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Especialistas apontam e explicam falácias sobre imunização  Foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO / Estadão

Vacinas causam autismo? Especialistas explicam o que a ciência já comprovou

Diante de novas alegações de Trump e Robert F. Kennedy Jr., pediatras reforçam que não há evidências de relação entre imunizantes e autismo

Imagem: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO / Estadão
  • Maria Luiza Valeriano Maria Luiza Valeriano
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16 ago 2026 - 05h58

A ciência é direta: não há evidências de que vacinas causem autismo. A afirmação, que voltou ao centro do debate nos Estados Unidos após declarações do presidente Donald Trump e do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., já foi investigada repetidamente em diferentes estudos e populações.

Mesmo assim, durante a assinatura de uma ordem executiva nesta segunda-feira, 10, Trump voltou a relacionar o aumento dos diagnósticos de autismo ao número de vacinas recebidas pelas crianças. O presidente também questionou a segurança da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, e defendeu que seus componentes sejam aplicados separadamente. Nenhuma dessas alegações é respaldada pelas evidências científicas apresentadas pelos especialistas ouvidos pelo Terra.

"A discussão já foi encerrada há anos na literatura médica", afirma o pediatra Alexandre Nikolay, coordenador do Departamento de Emergência Pediátrica do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília.

A pediatra, alergista e imunologista Fernanda America Pedreira Soubak, integrante da plataforma INKI, também é categórica: "Essa é, na verdade, uma das perguntas mais bem respondidas de toda a ciência de segurança de vacinas".

Vacinas causam autismo?

Não. A associação entre vacinas e autismo surgiu a partir de um artigo publicado em 1998 pelo médico britânico Andrew Wakefield, que sugeria uma relação entre a vacina tríplice viral e o transtorno. O trabalho posteriormente foi considerado fraudulento e retirado pela revista The Lancet. Desde então, a hipótese foi investigada inúmeras vezes.

Fernanda cita uma metanálise que reuniu dados de mais de 1,2 milhão de crianças e não encontrou associação entre vacinação e autismo. O mesmo ocorreu quando os pesquisadores analisaram especificamente a vacina tríplice viral e o timerosal, conservante que também foi apontado como possível responsável pelo transtorno.

"Uma revisão sistemática publicada no Lancet Infectious Diseases foi além e classificou essa evidência como uma das mais sólidas da área: estudos repetidos, feitos com metodologias diferentes, em países e populações diferentes, e todos chegando ao mesmo resultado", explica.

Nikolay também destaca uma análise publicada em 2019 que acompanhou mais de 650 mil crianças durante uma década e não encontrou relação entre vacinação e autismo. Portanto, o aumento dos diagnósticos de autismo não pode ser usado como prova de que vacinas sejam a causa. 

Vacinas aumentam o risco de morte?

Também não há evidência de que o calendário rotineiro de vacinação aumente a mortalidade infantil. Segundo Fernanda, revisões de segurança envolvendo vacinas como DTP e hepatite B não encontraram associação com síndrome da morte súbita do lactente ou aumento da mortalidade.

"Quando tantos grupos independentes procuram um efeito por décadas e ninguém encontra, a explicação mais simples é que o efeito não existe".

Na realidade, o impacto histórico da vacinação sobre a mortalidade infantil é justamente o oposto do que a alegação sugere. Nikolay destaca que o calendário de imunização pediátrica está entre as intervenções de maior impacto na redução de mortes infantis.

Criança recebe vacinas demais?

Outra ideia levantada por Trump e seus aliados é a de que muitas vacinas poderiam provocar uma espécie de "sobrecarga" do sistema imunológico. Isso também não tem respaldo científico.

"A ideia de sobrecarga do sistema imunológico é um dos mitos mais recorrentes na literatura sobre hesitação vacinal e não tem base em estudos causais", afirma Fernanda.

A explicação é simples: o sistema imunológico de uma criança está constantemente em contato com estímulos presentes no ambiente. Os componentes presentes nas vacinas representam apenas uma pequena parcela dessa exposição e são administrados de forma controlada.

"Vale lembrar como o sistema imune funciona: uma criança lida diariamente com uma quantidade enorme de estímulos vindos do ambiente. Os antígenos das vacinas do calendário são uma fração muito pequena disso", explica.

Separar as vacinas deixa a criança mais protegida?

Durante a assinatura da ordem, o presidente sugeriu que aplicar separadamente as vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola seria mais seguro. Não há evidência de que separar as vacinas torne o esquema mais seguro ou eficaz.

"A evidência disponível não mostra risco adicional relevante em administrar os três componentes juntos, em comparação ao que já se espera de cada um deles isoladamente", afirma Fernanda.

O sarampo é uma doença grave que pode levar à morte, mas pode ser evitada pela vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba
O sarampo é uma doença grave que pode levar à morte, mas pode ser evitada pela vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / Estadão

A médica ressalta que vacinas podem provocar reações adversas, como qualquer intervenção médica. Isso, porém, é diferente de afirmar que combinar os três componentes seja perigoso. "Não há evidência de que separar seja mais seguro ou mais eficaz", diz.

Além disso, separar as vacinas pode ter uma consequência prática: aumentar o número de consultas e aplicações necessárias para completar a proteção. "Reduzem o número de picadas, o que significa menos desconforto para a criança e para a família, e melhoram a adesão ao calendário", explica Fernanda sobre as vacinas combinadas.

Nikolay resume: "Não há benefício clínico, imunológico ou de segurança em fracionar, separar ou atrasar a aplicação das vacinas".

Fonte: Portal Terra
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