Cotado para o Oscar, o novo filme de Martin McDonagh, "Cavalo Selvagem Nove", aborda a interferência da CIA no golpe militar do Chile em 1973 por meio de uma comédia ácida. A trama foca no agente Chris (John Malkovich), que, à beira da morte, decide escrever suas memórias sobre as operações secretas, e seu parceiro Lee (Sam Rockwell), enviado para dissuadi-lo. Unindo humor mordaz, drama e reflexão política, o longa ressalta a complexidade das relações masculinas e o peso histórico do imperialismo.
Martin McDonagh era pré-adolescente quando ficou sabendo que o golpe militar no Chile tinha acontecido com apoio da CIA. A revelação veio por Washington Bullets, da banda punk The Clash. "Fiquei fascinado por aquele período e comecei a pesquisar sobre o tema, sobre Victor Jara (cantor e compositor preso e fuzilado durante a ditadura de Augusto Pinochet) e (o presidente) Salvador Allende e tudo o que a agência de inteligência dos Estados Unidos tinha feito lá e em outras partes do mundo", disse o roteirista e cineasta em entrevista ao Estadão.
Foi assim que a derrubada de Allende, em 11 de setembro de 1973, virou pano de fundo para seu novo filme, Cavalo Selvagem Nove, que estreia nesta quinta-feira, 5, nos cinemas brasileiros, com bastante chance de chegar ao Oscar. As obras de McDonagh costumam ser queridas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Três Anúncios para um Crime (2017) concorreu a sete estatuetas e levou duas, de melhor atriz (Frances McDormand) e ator coadjuvante (Sam Rockwell), e Os Banshees de Inisherin (2022) disputou nove Oscars. Cavalo Selvagem Nove está bem cotado nas categorias roteiro original, ator (John Malkovich) e ator coadjuvante (Rockwell novamente).
Malkovich é Chris, um veterano agente da CIA que está no Chile para ações de desestabilização do governo de Salvador Allende e consequente golpe de Estado, que envolveu inclusive o bombardeamento da sede do governo, o Palácio de la Moneda, e a morte do presidente. Chris está doente, e a proximidade da morte faz com que decida escrever suas memórias. "Ele está engajado na reflexão sobre sua história. Uma reflexão que poderia ter começado mais cedo em sua vida, mas às vezes é assim que acontece, infelizmente", disse Malkovich em uma coletiva de imprensa com a participação do Estadão.
Obviamente sua decisão de lançar um livro falando sobre todas as interferências de que participou não é bem-vista por seus superiores, que mandam Chris para a Ilha de Páscoa, ou Rapa Nui, como os povos originários a chamam, junto com seu parceiro Lee (Rockwell), que tem a missão de dissuadi-lo da ideia.
Amizade masculina
Como em vários dos filmes de McDonagh, o relacionamento entre homens está no centro da história. "Acho interessante tentar mostrar que as relações entre homens podem ser cheias de nuances, que podem tratar de depressão e tristeza ou complexidade moral, todas essas coisas que os homens acham difícil de conversar no mundo moderno", disse McDonagh. "E certamente me liberta enquanto roteirista permitir que esses homens vão a lugares aonde não iriam na vida real. Eu falo dessas coisas com meus amigos, não é algo que devemos temer revelar."
Chris e Lee pegam no pé um do outro, se provocam e vêm sua amizade comprometida por seu trabalho. "Martin sempre estava lá para me lembrar de interpretar o amor", contou Rockwell em uma entrevista coletiva com a participação do Estadão. "O amor sempre tinha de estar presente, até nas discussões."
Isso abre espaço para os diálogos afiados, típicos de McDonagh, que também é dramaturgo. Em Cavalo Selvagem Nove, eles também funcionam para tratar de assuntos difíceis de maneira leve. Ao comentar sua atuação na deposição e assassinato de Patrice Lumumba, em 1961, Chris conta que o primeiro-ministro democraticamente eleito da República do Congo disse, antes de morrer: "Chris, se você me matar, vai estar matando a democracia na África pelos próximos 50 anos". E a resposta de Chris é: "O que você acha que estamos tentando fazer?". "É engraçado de uma forma sombria, mordaz", disse Malkovich. "Mas, infelizmente, na história da humanidade parece algo bastante real."
Para o diretor, não faz sentido dar uma aula ao abordar história e política em um longa-metragem. "Eu gosto de entreter e acredito que é possível ensinar história e política por meio da comédia e de uma história empolgante, que não seja didática. Eu espero que mais pessoas aprendam o que a CIA fez por meio dessa comédia ácida."
Respeito à história
Não é exagero dizer que Cavalo Selvagem Nove é o filme mais abertamente político do diretor. "Não tinha como não ser ao tratar do envolvimento da CIA na derrubada da democracia no Chile. É preciso ter uma opinião e levar a sério também", disse McDonagh.
Malkovich também sabia bastante sobre o tema. Ele conhece profundamente a obra do escritor chileno Roberto Bolaño e montou a peça The Infamous Ramírez Hoffman, baseada no último capítulo do livro A Literatura Nazista na América (1996), que apresentou neste ano no Brasil. O ator também trabalhou alguns filmes do cineasta chileno Raúl Ruiz, um dos muitos exilados pós-golpe de 1973. "Seres humanos são capazes de entender o que houve no Chile e por que é importante falar disso. Claro que os chilenos vão ter uma perspectiva sobre o assunto - dependendo do chileno. E eles podem sentir de maneira mais profunda. Mas seres humanos podem sentir a dor, a tristeza, o luto, o trauma do que acontece com outros seres humanos."
A atriz chilena Mariana Di Girolamo, que interpreta Monica, uma estudante universitária idealista e apoiadora de Allende, que conhece Chris e fica chocada com o que ele tem a dizer sobre o futuro de seu país, elogiou a maneira respeitosa como o diretor retrata aquele período sombrio.
"É uma ficção, você vai rir e se emocionar, mas é uma maneira inteligente de ter essas conversas difíceis. Espero que algumas pessoas tomem conhecimento do que aconteceu e saibam dessa ferida ainda aberta. E não se trata apenas do Chile, mas de todas as ditaduras latino-americanas. E dos dias de hoje também. Precisamos manter essas memórias vivas, porque tudo aquilo pode acontecer de novo. Mas eu tenho esperança no povo da América Latina."
É a mesma esperança de Malkovich. "O cinema, a arte em geral, pode fazer você refletir. Não acho que os Estados Unidos sejam muito reflexivos. Não está na natureza do meu país. Então acho que o filme é uma maneira elegante de facilitar a reflexão."
McDonagh começou a trabalhar em uma história de dois homens em Rapa Nui há 15 anos e incluiu o elemento do golpe militar há cerca de quatro. Por isso, ficou surpreso com a atualidade de Cavalo Selvagem Nove, dadas as interferências diretas na América Latina nos últimos dois anos, além das suspeitas.
"Não foi uma decisão deliberada de refletir o mundo de hoje. Mas, desde que terminei o filme, muitas coisas parecem estar se repetindo, com o envolvimento dos Estados Unidos nos países latino-americanos. É assustador, porque parece que o longa foi feito para espelhar a política mundial de hoje."