Por Tem Que Ver*
Tetracampeã mundial (1954, 1974, 1990 e 2014), a Alemanha é um dos países de maior êxito na história do futebol. Com 21 participações em Copas do Mundo da FIFA - ausência apenas nas edições de 1930 e 1950 - e oito finais disputadas, os alemães chegam ao torneio deste ano querendo recuperar-se das duas últimas campanhas, quando não passaram da fase de grupos - e já alcançaram esse objetivo de modo antecipado.
Desde o título de 2014 ganho no Brasil, a Alemanha vive um processo de reformulação de sua seleção nacional, que inclui tanto o elenco, recheado de jovens talentos forjados sobretudo na Bundesliga, bem como o própria nomenclatura da equipe, cujo antigo nome (Die Mannschaft, que em alemão significa "A Equipe" ou "O Time") foi abandonado pela DFB, a federação futebolística do país. Desde então, Nationalelf (em tradução, Os Onze Nacionais) é o termo que vem sendo preferencialmente adotado.
O atual técnico da Alemanha é Julian Nagelsmann, cujas passagens de sucesso por clubes como Hoffenheim, RB Leipzig e Bayern de Munique o credenciaram a assumir a seleção como o seu mais jovem treinador na história. A classificação para a Copa 2026 ocorreu jogando as Eliminatórias da UEFA contra Eslováquia, Irlanda do Norte e Luxemburgo, e os alemães não bobearam para obter a vaga de modo direto.
O protagonismo no futebol também se repete no cinema, área em que a Alemanha demonstra uma riqueza igualmente relevante, a ponto de moldar a sétima arte graças ao seu vanguardismo histórico. É impossível falar do cinema alemão sem mencionar, de imediato, o Expressionismo Alemão dos anos 1920, um dos movimentos cinematográficos mais importantes da história, responsável, entre outras coisas, por influenciar o cinema de terror/horror e os filmes noir produzidos em Hollywood e em todo o mundo até os dias de hoje. Nesse período, grandes obras-primas foram produzidas, tais como O Gabinete do Dr. Caligari, Nosferatu e Metrópolis. Ao mesmo tempo, nomes como Fritz Lang, F. W. Murnau, Ernst Lubitsch e Robert Wiene se destacaram sobremaneira na direção, a ponto de alguns deles migrarem posteriormente para os Estados Unidos e se tornarem fundamentais no desenvolvimento da linguagem cinematográfica em Hollywood.
Em paralelo à fase expressionista, a Alemanha também vivenciou o chamado Cinema Absoluto, cuja proposta era criar uma sinfonia visual na qual formas geométricas, linhas e luzes se moviam e interagiam em sincronia com uma música - nomes como Walter Ruttmann e Hans Richter destacaram-se nesse movimento. Posteriormente, durante o Terceiro Reich, o cinema alemão teve como nome de expressão Leni Riefenstahl, diretora de documentários assumidamente propagandísticos em prol do regime nazista, a exemplo de O Triunfo da Vontade.
Passada a Segunda Guerra Mundial, o país foi dividido em Alemanha Ocidental (capitalista) e Alemanha Oriental (socialista), tendo como símbolo o Muro de Berlim. Nessa época socialmente tenebrosa, mais precisamente nas décadas de 1960 e 1970, uma nova geração de cineastas, fortemente influenciada pela Nouvelle Vague e pelo Neorrealismo italiano, rompeu com o cinema comercial que se produzia então e buscou dar ênfase à realidade social, criticar a sociedade contemporânea e confrontar o trauma do nazismo. Esse movimento ficaria conhecido como Novo Cinema Alemão e teria como expoentes Rainer Werner Fassbinder, Win Wenders, Werner Herzog, Volker Schlöndorff, Margarethe von Trotta e Helma Sanders-Brahms.
Na contemporaneidade, a Alemanha continua detendo grande importância internacional, seja através da vitrine ofertada pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim (conhecido como Berlinale) ao cinema de teor mais independente, seja por meio das obras inspiradoras de cineastas como Christian Petzold, Fatih Akin, Caroline Link, Maren Ade, Burhan Qurbani, Nora Fingscheidt e Edward Berger.
Para representar a Alemanha na Copa do Mundo de Cinema do TemQueVer, escolhemos uma obra de extrema relevância, considerada por muitos críticos como um dos melhores filmes já feitos: M, O Vampiro de Dusseldorf, dirigido por Fritz Lang. Nesse longa lançado em 1931, o medo não vem de um monstro sobrenatural, mas, sim, de um homem comum, usando casaco e gravata, que assobia enquanto procura crianças nas ruas. A genialidade estética aqui está em usar o claro-escuro (chiaroscuro) expressionista de forma cirúrgica e realista, projetando a sombra do assassino Hans Beckert (Peter Lorre) sobre o cartaz de recompensa. Ao fazer Hans Beckert assobiar No Antro do Rei da Montanha, Lang cria um dos primeiros leitmotifs (tema musical associado a um personagem) puramente sonoros da história. O público aprende a temer o assassino antes mesmo de vê-lo na tela.
Do ponto de vista sociopolítico, M, o Vampiro de Dusseldorf é uma radiografia assustadora da derrocada da República de Weimar e do nascimento iminente do totalitarismo na Alemanha. A narrativa constrói um paralelismo simétrico perfeito por meio da montagem paralela: de um lado, a polícia tenta capturar o assassino recorrendo à burocracia; do outro, o sindicato do crime organizado (os Ringvereine) decide caçá-lo porque a presença policial está atrapalhando os negócios. Quando os criminosos capturam Hans Beckert antes da polícia e o levam para um "tribunal de exceção", Lang atinge o núcleo de sua tese: massa enfurecida, clamando por linchamento e justiça com as próprias mãos, espelha exatamente a mentalidade de manada social que o nazifascismo capitalizou à época.
*Texto originalmente publicado no portal Tem Que Ver Cinema