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Rede de fabricantes de vacinas e missão do governo de SP à China aproximaram Butantã da Sinovac

As duas instituições são parceiras no desenvolvimento e nos estudos clínicos da Coronavac, uma das vacinas contra o coronavírus que está em teste

19 nov 2020
17h02
atualizado às 22h42
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Hoje parceiros no desenvolvimento e nos estudos clínicos da Coronavac, o Instituto Butantã e a Sinovac tiveram seu primeiro contato há alguns anos, por meio da Rede de Fabricantes de Vacinas dos Países em Desenvolvimento (DCVMN, na sigla em inglês), entidade criada em 2000, com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), para apoiar o aprimoramento dos processos de produção de empresas de nações emergentes.

Butantã e Sinovac são membros da entidade e eventualmente se encontravam nos eventos e reuniões anuais da aliança, que possui 41 fabricantes associados. A relação ficou mais próxima a partir de agosto do ano passado, quando técnicos do Butantã conheceram uma das fábricas da Sinovac em Pequim durante missão do governo de São Paulo à China.

Governo de São Paulo assinou acordo com a farmacêutica chinesa Sinovac para fornecimento de doses da Coronavac.
Governo de São Paulo assinou acordo com a farmacêutica chinesa Sinovac para fornecimento de doses da Coronavac.
Foto: Governo do Estado de São Paulo/Divulgação / Estadão

"Visitamos produtores de vacinas em várias partes do país. Não cheguei a ir à Sinovac porque estava em outra agenda, mas uma equipe do Butantã foi e ficou impressionada. A tecnologia chinesa hoje compete com a das melhores multinacionais", diz Dimas Covas, diretor do instituto.

Dois meses depois, foi a vez da Sinovac retribuir a visita. No final de outubro de 2019, representantes da empresa chinesa viajaram ao Rio para a reunião anual da DCVMN e aproveitaram a vinda ao Brasil para conhecer as fábricas do Butantã em São Paulo.

"Foi feito um termo de entendimento com intenções de cooperação porque há produtos que ambas as empresas tinham interesse, como a vacina da dengue. Foram conversas normais, não houve nenhum acordo específico. Não existia nenhum indicativo de que haveria pandemia", diz Covas sobre o encontro de outubro.

Quando o coronavírus chegou com força ao Brasil, o Butantã iniciou o trabalho de prospecção de empresas que já haviam iniciado o processo de desenvolvimento de uma vacina para firmar parcerias.

O instituto, diz Covas, chegou a avaliar projetos de várias empresas, inclusive de gigantes farmacêuticas multinacionais, mas optou por uma empresa menor não por acaso. De acordo com o diretor, a proposta mais promissora do ponto de vista tecnológico, experiência prévia e proximidade entre as duas instituições foi a da Sinovac.

Em número de funcionários e receita, a Sinovac se aproxima mais de outras duas biotechs que também ganharam destaque na corrida pela vacina da covid-19: a americana Moderna e a alemã BioNTech. A primeira se aliou ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos EUA e recebeu investimento de U$ 1 bilhão do governo americano para a pesquisa. A segunda conduz estudos em parceria com a Pfizer.

"Levamos em consideração o fato de não ser uma grande multinacional, porque uma empresa menor tem interesses mais próximos aos do Butantã. Quando você se associa com alguém igual, você não fica na posição de submissão e dependência. Eles também precisam da gente para realizar os testes clínicos, então é uma associação de ganha-ganha", destacou.

A rapidez no processo de desenvolvimento da vacina pela Sinovac foi possível graças a estudos prévios feitos pela companhia de um imunizante contra outro coronavírus, causador do surto de SARS entre 2002 e 2003. Na época, a companhia chegou a realizar a fase 1 de testes clínicos do imunizante, mas não pôde conduzir as etapas seguintes pois o vírus praticamente desapareceu. Com a vantagem da pesquisa prévia, a empresa foi uma das primeiras a iniciar, ainda em julho, a fase 3 de testes clínicos de uma vacina contra a covid.

A parceria entre Butantã e Sinovac foi tornada pública em junho, com um termo de cooperação, e oficializada em setembro, com a assinatura de um contrato prevendo o fornecimento, ainda neste ano, de 6 milhões de doses prontas da vacina e matéria-prima para a produção local de outras 40 milhões de unidades do produto.

O contrato, que prevê ainda a transferência completa da tecnologia para o Butantã, determina o repasse de cerca de U$ 90 milhões do instituto à empresa chinesa. O valor equivale a pouco mais de um terço de todo o faturamento da companhia em 2019.

Embora não seja o único país a firmar parceria com a Sinovac para os testes da Coronavac, o Brasil tornou-se estratégico para que a Sinovac finalize o estudo por causa do grande número de voluntários que estão sendo recrutados (13 mil) e dos altos índices de infecção no País, o que pode acelerar a comprovação da eficácia da vacina.

A Coronavac é testada também na Indonésia, em 2 mil voluntários, e na Turquia, em 1,3 mil participantes. Em outubro, o Chile anunciou que também participará da pesquisa com 3 mil voluntários e firmou acordo para receber 20 milhões de doses da vacina.

Dados das fases 1 e 2 dos testes e de uma primeira análise da fase 3 feita com 9 mil voluntários mostraram que a Coronavac se mostrou segura. Os resultados de eficácia devem sair até o fim do ano. Apesar de promissora, a vacina da companhia chinesa pode não ser comprada pelo Ministério da Saúde mesmo se comprovada sua eficácia por causa da resistência do presidente Jair Bolsonaro em incorporá-la ao SUS.

Sem nenhuma evidência, o presidente já questionou a segurança do imunizante e até comemorou a pausa nos testes clínicos da vacina por causa de um evento adverso não relacionado ao produto. A implicância de Bolsonaro é atribuída a razões político-ideológicas. O presidente estaria resistindo a considerar a compra da vacina pelo fato de ela estar sendo desenvolvida em um país comunista e ter sido trazida ao Brasil por iniciativa do Estado de São Paulo, comandado por seu rival político João Doria.

Na China, empresa já iniciou plano de vacinação emergencial

Paralelamente aos testes clínicos, a Sinovac iniciou, em julho, um programa de uso emergencial da Coronavac em cidadãos chineses. A prática teve o aval das autoridades sanitárias do país e vale também para outras farmacêuticas locais que estão desenvolvendo vacinas contra a covid.

Balanço de dois meses atrás indicava que cerca de 60 mil pessoas já haviam tomado o imunizante da Sinovac por meio do programa, a maioria profissionais de saúde e outros trabalhadores expostos a maior risco de contaminação. Estariam incluídos no programa todos os funcionários da Sinovac e seus familiares.

A mídia estatal chinesa noticiou que, em algumas cidades, a Sinovac já abriu cadastro para que qualquer indivíduo pudesse se inscrever para tomar as doses. O custo delas, de acordo com o site China Daily, é de U$ 30 por dose, mas não ficou claro se é o governo local ou o paciente quem paga.

O Estadão tentou, por duas semanas, entrevistar algum porta-voz da Embaixada da China no Brasil para falar sobre o programa de uso emergencial das vacinas contra covid e outras iniciativas do processo de desenvolvimento dos imunizantes, mas não obteve resposta sobre o pedido.

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Estadão
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