'A arte é libertária por sua essência', diz ministra do STF Cármen Lúcia em mesa lotada na Flip 2026

Ministra falou sobre inteligência artificial, gênero e democracia: 'A democracia é uma planta que exige cuidado todo dia. Mas a erva daninha não deixa barato, todo dia vai tentar voltar'

25 jul 2026 - 03h46

PARATY - O público lotou o Auditório da Matriz no início da tarde desta sexta, 24, para assistir à mesa com a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Com mediação de Paula Miraglia, a conversa passou por temas como a importância do voto, disparidade de gênero e a relação próxima entre arte e direito.

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A ministra começou logo fazendo o público rir: contou a história do encontro que teve com uma senhora enquanto saía do mercado. A mulher a parou e disse: "Você parece com a Cármen Lúcia". Pediu uma foto, disse que postaria no Instagram e ainda emendou: "A senhora é muito mais simpática que ela. Cármen Lúcia jamais sairia do mercado carregando uma sacola de tomate."

"Por isso que eu digo: não tenho medo da inteligência artificial, tenho medo da desinteligência natural", disse a ministra sobre a história. Ela reforçou a importância da educação de qualidade para construção do País e chegou a dizer que o papel do professor é mais importante que o do juiz.

A participação de Cármen Lúcia na Flip faz parte da divulgação do novo livro da ministra, Pela Mão do Povo - Democracia e Voto no Brasil (Bazar do Tempo), escrito em parceria com a historiadora Heloisa M. Starling e a pesquisadora Nayara Corrêa Henriques Pinto. A obra faz um panorama da história do voto no Brasil, desde o Império até às Diretas Já.

Ela reforçou a importância do voto e voltou a criticar tentativas de torná-lo facultativo no Brasil. "Os jovens não sabem o que é não ter liberdade. E sempre penso que a falta nos faz", disse. A ministra argumentou que a escolha de renunciar ao voto não afeta somente o cidadão, mas sim àquelas que lutaram pelo direito dele nas décadas passadas.

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A ministra do STF Cármen Lúcia em mesa na Flip 2026
A ministra do STF Cármen Lúcia em mesa na Flip 2026
Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação / Estadão

Faltando 70 dias para as eleições, a ministra afirmou que o voto é crucial para diminuir a disparidade de gênero nos cargos públicos. "Este preconceito é muito forte [na sociedade brasileira]. É preciso que a gente fale sobre isso - e aí volto à questão da educação e das escolas", disse.

Apesar do tom político, a mesa foi mais marcada por causos e histórias. A ministra contou ainda uma situação na qual um jardineiro da casa ao lado da sua em Brasília a viu trocando a calha do telhado e disse: "Dona, é melhor a senhora sair daí porque ouvi dizer que é casa de autoridade". "Ou seja", disse ela, "para ele ou é autoridade ou é mulher."

Cármen Lúcia também voltou a falar sobre a relação entre arte e Direito. "A arte salva a humanidade. E, no meu caso, principalmente a literatura e a música fazem parte da minha vida inteira", afirmou. "A arte é libertária por sua essência e ela que permite mostrar que a vida não tem censura."

Questionado se a democracia está em risco, a ministra preferiu por uma metáfora: "A democracia é uma planta que exige cuidado todo dia. Mas a erva daninha não deixa barato, todo dia vai tentar voltar." Ela afirmou que tem otimismo no Brasil, completando: "Temos que ter permanentemente a coragem da resistência e é essa coragem que vai garantir a permanência da democracia no Brasil."

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*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026

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