Silvano Mendes, enviado especial a Berlim
Dois filmes rodados no Ceará foram premiados na Berlinale. "Feito Pipa" conquistou o Crystal Bear for the Best Film (Urso de Cristal de Melhor Filme), principal prêmio da seção Generation, dedicada principalmente a produções sobre e para um público mais jovem. O filme conta a história de Gugu, um menino queer que vive em uma cidade do interior apenas com a avó, que lhe dá plena liberdade para se descobrir. O bullying que o personagem enfrenta na escola ou jogando futebol - onde é uma das estrelas do time, apesar das gozações - fica do lado de fora quando ele volta para casa e encontra a empatia e o carinho dessa avó, interpretada com maestria por Teca Pereira.
"As emoções de cada personagem nos tocaram profundamente", declarou o júri, formado principalmente por crianças e adolescentes. "Nós fomos levados pela história emocionante, como se fizéssemos parte da ação. Questões importantes foram abordadas e merecem mais atenção", completaram.
Além de Teca Pereira e do excelente Yuri Gomes, que interpreta Gugu, o filme conta também com Lázaro Ramos no elenco. A história aborda com delicadeza a questão de gênero, com o personagem de Ramos tendo dificuldades em aceitar o filho. "Gugu é só uma criança que está se entendendo e se percebendo no mundo", detalhou à RFI o diretor Allan Deberton. "É como se o pai não concordasse com esse colorido que o filho tem", completou. Mas a trama também se interessa pela temática da velhice e do luto, bastante presentes entre os filmes brasileiros selecionados este ano.
Outro filme brasileiro premiado foi "Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha", de Janaína Marques, que ganhou o Tagesspiegel Readers Jury Award, da seção Fórum. O prêmio é concedido pelo jornal alemão Tagesspiegel, cujo júri é formado por leitores selecionados que atuam como uma comissão independente durante a Berlinale.
"Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha" é o primeiro longa de Janaína Marques. "Estou imensamente feliz; é muito emocionante ver um filme tão íntimo se conectar com o público em um festival tão especial como o de Berlim. O Fórum é um espaço que acolhe obras autorais e arriscadas, e ser reconhecida ali tem um significado muito especial para mim", reagiu a diretora após o anúncio do prêmio.
Entre sonho e realidade, o filme acompanha Rosa, que revisita sua relação com a irreverente mãe, Dalva, que passou anos presa por matar um homem prestes a cometer feminicídio. Juntas, embarcam em uma viagem delirante, buscando reencontrar memórias de um período em que poderiam ter sido felizes.
"Este filme é, para mim, sobre atravessar a própria memória para reinventar o presente; é sobre transformar ausência em movimento e acreditar que sempre é possível lançar um foguete mágico entrelaçando todas nós, mulheres", disse a diretora.
O Brasil foi representado na 76ª edição da Berlinale por 12 filmes, entre produções nacionais, coproduções e projetos dirigidos por cineastas brasileiros.