Diabetes tipo 1: novo tratamento pode agir antes dos sintomas. Quem pode receber?
Tzield é o novo tratamento aprovado para agir antes dos sintomas do diabetes tipo 1. Entenda quem pode receber e o que ele pode mudar.
A Anvisa aprovou o Tzield (teplizumabe), medicamento que retarda em cerca de dois anos a manifestação clínica do diabetes tipo 1. Indicado para adultos e crianças a partir de 8 anos no estágio 2 da doença — fase assintomática com autoanticorpos e alteração glicêmica —, o tratamento intravenoso atua no sistema imune e não representa a cura definitiva. Apesar de eficaz, pode causar efeitos colaterais e ainda precisa do aval da Conitec para que seja eventualmente incorporado e disponibilizado pelo SUS.
Sede excessiva, vontade de urinar várias vezes, perda de peso e alterações importantes da glicemia são alguns dos sinais que podem levar ao diagnóstico do diabetes tipo 1. Mas, em algumas pessoas, a doença já está avançando antes mesmo de esses sintomas aparecerem.
É nessa fase que um novo tratamento pode ser usado em pacientes que atendem a critérios específicos. O Tzield (teplizumabe), aprovado pela Anvisa em março de 2026, é indicado para adultos e crianças a partir de 8 anos que estejam no chamado estágio 2 do diabetes tipo 1.
O objetivo do medicamento é retardar a progressão da doença, e não curar ou impedir definitivamente o diabetes tipo 1.
O diabetes tipo 1 pode começar antes dos sintomas
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Nesse processo, o sistema imunológico passa a atacar as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina.
Antes da manifestação clínica, porém, a doença pode passar por diferentes estágios:
- Estágio 1: já existem autoanticorpos relacionados à doença, mas a glicose ainda está em níveis considerados normais.
- Estágio 2: além dos autoanticorpos, há alterações da glicose, embora a pessoa ainda possa não apresentar os sintomas típicos.
É nesse segundo estágio que o teplizumabe pode ser considerado. Pessoas nessa fase apresentam alto risco de evoluir para a forma clínica da doença.
"Estamos falando de uma mudança importante na forma de enxergar o diabetes tipo 1. Em vez de esperar o aparecimento dos sintomas e a necessidade de iniciar a insulinoterapia, existe a possibilidade de identificar pessoas que já apresentam sinais de evolução da doença e, em casos selecionados, intervir antes que ela chegue à manifestação clínica", explica o médico clínico com ênfase em endocrinologia e metabologia Igor Viana.
Tzield (teplizumabe), medicamento aprovado pela Anvisa para retardar a progressão do diabetes tipo 1 em pacientes elegíveis. / Crédito da imagem: Breakthrough T1D
Quem pode receber o Tzield?
A aprovação não significa que qualquer pessoa com histórico familiar ou predisposição ao diabetes tipo 1 possa receber o medicamento.
A indicação é para pacientes com 8 anos ou mais que estejam no estágio 2 da doença, identificado pela presença de pelo menos dois autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1 e alterações da glicose.
O médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro explica por que a avaliação não deve se limitar ao histórico familiar.
"O diabetes tipo 1 tem uma forte participação de fatores genéticos, mas ter predisposição genética não significa, isoladamente, que a pessoa desenvolverá a doença. O desafio é justamente combinar a avaliação de risco com marcadores que indiquem que o processo autoimune já está acontecendo", afirma.
Ribeiro também destaca o papel da identificação antecipada.
"A medicina de precisão caminha cada vez mais para identificar indivíduos em risco antes que uma doença se manifeste. No diabetes tipo 1, isso pode significar reconhecer uma janela de oportunidade para acompanhamento e, em pacientes elegíveis, tratamento", explica.
Quanto tempo o tratamento pode ganhar?
O teplizumabe não impede que o diabetes tipo 1 se desenvolva, mas pode adiar a manifestação clínica da doença por cerca de dois anos, em média.
Esse resultado foi observado em um estudo com pessoas que já apresentavam alto risco de desenvolver diabetes tipo 1. O tratamento foi feito em um único ciclo de infusões na veia, durante 14 dias.
"É importante deixar claro que retardar não significa impedir ou curar. O ganho está em ampliar o tempo até a manifestação clínica do diabetes, o que pode representar uma diferença relevante para o paciente e para a família", destaca Igor Viana.
Esse período pode ser especialmente importante para crianças e adolescentes, já que o diagnóstico traz mudanças na rotina e exige acompanhamento da glicemia e tratamento com insulina.
Pessoa com diabetes tipo 1/ Imagem: Canva
O tratamento também tem riscos
O Tzield pode causar efeitos colaterais porque interfere no funcionamento do sistema imunológico. Entre os mais importantes estão infecções, queda temporária de células de defesa do sangue e reações na pele.
Também pode ocorrer a chamada síndrome de liberação de citocinas, uma reação inflamatória que pode provocar febre, náusea, dor de cabeça e queda da pressão arterial.
Por isso, o tratamento exige avaliação médica, exames antes das infusões e acompanhamento durante e depois do uso do medicamento.
E o acesso pelo SUS?
A aprovação da Anvisa não significa que o teplizumabe já esteja disponível pelo SUS. Para isso, o medicamento precisa passar por uma avaliação da Conitec, que analisa a incorporação de novas tecnologias ao sistema público.
Antes disso, porém, existe outro desafio, que é identificar quem está no estágio 2. Como essa fase pode não causar sintomas, são necessários exames para detectar os autoanticorpos e as alterações da glicose.
"Quando conseguimos reconhecer o processo antes da instalação do quadro clínico, mudamos a lógica de atuação: deixamos de trabalhar apenas com o diagnóstico depois que os sintomas aparecem e passamos a acompanhar o risco de forma antecipada", afirma Paulo Zattar Ribeiro.
Esse cuidado antecipado precisa caminhar junto com o acesso ao tratamento, destaca Igor Viana:
"A inovação só produz impacto real quando vem acompanhada de diagnóstico adequado e acesso. Não basta existir uma terapia capaz de retardar a progressão do diabetes tipo 1; precisamos conseguir identificar quem está em uma janela em que esse tratamento pode fazer diferença", conclui.
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