Saúde no divã: por que as mulheres procuram mais terapia que os homens?
Por que elas chegam primeiro à terapia? Entenda dados, tabus e desigualdades de gênero que ainda moldam o cuidado com a saúde mental.
Nos últimos anos, a terapia deixou de ser assunto proibido e entrou de vez nas conversas do dia a dia. Mesmo assim, os números mostram uma diferença marcante: mulheres procuram mais atendimento psicológico e psiquiátrico do que homens, mesmo com níveis semelhantes de sofrimento emocional.
Levantamentos de saúde pública, como os do National Institute of Mental Health, além de dados do IBGE e do Ministério da Saúde, confirmam essa tendência. Mas isso não significa que elas "sofrem mais", e sim que chegam antes ao consultório.
A psicóloga Dra. Ticiana Paiva, da plataforma Starbem, explica que entender essa diferença ajuda a olhar para a saúde mental de forma menos culpabilizadora e mais estratégica. A seguir, exploramos os motivos por trás desses dados e o que pode mudar no futuro.
Mulheres e terapia: socializadas para falar, não para esconder
Uma das chaves para entender essa diferença está na forma como meninas e meninos são educados emocionalmente. Desde cedo, os recados são distintos.
Em geral, meninas são incentivadas a chorar, falar do que sentem, pedir colo. Já meninos ouvem frases como "engole o choro" ou "homem não sente medo". Isso constrói um roteiro interno de como lidar com dor, frustração e angústia.
"A terapia exige reconhecimento de vulnerabilidade, e mulheres historicamente tiveram mais permissão social para falar sobre sentimentos", explica a psicóloga. Segundo ela, isso reduz o tabu e facilita o pedido de ajuda.
Como isso aparece na vida adulta
Na prática, mulheres costumam ter mais vocabulário emocional. Conseguem nomear tristeza, ansiedade, exaustão, culpa. Essa linguagem abre caminho para identificar que algo não vai bem.
Homens, por outro lado, muitas vezes transformam sofrimento em irritação, piada ou silêncio. A dor aparece em outras formas, como abuso de álcool, explosões de raiva ou isolamento.
O resultado é que, nas estatísticas, parece que elas "procuram mais terapia". Mas parte dessa diferença reflete apenas o fato de que eles demoram mais para admitir que precisam de apoio.
Sobrecarga emocional: quando a terapia vira espaço de respiro
Outro fator importante é a sobrecarga. Além do trabalho remunerado, muitas mulheres ainda assumem grande parte dos cuidados com casa, filhos, familiares e a chamada "carga mental" do dia a dia.
Dados do IBGE mostram que elas dedicam quase o dobro do tempo às tarefas domésticas e de cuidado. Essa soma de papéis aumenta o risco de ansiedade, estresse crônico e sensação de esgotamento.
Para a psicóloga Ticiana Paiva, a terapia acaba ocupando um lugar estratégico nessa rotina. "Muitas vezes, o consultório vira um espaço de organização emocional para quem sustenta várias responsabilidades ao mesmo tempo", comenta.
A tal da carga mental invisível
Planejar compras, lembrar consultas, organizar rotina da casa, mediar conflitos, antecipar problemas. Tudo isso consome energia, mesmo quando não está no papel de "trabalho oficial".
Essa carga nem sempre é reconhecida, mas gera sensação constante de alerta. A mente não descansa, o corpo responde com cansaço, dor e sono ruim.
Ao chegar na terapia, é comum que esse acúmulo apareça em forma de "não aguento mais" ou "parece que tudo depende de mim". Nomear essa sobrecarga já é um passo para redistribuir tarefas e colocar limites mais saudáveis.
Estigma masculino ainda afasta muitos homens da terapia
Se, de um lado, mulheres são incentivadas a falar, do outro, muitos homens seguem presos a padrões rígidos de masculinidade. A ideia de que "homem forte resolve sozinho" ainda é muito presente.
Diversos estudos de comportamento apontam que eles tendem a procurar menos ajuda psicológica por medo de parecerem frágeis, frágeis ou "fracos". Isso vale para terapia, psiquiatra e até para consultas médicas em geral.
"Não é que mulheres sofram mais, é que homens ainda enfrentam mais barreiras culturais para pedir ajuda", resume Ticiana. Essa diferença de acesso e procura ajuda a entender por que elas aparecem mais nas estatísticas de atendimento.
Quando o silêncio vira custo invisível
Adiar a busca por terapia não apaga o sofrimento. Muitas vezes, ele reaparece em crises de ansiedade, burnout, problemas no trabalho e conflitos familiares.
Empresas sentem impacto em afastamentos, queda de produtividade e rotatividade. Famílias percebem na dificuldade de diálogo, explosões de raiva e distanciamento afetivo.
Ao naturalizar a terapia como recurso para todos, e não só para mulheres, parte desses custos emocionais e sociais pode ser reduzida.
Redes de apoio femininas e terapia como investimento
Existe outro ponto que favorece a presença feminina na terapia: as redes de apoio. Conversas entre amigas, irmãs, colegas de trabalho e grupos online muitas vezes incluem relatos sobre crises, remédios e experiências com psicólogos.
Essas trocas funcionam como um "passo antes" do consultório. Elas normalizam a ideia de pedir ajuda, indicam profissionais e quebram o gelo de quem tem medo de começar.
"A recomendação de uma amiga é sempre um grande incentivo para iniciar terapia entre mulheres", observa Ticiana Paiva. Assim, o cuidado emocional deixa de ser tabu e passa a ser assunto comum no grupo.
Terapia como parte da rotina de cuidado
Mulheres também aparecem com frequência maior em consultas médicas, exames preventivos e acompanhamento de saúde. Nesse contexto, a terapia é vista como mais um cuidado contínuo, e não só como recurso de crise.
Muitas passam a encarar as sessões como espaço de manutenção, assim como academia, alimentação equilibrada ou check-up anual. É uma forma de evitar que pequenas questões cresçam até virar colapso.
Segundo a psicóloga, "hoje muitas mulheres enxergam a saúde emocional como parte da rotina, não apenas como tratamento quando tudo desmorona". Esse olhar preventivo tende a beneficiar todo o entorno, da família ao ambiente de trabalho.