O cineasta ítalo-chileno Marco Bechis está de volta à competição pelo Leão de Ouro no Festival de Veneza, 18 anos depois de "Terra Vermelha".
O anúncio de que a coprodução ítalo-brasileira "Retorno a Buenos Aires" havia sido selecionada para a mostra em 2026 pegou o diretor enquanto ele passeava em uma unidade da loja de móveis Ikea.
"Eu estava esperando a resposta de Veneza, e já havia um sinal positivo: ninguém nos tinha enviado a famosa carta para dizer que não tínhamos sido escolhidos. Estava andando por ali quando recebi a ligação", conta Bechis à ANSA.
O filme, com Adriano Giannini no papel principal, marca o retorno do cineasta ao tema da ditadura argentina - da qual ele próprio foi vítima em 1977, quando, aos 20 anos, foi sequestrado e encarcerado em um centro de detenção secreto e depois em uma prisão militar.
O período de violência e terror já havia sido explorado em obras como "Garage Olimpo" (1999) e "Filhos da Tortura" (2001), mas Bechis ressalta que "Retorno a Buenos Aires" não é sobre ele, embora existam elementos de contato entre sua história e a do personagem de Giannini. Desta vez, o diretor se concentra na figura do sobrevivente, que é "muito atual".
"Existem quantos sobreviventes palestinos da invasão a Gaza? Além dos sobreviventes da Ucrânia, há uma população de milhares de pessoas que sofrem com guerras", diz Bechis, que é filho de mãe chilena e pai italiano. Ele cresceu entre o Brasil e a Argentina, mas vive há quatro décadas na Itália.
"É uma história que eu sentia urgência de contar, mas, em vez de falar de coisas que não conheço a fundo, como Oriente Médio, África e Ucrânia, quis fazê-lo por meio de uma história que conheço bem", salienta.
"Retorno a Buenos Aires" se passa em 2008, na capital argentina. Mariano Guerra (Giannini), após 33 anos vivendo na Itália, volta ao país sul-americano para testemunhar no processo contra os militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura. O reencontro com o passado o obriga a lidar com o que significa ter sobrevivido - um tema que Bechis conhece de perto.
A ideia do filme surgiu após a publicação de seu livro autobiográfico "La solitudine del sovversivo" ("A solidão do subversivo", sem edição no Brasil), no qual, entre outros relatos, narra sua própria experiência de voltar a testemunhar diante dos militares. "A parte autobiográfica no filme termina aí, porque o personagem viveu uma história diferente da minha", explica Bechis, ressaltando que essa "síndrome do sobrevivente" é o eixo do longa.
"É algo que te caracteriza, se torna sua identidade. Há o sentimento de culpa por estar vivo enquanto os outros não estão. Mesmo quando acontece algo belo comigo, me vêm em mente os meus companheiros daquela época que não estão mais aqui", reflete o diretor.
O cineasta também contrasta a reação do passado à violência com a indiferença atual: antigamente, segundo ele, a Europa se mobilizava diante de golpes como o do Chile, mesmo com informações escassas; hoje, imagens de massacres chegam em tempo real pelos celulares, mas a comoção é menor. "A rolagem das telas permite que você ignore", afirma.
"Retorno a Buenos Aires" é uma coprodução internacional entre Itália e Brasil, com Fandango, 39Films, Karta Film, 34 Films e Rai Cinema, e estreia nos cinemas italianos em 17 de setembro. O elenco inclui ainda a brasileira Paula Cohen, Ana Celentano, Vero Gerez, Olivia Nuss, Adrian Fondari e Marcelo Chaparro.