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Prevenir gravidez na adolescência passa por ações educativas, dizem especialistas

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) apresentou documento com posicionamento contrário ao incentivo à abstinência sexual. Governo federal iniciou campanha sobre o tema

4 fev 2020
05h11
atualizado às 08h07
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SÃO PAULO - O caminho para a prevenção da gravidez na adolescência, segundo especialistas, passa pela educação dos jovens e pela inclusão dos meninos nas discussões, ainda focadas nas garotas. "Não existe nada, nem campanha nem medida, que não seja o formato de educação sobre métodos contraceptivos, conhecimento corporal. Os pais deveriam acompanhar os filhos na consulta e as escolas deveriam ter isso na programação, discutir como o assunto vai ser posto para os adolescentes", diz Silvana Maria Quintana, coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo (Sogesp).

Campanha do governo federal foi lançada nesta segunda
Campanha do governo federal foi lançada nesta segunda
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil / Estadão

Segundo ela, as campanhas precisam apresentar orientações não só para as adolescentes. "A mensagem subliminar é que a gravidez é uma responsabilidade da mulher. O foco é nela, mas ela não teve o bebê sozinha."

Ainda de acordo com Silvana, uma política de abstinência não vai fazer com que esses casos deixem de ocorrer. "Na maioria das vezes, quando o jovem chega no serviço de saúde, já iniciou a vida sexual. É preciso voltar para a realidade e saber que ninguém estimula um adolescentes a ter uma vida sexual."

Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) apresentou documento com posicionamento contrário ao incentivo à abstinência sexual. Primeiro vice-presidente da SBP, Clóvis Constantino diz que prevenir a gravidez na adolescência é uma questão de saúde pública, tendo em vista os riscos à mãe e ao bebê. "Se colocarmos o adolescente em uma redoma, estamos criando um problema." Para ele, os pais devem conversar com os jovens.

"É importante saber também que a sexualidade é uma fase do desenvolvimento do indivíduo e, assim que entra na puberdade, ele começa a se interessar por esse conhecimento. Se sistematizamos a orientação, não teremos alguém informado de maneira adequada, e o jovem vai buscar orientação com os amigos, com pessoas que não têm a informação correta."

O governo federal lançou campanha nesta segunda onde sugere abstinência sexual como forma de evitar gravidez precoce. Com o mote "Tudo tem seu tempo: adolescência primeiro, gravidez depois", as peças publicitárias sobre o tema só devem ser veiculadas em TV aberta, outdoors e internet durante o mês de fevereiro - em razão da Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, que começou no último sábado, 1º. O investimento para a campanha foi de R$ 3,5 milhões.

Mudança

Em 2016, a analista de atendimento Valéria Coutinho da Silva, de 44 anos, foi surpreendida pela gravidez da filha, que estava com 16 anos. "Fiquei chateada por atrapalhar a vida e a carreira dela." Ela conta que a jovem chegou a ficar deprimida, mas conseguiu terminar os estudos e, agora, já faz planos para a faculdade.

Mãe também de um casal de gêmeos de 14 anos, Valéria diz que a experiência mudou a sua forma de abordar a questão. "Depois do que aconteceu, fiquei mais aberta a isso. Tinha a impressão de que ela ainda era criança e isso não aconteceria. Agora, consigo ter uma visão de que são adolescentes e estão sujeitos a isso. Então, têm de se prevenir."

Coach e mentora de carreiras, Meire Rose Correa, de 35 anos, foi mãe aos 19 anos, quando cursava o terceiro semestre do curso de Direito. "Logo no início da gestação, foi posto que o pai do meu filho não assumiria a criança. Não foi uma gravidez planejada e acabei interrompendo meus estudos. Foi um momento decisivo."

Meire conseguiu fazer a graduação, especializações e seguir sua vida profissional, mas não escondeu a experiência do filho Vinícius Dlucca, de 15 anos, e procura sempre instruí-lo sobre o tema.

"Somos muito parceiros e conversamos sobre isso. Ele tem uma consciência sobre o próprio corpo e as responsabilidades dele. Não acho que a abstinência é correto e não colocaria isso para o meu filho."

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Estadão
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