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Várzea impulsiona futebol feminino com mais de times e torneios

Mais times e torneios ampliam as oportunidades para as mulheres mostrarem seu talento dentro de campo e mobilizarem as comunidades

24 nov 2022 - 05h00
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Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Menos de uma semana antes da grande decisão nacional Taça das Favelas, que colocaria São Paulo e Rio de Janeiro frente a frente, com transmissão televisionada pela Rede Globo, o time paulista ainda corria atrás de um campo para treinar. Apenas na sexta-feira, 18 de novembro, um dia antes da grande final, a comissão técnica conseguiu reunir a equipe por uma hora e meia, num campo da periferia de Diadema (ABC Paulista), para ajustar os detalhes táticos. 

Quem comandou o treino foi Jean Carlos Sales, 29, auxiliar técnico, e Joel dos Santos, 41,  que foi alçado a comandante da equipe por uma mistura de acaso e competência. A edição estadual da Taça das Favelas é uma disputa entre seleções de diferentes comunidades, como Paraisópolis, Campanário e Complexo Casa Verde. Cada comunidade seleciona as jogadoras a partir dos times da várzea local. Ao técnico da equipe vencedora, é concedido a honra de selecionar e comandar o time do estado na edição nacional da Taça das Favelas, que coloca em confronto as seleções estaduais. “Nós, do Paraisópolis, vencemos a final contra o Campanário, treinado pelo Jean, aí chamei ele para ser auxiliar. Mas eu só virei técnico porque minha mulher ficou grávida e teve umas complicações, ela era a técnica do time”, conta Joel. 

O Paraisópolis, vencedor da última Taça das Favelas, não recebe nenhum apoio público. “O apoio é o meu sogro, que está aposentado. Ele tem um campo de futebol, aí tira do aluguel do gramado o dinheiro para dar condições do time jogar”, conta Joel. 

A mesma realidade vive o vice-campeão, Campanário, como explica Jean: “Vamos atrás de patrocinador aqui e ali, vira e mexe a gente tenta patrocínio da prefeitura, mas é meio difícil, porque o futebol feminino não é tão valorizado”. Ele é ex-atleta profissional, com passagens pelo Juventus, Água Santa e Fortaleza, e apesar de atualmente ganhar a vida jogando na várzea, está parado devido a uma lesão. Jean é também presidente do Nacional, clube da várzea de Diadema de onde vieram muitas das jogadoras selecionadas para o time do Campanário: “Sou o presidente do Nacional e a gente mesmo faz toda a correria pros times poderem jogar.” 

A maior dificuldade é financeira, particularmente para arrumar recursos para alimentação e transporte. “Alguns jogos são longe, como agora na Arena Barueri, o que dificulta. Por outro lado, a mobilização da comunidade é bonita, toda a favela indo torcer pela gente. Muitas jogadoras são mães de família, é bonito ver elas chegando na favela e o pessoal querendo tirar fotos com elas, crianças querendo ser igual a elas, isso é bem gratificante. A comunidade vive isso aí, a gente sabe que a várzea mobiliza grande parte do esporte nas favelas. Agora o futebol feminino está num momento bom, tem que aproveitar”, afirma. 

De fato, apesar das dificuldades, os torneios e equipes de várzea femininas estão se avolumando. Apenas em 2022, grandes campeonatos aqueceram o calendário, como a Copa Camisa 10, primeiro torneio da várzea paulistana totalmente gratuito; o 1° Festival de Futebol Feminino, que reuniu 74 equipes da várzea do estado de São Paulo, além de representantes do Rio de Janeiro e do Paraguai; a Copa da Paz e as versões estadual e nacional da Taça das Favelas. 

Daniela Pereira de Souza, 28, camisa 5 da equipe de São Paulo, volante do Paraisópolis e do Palmeirinha, acredita que a obrigatoriedade de montar times femininos, imposta às esquadras profissionais, foi o principal fator para a melhora no panorama do futebol feminino. “Depois dessa revolução, e de começar a ter mais campeonatos, como o Paulista, o Brasileiro e a Libertadores, ajudou bastante, abriu as portas pras mulheres”, opina. 

O efeito no futebol de várzea foi imediato. “Hoje em dia tem bastante time de campo feminino, mas antigamente não tinha nenhum. Porque antes era só um campeonato o ano inteiro, depois começou a ter mais copas, torneios, passaram a montar as ligas, as mulheres da várzea se engajaram bastante nisso e começou a abrir mais vagas. Isso começou há uns 4 anos e desde então expandiu muito”, explica. 

Daniela, que atualmente trabalha como diarista, mora em Paraisópolis desde que nasceu, e percebe uma mobilização crescente da comunidade em torno das equipes femininas. “Na final da edição de 2019 da Taça das Favelas levamos uns 14 ônibus cheios de torcedores. Na desse ano, como foi em Barueri, foi menos ônibus, porque quando é na capital a gente pode pedir apoio do transporte público. Mas te garanto, se faz uma Taça das Favelas no Morumbi, lota. A comunidade está do lado, dá para ir a pé. Na Copa da Paz mesmo lotamos o campo, teve sinalizador, fogos, pessoal fechou tudo, foi bem legal”, lembra. 

Para Jullyana de Sales Gaia, 19, zagueira do time de São Paulo, do Campanário e do Nacional de Diadema, a mobilização da comunidade tem sido uma grata e frequente surpresa. “Na final da Taça das Favelas a gente conseguiu levar 32 ônibus aqui de Diadema. Foi sensacional olhar pra arquibancada e só ver vermelho e preto. Fora os carros que foram também. Eu olhava pra arquibancada e era meu combustível. Queria ter trazido a taça, infelizmente não foi possível, mas a gente vai tentar ano que vem de novo”, comenta. 

Apesar de ser palmeirense de coração, Jullyana jogou na base do Corinthians entre 2019 e 2021. “Mas aí não renovaram o contrato e estou aí na várzea, jogando no Nacional”, conta. O aumento no número de competições dá fôlego ao seu ânimo de continuar no esporte: “Os torneios de várzea femininos são importantes pela visibilidade, principalmente nas comunidades. No Nacional disputamos três copas nesse ano, a gente quer poder disputar mais, treinar mais e ganhar mais. E pra mim é uma felicidade essa visibilidade que o futebol feminino está tendo”, comenta. 

No momento, Jullyana está desempregada, e como o futebol não é uma garantia, fez um curso de manicure. “Agora no final do ano começo o curso de inglês. Mas ajudo minha mãe no serviço também, ela trabalha de segunda a segunda, e às vezes ela fica com dor nas pernas, aí eu vou ajudar”, explica.  Ainda que a passagem pelo Corinthians tenha sido interrompida, brindou Jullyana com uma lembrança marcante. “Minhas inspirações no futebol são o Sergio Ramos e a Érika, zagueira do Corinthians. Eu joguei um jogo festivo no Parque São Jorge com ela, foi um sonho realizado, de jogar ao lado da minha ídola”, lembra. 

A final nacional da Taça das Favelas, entre São Paulo e Rio de Janeiro, aconteceu no dia 19 de novembro, na Arena Barueri, com transmissão da Rede Globo para todo o país. O domínio da partida foi da equipe paulista, que empilhou chances desperdiçadas. Por outro lado, o time carioca aproveitou a única oportunidade real de gol, com um chute de fora da área da atacante Tuane, garantindo a taça para o Rio de Janeiro. 

Ponte
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