Iraque: Copa do Mundo de Cinema

A história do cinema no Iraque remonta ao início do século XX, mais especificamente a 1909, quando a primeira exibição de um filme foi feita no território então dominado pelo Império Turco-Otomano

15 jul 2026 - 09h34

Por Tem Que Ver*

Foto: Porto Alegre 24 horas

Após longos anos em que o futebol foi algo distante da realidade de sua população - afetada pela invasão dos Estados Unidos que levou à deposição do ditador Saddam Hussein e os consequentes conflitos civis pelo controle do poder estatal, bem como pelas ações do Estado Islâmico em seu território e no entorno -, o Iraque retorna a uma Copa do Mundo da FIFA, na América do Norte. Coincidentemente, a primeira e única participação dos Leões da Mesopotâmia no torneio havia sido em 1986, no México, quando se despediram na fase de grupos.

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A conquista de uma vaga na Copa 2026 veio contra os bolivianos, o que fez do Iraque a última seleção classificada para o torneio. Para chegar a essa decisão, os iraquianos disputaram as Eliminatórias da AFC sob o comando do australiano Graham Arnold, tendo superado adversários como Indonésia e Emirados Árabes Unidos para se garantir na Repescagem Intercontinental. Infelizmente, a sorte não sorriu na hora do sorteio, jogando a equipe num grupo bastante difícil, que resultou na eliminação precoce com três derrotas.

A história do cinema no Iraque remonta ao início do século XX, mais especificamente a 1909, quando a primeira exibição de um filme foi feita no território então dominado pelo Império Turco-Otomano. Nas décadas seguintes, filmes mudos estadunidenses eram exibidos nas salas de cinema de Bagdá. Sob o reinado do Rei Faisal II (1939-1958), a indústria cinematográfica se desenvolveu no país, tornando-a uma das mais significativas e diversificadas do Oriente Médio. Com o apoio de financiadores britânicos e franceses , produtoras cinematográficas se estabeleceram em Bagdá. Nessa época, em 1955, até mesmo uma versão árabe de Romeu e Julieta, bem recebida internacionalmente, foi filmada no Iraque.

A ascensão de Saddam Hussein ao poder, em 1979, impulsionou o cinema iraquiano numa direção diferente. O esgotamento dos recursos nacionais devido à Guerra Irã-Iraque (1980) praticamente paralisou a produção cinematográfica. Os poucos filmes produzidos tinham como principal objetivo glorificar uma história iraquiana mítica ou celebrar o regime de Saddam - como exemplo, tome-se o épico autobiográfico Os Longos Dias, um longa-metragem de seis horas produzido em 1980, parcialmente dirigido por Terence Young, que narra a saga da participação de Hussein na tentativa fracassada de assassinato do primeiro-ministro Abd al-Karim Qasim na década de 1950 e sua subsequente fuga heroica de volta à cidade de Tikrit.

A partir da década de 1990, o cinema iraquiano foi sufocado pelas dificuldades impostas em virtude de sanções internacionais contra o regime de Saddam Hussein. O espectro do ex-ditador se faz presente até os dias atuais, quando presenciamos o ressurgimento da sétima arte em solo do Iraque; daí que o filme escolhido para representar o país na Copa do Mundo de Cinema foi O Bolo do Presidente (Mamlaket Al-Qasab, no título original), de Hasan Hadi. Lançado em 2025, foi indicado pelo comitê local para concorrer a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, isso após a conquista da Caméra d'Or em Cannes, prêmio concedido ao melhor primeiro longa-metragem apresentado em uma das mostras selecionadas do festival francês.

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A premissa do filme é bastante simples: no Iraque dos anos 1990, marcado por sanções econômicas internacionais e pela escassez de recursos básicos, Saddam Hussein impõe uma regra bizarra: cada escola deve preparar um bolo para celebrar o seu aniversário. É nesse cenário que Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), uma menina de nove anos, é sorteada para a tarefa. O que seria um motivo de festa em qualquer lugar do mundo transforma-se em uma jornada de sobrevivência em que falhar significa prisão ou morte. Historicamente, grande parte do cinema ocidental retratou o Iraque pós-Guerra do Golfo através da ótica militarista ou de tragédias homogeneizadas. Hadi opera em uma frequência completamente diferente: o neorrealismo poético. Ao focar na odisseia de Lamia para conseguir ingredientes simples, como farinha e açúcar, o diretor expõe a crueldade de uma ditadura não por meio de tanques ou torturas explícitas, mas pela invasão do medo no cotidiano infantil.

*Texto originalmente publicado em Tem Que Ver Cinema

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