Canadá tenta buscar solução para onda de suicídios de indígenas
As autoridades do Canadá tentam conter uma onda de suicídios entre moradores do povoado de Attawapiskat, em Ontário, e em outras comunidades de origem indígena que são marcadas pela pobreza em um dos países mais ricos do mundo.
A câmara baixa do parlamento canadense realizará na noite de hoje um debate de emergência sobre esses casos, que foi solicitado pelo deputado do Novo Partido Democrático (NPD) Charlie Angus, que representa a circunscrição eleitoral que inclui Attawapiskat, situado a cerca de 1.000 quilômetros ao norte de Toronto.
Angus afirmou hoje que quer que os parlamentares ofereçam esperança.
"Por isso, estou solicitando a meus colegas que trabalhem comigo esta noite para discutir o problema e começar a estabelecer um caminho que dê esperança aos meninos do norte e ao resto das comunidades indígenas", explicou o deputado.
Hoje se soube que vários jovens da comunidade tiveram que ser hospitalizados ontem à noite pela polícia devido ao temor de que estivessem planejando cometer um suicídio coletivo.
A grande chefe da tribo nishnawbe aski, Anna Betty Achneepineskum, declarou que a ação foi provocada após um grupo de jovens ser ouvido "conspirando para se suicidar à noite".
Pelo menos sete jovens attawapiskat foram internados pela polícia como medida preventiva.
Mas Achneepineskum também revelou à imprensa local que o hospital local está tão cheio em função da crise que metade dos jovens teve que ser trancada em celas enquanto médicos e enfermeiros cuidavam da outra metade.
A crise de suicídios foi conhecida depois que o chefe da comunidade, Bruce Shisheesh, e o conselho tribal declararam na noite do sábado estado de emergência porque 11 pessoas tentaram se suicidar naquele dia.
"Os recursos da comunidade estão esgotados, e não estão disponíveis mais recursos locais e regionais", diz a declaração de emergência.
Apesar de Attawapiskat estar situado nas cercanias de uma mina de diamantes operada pela multinacional De Beers, este povoado é um dos mais pobres do Canadá.
Em 2013, o relator especial da ONU para os direitos dos povos indígenas, James Anaya, criticou a situação em que vivem os indígenas canadenses e advertiu que o país enfrenta uma "crise".
Anaya se mostrou especialmente crítico sobre as políticas do governo canadense anterior, do ex-primeiro-ministro Stephen Harper, que durante quase uma década no poder se negou a se reunir com os líderes indígenas canadenses.
Antes, em 2011, Anaya já tinha criticado o Canadá por manter seus indígenas em condições "do terceiro mundo" ao saber que em Attawapiskat se vivia sem água corrente, serviços sanitários e em muitos casos em casas sem janelas.
Além das 11 tentativas de suicídio de sábado, desde setembro Attawapiskat sofreu outras cem tentativas.
Em outubro de 2015, Sheridan Hookimaw, de 13 anos, se matou na comunidade. Após o corpo ter sido encontrado, Angus solicitou às autoridades que agissem na região porque Sheridan foi uma das 600 jovens da região "que pensaram ou tentaram se suicidar ou se suicidaram desde 2009".
Só em março, em Attawapiskat ocorreram 28 tentativas de suicídio, além de sete casos de abuso de drogas, cinco de overdose e quatro casos de psicose mental.
Após a declaração de emergência, ontem as autoridades federais e da província de Ontário, onde fica Attawapiskat, enviaram equipes especializadas em saúde mental para ajudar a comunidade.
Atualmente, a comunidade conta com quatro funcionários da área da saúde, mas sem experiência ou capacitação para atender casos de saúde mental.
Achneepineskum denunciou hoje que, desses quatro trabalhadores, três estão atualmente de licença para poderem descansar.
Ontem, em uma página do Facebook, Amy Hookimaw, uma menina de 13 anos de Attawapiskat, escreveu uma carta aberta na qual pediu aos adultos da comunidade para que "conversem com seus filhos e especialmente com os adolescentes", mesmo que só para lhes perguntar "como foi seu dia hoje, como se sente, está bem?".
"Tenho uns amigos, na realidade muitos amigos que querem se suicidar, e tenho dois amigos que sempre estão sofrendo overdoses. Sério, vocês, pais, têm que conversar com seus filhos", concluiu Amy.
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