e na raiva como combustível narrativo, mesmo com vários problemas e questões, O Mago do Kremlin escolhe a sobriedade — e paga um preço alto por essa escolha.

Jude Law como Putin em 'O Mago do Kremlin'
Jude Law como Putin em 'O Mago do Kremlin'
Foto: Imagem Filmes/Carole Bethuel/Divulgação / Estadão

Assayas, responsável por filmes tão diferentes quanto Irma Vep e Carlos, é um cineasta de inteligência rara. Aqui, ele coassina o roteiro com Emmanuel Carrère, escritor francês por trás de livros magnéticos como V13 e Ioga. A combinação resulta em diálogos afiados e numa construção de mundo que demonstra conhecimento real sobre como funciona uma autocracia moderna. Há cenas em que o filme parece iluminar algo genuíno sobre a Rússia pós-soviética — sobre como o caos dos anos 1990 criou o caldo perfeito para o surgimento de figuras como Putin. Nesses momentos, O Mago do Kremlin se aproxima do melhor do gênero político e da escola de Costa-Gavras.

O problema é que esses momentos ficam soterrados por um ritmo que desafia a paciência. O longa-metragem parece convencido de que sua própria seriedade já basta, como se exibir inteligência na tela dispensasse o trabalho de criar tensão dramática. Não dispensa. Filmes como A Queda e Lincoln também são densos, políticos e cheios de diálogos — mas sabem criar urgência mesmo dentro de suas estruturas sóbrias. O Mago do Kremlin não tem essa urgência. É um filme que você admira de longe, sem nunca ser puxado para dentro.

Lei do contraste

O elenco divide bem a culpa e o mérito. Paul Dano faz aquilo que faz de melhor: transmite uma espécie de fragilidade intelectualizada, um homem que observa mais do que age. É uma performance correta, até interessante em vários momentos, mas que, combinada com a escolha de Assayas de deixar tudo numa mesma temperatura emocional, acaba soando monótona. Dano tem um registro expressivo limitado aqui, e o filme não cria situações que o forcem a sair dessa zona.

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Jude Law, por outro lado, rouba a cena toda vez que aparece. Seu Putin é calculista, com uma gestualidade contida e assustadora — um homem que aprendeu a comunicar poder não pelo que diz, mas pelo que retém. É o tipo de performance que faz você lamentar que o roteiro não tenha coragem de colocá-lo ainda mais no centro. Perto de Law, fica claro o quanto O Mago do Kremlin precisaria de mais atrito, mais risco, mais disposição para sujar as mãos.

Paul Dano interpreta o caótico Vadim Baranov em 'O Mago do Kremlin'
Foto: Imagem Filmes/Divulgação / Estadão

O filme, no fim, é elegante demais para o próprio bem. Há ambição na proposta, competência na execução e pelo menos uma grande atuação para guardar. Mas falta o que Vice, Spotlight e mesmo O Caso Richard Jewell souberam entregar à sua maneira: a sensação de que estamos assistindo a algo que importa urgentemente, que nos convoca a pensar e sentir ao mesmo tempo. O Mago do Kremlin pensa muito. Sente pouco. E, numa história sobre como a narrativa molda o poder — e o mundo —, isso é uma contradição que o filme nunca resolve.

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