Pacientes e ativistas na França criticam o Outubro Rosa pelo excesso de marketing e a falta de recursos práticos para o tratamento do câncer de mama. Coletivos denunciam que a campanha foca na responsabilidade individual, negligenciando causas ambientais e a escassez de apoio estatal. Embora a adesão a exames tenha caído para 44% em 2024, entidades defendem a mobilização por sua relevância na captação de doações para pesquisas e na visibilidade dada ao enfrentamento da doença.
Aurore Lartigue, da redação da RFI em Paris
Como ocorre todos os anos em outubro, o rosa toma conta das vitrines, colore eventos beneficentes e ilumina monumentos. O objetivo da campanha é estimular o rastreamento do câncer de mama, o mais letal entre as mulheres na França, além de arrecadar recursos para a pesquisa.
Em 2023, o câncer de mama provocou 12.765 mortes e houve 61.214 novos diagnósticos no país. "Para mim, como para muitas pacientes, é um mês bastante difícil de suportar", afirma Lénaïg, integrante do coletivo Cancer Colère ("Câncer Revolta"), criado em 2025.
Aos 38 anos, ela continua em tratamento após uma recidiva do câncer diagnosticado em 2021, poucos meses depois da morte da mãe, também vítima da doença. Quando sofreu uma recidiva, em novembro de 2025, procurou apoio psicológico imediatamente, mas só conseguiu uma consulta para o fim de janeiro.
Para ela, há um contraste entre as celebrações do Outubro Rosa e a realidade vivida pelas pacientes. Lénaïg cita os espetáculos, as iluminações e as ações promocionais que transformam a campanha em uma espécie de festa, distante das dificuldades enfrentadas durante o tratamento.
O coletivo Cancer Colère passou a chamar a mobilização de "Outubro da Revolta" ("Octobre Colère"). Segundo Lénaïg, o objetivo não é criticar quem encontra apoio emocional na campanha, mas cobrar mais ação das autoridades públicas.
A crítica ganhou repercussão política quando a deputada Mathilde Panot, líder do partido de extrema esquerda França Insubmissa (LFI), anunciou que não usaria o laço rosa, denunciando o que chamou de "cinismo absoluto" da campanha.
Prevenção
Uma das principais críticas do coletivo é que a campanha concentra suas mensagens no rastreamento e nos comportamentos individuais e dedica pouca atenção às causas ambientais e ocupacionais do câncer, como o trabalho noturno, reconhecido como um fator de risco para as mulheres.
"Outubro Rosa esquece rápido demais que as causas do câncer de mama não são apenas genéticas ou individuais", afirma o grupo. Lénaïg lembra que os médicos perguntaram sobre seu consumo de álcool e tabaco, mas nunca questionaram em quais ambientes ela trabalhou ou se havia sido exposta a substâncias poluentes.
Estudos científicos apontam uma associação entre determinados pesticidas e um risco maior de câncer de mama. Para a antropóloga Mounia El Kotni, especialista em saúde e questões de gênero, a prevenção continua excessivamente focada nos comportamentos individuais. "Continuamos tratando o problema de forma individual e deixamos de enxergar os fatores estruturais", afirma.
A mobilização de grupos que reúnem pacientes, agricultores e médicos é fundamental para relacionar a doença às condições de vida e às exposições ambientais.
Rastreamento
A associação Ruban Rose (Laço Rosa), responsável por parte das ações da campanha, rejeita a oposição entre prevenção, diagnóstico e pesquisa. Segundo a entidade, compreender melhor as causas da doença, aperfeiçoar os tratamentos, melhorar a qualidade de vida das pacientes e ampliar o rastreamento são objetivos complementares.
Os resultados do Outubro Rosa permanecem aquém do esperado. Em 2024, apenas 44% das mulheres elegíveis participaram do programa de rastreamento, que oferece mamografia a cada dois anos para pessoas de 50 a 74 anos. Em 2011, essa taxa era de 52,3%.
A Liga Contra o Câncer argumenta que a responsabilidade pelo rastreamento não pode recair apenas sobre as mulheres. A entidade defende ações permanentes para alcançar pessoas afastadas dos serviços de saúde e eliminar barreiras de acesso aos exames.
Apesar das críticas, a campanha continua sendo uma importante fonte de arrecadação. Na Liga Contra o Câncer, as ações de outubro representam entre 12% e 15% das doações anuais. Os recursos financiam pesquisas, prevenção, assistência a pacientes e familiares e outras atividades.
Arredacação
Ao mesmo tempo, a campanha atrai empresas interessadas em associar suas marcas à causa. A principal dúvida é se o dinheiro arrecadado realmente chega às instituições ou às pacientes.
A Liga Contra o Câncer afirma que apenas 4% dos pedidos de parceria feitos por empresas são aprovados. Fabricantes de bebidas alcoólicas e produtos de tabaco são automaticamente excluídos, e as demais empresas precisam demonstrar comprometimento real com a causa.
Parte das críticas também envolve as origens da campanha nos Estados Unidos. A primeira semana de conscientização sobre câncer de mama, em 1985, contou com o apoio de uma empresa que produzia tanto pesticidas quanto medicamentos para tratar a doença.
Na França, o Outubro Rosa foi lançado em 1994 pela empresa de cosméticos Estée Lauder e pela revista Marie Claire.
Mélanie Courtier, diretora da associação Jeune & Rose, concorda com muitas das críticas ao excesso de marketing em torno da campanha e ao uso da cor rosa. Mas, segundo ela, o Outubro Rosa continua sendo uma oportunidade única para discutir prevenção, saúde ambiental e as necessidades específicas de mulheres jovens com câncer de mama.
"Se não existisse o Outubro Rosa, muitas prefeituras, escolas e instituições nem sequer nos procurariam."