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Covid-19: governo fica mais distante da meta de testagem

Aquisição de 12 milhões de exames de diagnóstico pode ser cancelada por questionamentos sobre possíveis irregularidades

19 jun 2020
19h32
atualizado às 19h34
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Anunciada no dia 20 de abril, a compra emergencial de 12 milhões de testes rápidos da covid-19 está travada no Ministério da Saúde. O processo não tem data para ser concluído e, segundo apurou o Estadão, pode até ser cancelado por questionamentos sobre possíveis irregularidades. Se confirmada a desistência, a promessa do governo de realizar 46,2 milhões de exames de diagnóstico no Brasil ficará ainda mais longe. Mesmo após quase dois meses sem conseguir avançar, a meta segue sendo celebrada por canais oficiais da gestão de Jair Bolsonaro nas redes sociais.

Funcionários de saúde conduzem testes de Covid-19 no Rio de Janeiro
15/06/2020 REUTERS/Ricardo Moraes
Funcionários de saúde conduzem testes de Covid-19 no Rio de Janeiro 15/06/2020 REUTERS/Ricardo Moraes
Foto: Reuters

O processo de aquisição de 12 milhões de testes rápidos teve reviravoltas. No fim de maio, o laboratório Abbott passou a ser o favorito para levar o certame após conseguir o registro de seu produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sem licitação, sob argumento de ser "emergencial", a compra levanta desconfiança dentro do Ministério da Saúde.

Alguns gestores chegaram a pedir a sua anulação, ainda durante a gestão do oncologista Nelson Teich, que deixou a pasta no mês passado. Uma das razões seria a entrega de dados da compra para pessoas que acompanham a disputa. Outra seria a limitação dos testes rápidos, que têm baixa sensibilidade se aplicados nos primeiros dias de sintomas da doença.

O exame de diagnóstico da covid-19 em larga escala é um dos pilares da estratégia do governo para enfrentar a pandemia, mas o Brasil testa pouco, quando comparado a outros países. O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, tem dito a interlocutores que para vencer a "guerra" contra a doença o "mais importante" é melhorar a triagem de pacientes e medicá-los o quanto antes, inclusive com a cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra o vírus.

O governo federal discute com Estados e municípios ampliar o uso de exames de imagem ou clínico-epidemiológicos para o diagnóstico da covid-19. Na leitura de gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), a medida evitaria ficar refém da disponibilidade de testes, mas infectologistas alertam que o ideal é o exame laboratorial.

A promessa do governo é distribuir 22 milhões de testes do tipo rápido, sendo 10 milhões doados de empresas e 12 milhões comprados. Cerca de 7,52 milhões já foram entregues a Estados e municípios. O exame rápido detecta anticorpos para a covid-19, indicando que a pessoa já foi infectada, e deve ser aplicado após o sétimo dia de sintomas. Caso contrário, a chance de falso negativo é alta, como o próprio ministério alerta.

Para atingir 46,2 milhões de exames, o ministério promete distribuir também 24,2 milhões de testes do tipo RT-PCR, que detecta a presença do vírus. Tido como de "padrão ouro" para diagnósticos, o equipamento é aplicado nos primeiros dias de sintomas de pacientes.

Após quase quatro meses desde a confirmação do primeiro infectado pela covid-19 no Brasil, o governo entregou cerca de 3,79 milhões de exames deste tipo, ou seja, pouco mais de 15% do prometido. Mesmo sem nem sequer ter se aproximado dos 46,2 milhões prometidos, um dos perfis oficiais da gestão Bolsonaro nas redes sociais, a "@SecomVC", destacou "Mais 46,2 milhões de testes" entre as ações do governo contra a covid-19, em publicação feita no Twitter em 13 de junho.

O próprio Bolsonaro, quando cobrado sobre avanço da covid-19 nos Estados, tem dito que já fez a sua parte. Ele atribui a gestores locais a culpa pelo aumento de casos. "Já ajudamos com dinheiro", disse o presidente na última segunda-feira, 15, a uma apoiadora que afirmava que Roraima "precisa de ajuda".

Testagem baixa

O ministério lançou o programa "Diagnosticar para Cuidar", em 6 de maio, com a promessa de realizar teste de diagnóstico em larga escala, com exame RT-PCR, e pesquisa epidemiológica, com uso do produto "rápido".

Mas, até 4 de junho, a rede pública havia feito apenas cerca de 555 mil exames para covid-19. A estimativa total de testes realizados no País é imprecisa, pois sistemas de unidades privadas e públicas de saúde não dialogam. Técnicos do ministério apontam que cerca de 1,7 milhão de exames já foram aplicados.

Conforme revelou o Estadão, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já alertou o Palácio do Planalto sobre o baixo número de testes feitos no Brasil.

"A participação do Brasil torna-se mais significativa se for considerado que o País tem 10 a 15 vezes menos testes diagnósticos realizados por milhão de habitantes que os demais (países) e, portanto, é provável que os números brasileiros estejam subestimados e sejam de maior proporção do que os apresentados", diz relatório de 12 de maio.

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Estadão
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