Por que a celulite ainda é ligada a pessoas obesas? Especialista explica
Textura não é diagnóstico: dermatologista esclarece por que a celulite é uma questão estrutural da pele e não um indicador direto de excesso de peso
Embora a medicina moderna foque cada vez mais em riscos metabólicos e inflamação crônica, um fenômeno silencioso ainda persiste no imaginário popular: a associação automática entre a celulite e o excesso de peso.
Nas últimas décadas, uma característica natural da pele foi transformada em um marcador visual de "descuido", criando uma narrativa que confunde estética com condição médica. Esse erro conceitual alimenta estigmas e reforça uma leitura simplista sobre o corpo feminino.
Essa percepção não surgiu ao acaso. A indústria da beleza padronizou a pele lisa como símbolo de disciplina e controle.
Ao pregar que a celulite deveria ser "combatida", consolidou-se a ideia de que sua presença indicaria gordura excessiva ou falha individual.
Essa construção cultural atravessou décadas, cristalizando a visão da celulite como consequência direta da obesidade.
Celulite não é gordura isolada
Do ponto de vista científico, essa equivalência é incorreta. A dermatologista Denise Ozores (CRM-SP 101677), especialista em beleza natural, explica que a celulite é uma alteração estrutural do tecido subcutâneo.
Ela é influenciada pela disposição das fibras de colágeno, pela organização dos septos fibrosos e por fatores hormonais.
"Não é a quantidade de gordura isoladamente que determina a celulite. É a forma como o tecido adiposo se organiza sob a pele. Mulheres magras, atletas e pessoas com baixo percentual de gordura também apresentam celulite", afirma a médica.
Portanto, a textura da pele depende mais da arquitetura interna do tecido do que apenas do peso na balança.
Estética vs. saúde pública
Confundir essas duas condições distorce o debate sobre saúde. A obesidade é uma condição metabólica complexa, com riscos cardiovasculares e inflamação sistêmica comprovados. Já a celulite, em sua essência, é uma questão de textura cutânea.
"Obesidade é uma condição metabólica complexa, associada a risco cardiovascular, resistência à insulina e inflamação sistêmica. Celulite é textura. Quando transformamos textura em diagnóstico social, reforçamos gordofobia e perdemos a precisão do debate", explica a Dra. Denise.
Para a especialista, tratar uma característica fisiológica como anomalia apenas reforça o escrutínio estético histórico sobre o corpo feminino.
O papel do tratamento e a tecnologia
O fato de a celulite ser comum não impede que pessoas busquem tratamentos por desconforto estético. No entanto, é preciso entender o objetivo real desses procedimentos. As tecnologias atuais focam na melhora da qualidade do colágeno, na microcirculação e na reorganização do tecido sob a pele.
"Bioestimuladores e procedimentos minimamente invasivos podem suavizar irregularidades quando há incômodo estético. O importante é compreender que estamos falando de ajuste cosmético, não de cura de doença", pontua a dermatologista.
O foco, portanto, deve ser a satisfação pessoal e não a busca por uma "cura" para algo que não é patológico.
Saúde com menos estigma
Separar estética de saúde é fundamental para um debate responsável. A associação entre celulite e obesidade simplifica fenômenos distintos e gera julgamentos baseados apenas na aparência.
A Dra. Denise Ozores ressalta que o entendimento correto dessas diferenças permite que a saúde seja discutida com mais clareza.
"Quando entendemos que textura não é sinônimo de risco metabólico, conseguimos discutir saúde com mais responsabilidade e menos estigma", conclui. Ao desvincular a aparência da pele do risco de doenças, promove-se uma relação mais saudável e informada com o próprio corpo.