Abel Luiz lança Cordal Carioca em Paris e celebra a força coletiva da música brasileira

Em Paris, onde realiza oficinas, encontros e apresentações ao longo de uma temporada europeia, o multi-instrumentista brasileiro Abel Luiz lança no dia 25 de março o álbum Cordal Carioca, que chega às plataformas digitais na mesma data. Ele descreve o disco com uma imagem que sintetiza bem sua estética: um Brasil múltiplo, urbano e rural, popular e de concerto, ancestral e contemporâneo.

20 mar 2026 - 10h06

O álbum apresenta seis peças solo escritas para seis instrumentos de cordas distintos - do cavaquinho à viola caipira, passando pelo violão tenor -, todos tocados pelo próprio músico.

"O Cordal Carioca é música instrumental brasileira que é música popular, que é música regional, que é música de concerto… é música do Brasil", diz Abel, com um entusiasmo calmo de quem conhece profundamente a diversidade da cultura brasileira.

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É um trabalho que sintetiza sua experiência como pesquisador, compositor e músico de rodas, um cruzamento raro de rigor e intuição, técnica e afeto.

Além do álbum, Abel oferece gratuitamente ao público as partituras e o material audiovisual que acompanha o projeto - uma escolha que dialoga diretamente com sua trajetória de formação. "Muito do que eu aprendi se deve à generosidade de pessoas que compartilharam o que sabiam comigo."

Essa transmissão começou no ambiente familiar e logo se expandiu para as rodas dos subúrbios cariocas. "Eu comecei como autodidata, aprendendo com meu avô, frequentando rodas de choro, de samba, de batuques e serestas nos subúrbios e periferias do Rio de Janeiro."

Nesses encontros, ele recebeu o impulso que moldou sua identidade musical: "Essas pessoas foram muito generosas em me acolher e me dar a oportunidade de tocar e estar junto."

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O passo seguinte foi a sistematização desse percurso no mestrado profissional da UFRJ, orientado por Henrique Kazes. Ali, a soma de esforços de professores, amigos, músicos e técnicos permitiu transformar o projeto em um conjunto robusto de materiais abertos. Como ele explica, "a gente tem um material completo, composto de álbum, livro de partituras, o audiovisual e também o registro da pesquisa, para todo mundo ter acesso... todas essas três plataformas disponíveis para download gratuito ao alcance de todos."

Lançamento no Festival Internacional do Choro de Paris

O lançamento europeu do novo álbum acontece no 22º Festival Internacional do Choro de Paris (de 27 a 29 de março), onde Abel apresentará, no dia 28, duas peças solo antes de reunir no palco os músicos do Clube do Choro de Paris. "A gente vai tocar choros, algumas peças autorais minhas, que já estão gravadas por outros instrumentistas do Brasil e do mundo, e algumas outras peças do disco, mas em versões arranjadas para o regional", detalha.

Nesta temporada na Europa, que inclui França, Holanda, Bélgica e Inglaterra, Abel se surpreendeu com a intensidade do interesse europeu pelo choro. "É impressionante", comenta.

O que mais o toca é o reconhecimento de um traço profundamente brasileiro. "É uma particularidade da nossa cultura popular brasileira: a capacidade de produção de sociabilidades a partir de coletivos." Nos ateliês, encontros e rodas, isso aparece de forma concreta. "É essa possibilidade de troca, de afetos, de conhecimento, de lidar com a espontaneidade do outro, construir um 'outro ordinário possível', mais solidário, mais afetuoso."

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Ele relaciona essa prática a uma história de resiliência. "A música brasileira foi construída à base de muita resistência e resiliência, uma potência criativa."

Da música à saúde mental: um trabalho que inspira também na Europa

Outra surpresa desta viagem é encontrar pessoas que conhecem sua atuação paralela, durante 18 anos, no campo da saúde mental. Ele situa essa trajetória. "A gente no Brasil tem uma trajetória muito honrosa e exitosa, que margeia o fim da ditadura, a luta pela reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial."

No CAPS Clarice Lispector, ligado ao Instituto Municipal Nise da Silveira, na zona norte do Rio de Janeiro, ele viveu uma experiência decisiva. "As práticas culturais e artísticas se tornaram excelentes tecnologias de promoção da saúde no campo da saúde mental", destaca, recordando o projeto mais emblemático. "A gente construiu, há 25 anos, o bloco carnavalesco Loucura Suburbana... uma brecha para as pessoas experimentarem essa diversidade, essa alegria de estar junto num fazer comum."

A criação entre cinco instrumentos

A base de Cordal Carioca está na experiência multi-instrumentista. O fio condutor vem do instrumento que o acompanha desde menino. "O meu primeiro instrumento, que eu uso para pensar inclusive desde pensar uma harmonização ou uma orquestração, é o cavaquinho."

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A partir dele, a paleta se expande. "Veio o cavaquinho afinado em bandolim, depois o bandolim, o violão tenor, a viola caipira acústica, e por último a viola caipira dinâmica."

A pesquisa do mestrado aprofunda exatamente essa relação prática. "Cada instrumento possui seu idiomatismo, seu repertório de técnicas, timbres e sonoridades." E é da convivência entre eles que nasce sua escrita musical: "Você vai aprendendo com esse intercâmbio de instrumentos como um contribui para a expansão do outro."

No dia 11 de abril, Abel faz uma roda de samba no Studio de l'Ermitage, em Paris; em seguida, inicia uma pequena turnê pelo sul da França com ateliês e apresentações que passam pela Vallée de la Drôme, Marselha e Ardèche. Depois, segue para Copenhague, onde participa de um concerto de encerramento do Encontro Internacional de Capoeira — arte que o acompanha há cerca de 30 anos. Por fim, cumpre duas semanas em Londres "com ateliês e concertos voltados para a molecada da escola pública".

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