Cantor famoso revela diagnóstico de autismo aos 52 anos: 'Não surgiu na vida adulta'
Após artista descobrir condição décadas depois, especialista explica diagnóstico tardio e alerta: 'Características isoladas não são suficientes'
Um diagnóstico revelado aos 52 anos voltou a chamar atenção para a descoberta do autismo na vida adulta. Robbie Williams contou recentemente que foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), levantando dúvidas sobre como uma condição ligada ao neurodesenvolvimento pode passar despercebida durante décadas.
O cantor, que já havia revelado ter diagnóstico de TDAH, descobriu o autismo somente depois dos 50 anos. Mas isso significa que o TEA pode surgir apenas na fase adulta?
Em entrevista ao Mais Novela, o psicólogo Damião Silva, especialista em neurodivergentes, explica que não. O diagnóstico pode ser tardio, mas a condição não começa nessa fase da vida.
"É importante destacar que um diagnóstico tardio não significa que o autismo surgiu na vida adulta. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento e, por isso, uma avaliação adequada precisa investigar toda a história de desenvolvimento da pessoa", esclarece.
Como alguém passa décadas sem saber que é autista?
Segundo Damião Silva, isso é possível principalmente entre adultos que cresceram em uma época em que havia menos conhecimento sobre as diferentes manifestações do espectro.
Características apresentadas desde a infância poderiam ser interpretadas simplesmente como traços de personalidade. Uma criança poderia ser considerada muito tímida, reservada, rígida, sensível ou extremamente concentrada em interesses específicos, por exemplo.
Além disso, algumas pessoas aprendem estratégias para lidar com situações sociais e esconder dificuldades ao longo da vida.
"Características isoladas também não são suficientes para estabelecer um diagnóstico", ressalta o psicólogo.
TDAH e autismo podem aparecer juntos?
No caso de Robbie Williams, outra questão chama atenção: antes da descoberta do autismo, o artista já havia sido diagnosticado com TDAH. De acordo com o especialista, as duas condições podem coexistir.
"TEA e TDAH podem ocorrer simultaneamente, e essa associação é clinicamente relevante", explica.
Apesar de algumas manifestações semelhantes, são condições distintas. No TDAH, o diagnóstico envolve principalmente um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade. Já no autismo, são observadas dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades e possíveis particularidades sensoriais.
Por isso, Damião Silva reforça que não é possível diferenciar as condições analisando apenas um comportamento. Uma avaliação profissional deve considerar quando as características surgiram, como apareceram ao longo da vida e quais impactos provocam.
O que é o mascaramento social?
Outro fator que pode ajudar a explicar alguns diagnósticos tardios é a chamada camuflagem ou mascaramento social.
Segundo o psicólogo, isso acontece quando uma pessoa autista aprende, consciente ou inconscientemente, a esconder ou compensar determinadas características para se adaptar às expectativas sociais.
Ela pode observar a maneira como outras pessoas conversam, ensaiar respostas, reproduzir comportamentos, controlar expressões corporais ou evitar atitudes que percebe como socialmente inadequadas.
"Externamente, essa pessoa pode parecer socialmente adaptada, enquanto internamente precisa realizar um esforço significativo para acompanhar as demandas daquele ambiente", explica Damião Silva.
O especialista pondera, porém, que o mascaramento também não pode ser usado isoladamente para determinar que alguém é autista, já que pessoas sem TEA também podem modificar comportamentos conforme o contexto social.
Diagnóstico tardio pode trazer alívio?
Descobrir o autismo na vida adulta também pode ajudar algumas pessoas a reinterpretarem experiências que carregaram por anos.
Dificuldades relacionadas à socialização, estímulos sensoriais, rotina ou adaptação a determinados ambientes podem passar a ser compreendidas dentro do funcionamento neurodivergente, em vez de serem vistas simplesmente como falhas pessoais.
"O diagnóstico não deve servir para colocar a pessoa dentro de uma caixa, mas como uma ferramenta para ampliar a compreensão sobre si mesma", afirma Damião Silva.
O impacto, entretanto, varia de pessoa para pessoa. Enquanto algumas podem sentir alívio e encontrar respostas para experiências do passado, outras podem precisar de um período maior para compreender o diagnóstico e reorganizar a maneira como enxergam a própria história.
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