Bruxismo pode ser sinal de enxaqueca: entenda a relação
Enxaqueca e bruxismo: Qual a relação?
Estudo brasileiro revela que o bruxismo pode ser um sintoma neurológico da enxaqueca, e não sua causa. A pesquisa constatou que 78% dos pacientes com enxaqueca crônica têm bruxismo diurno, causado pela hiperativação dos nervos trigêmeos. Como esse aperto involuntário dos dentes costuma passar despercebido, o problema exige diagnóstico clínico e tratamento multidisciplinar integrado, focado no sistema nervoso central para controlar as crises de dor e os estímulos musculares.
Cientistas brasileiros comprovaram que o apertar e ranger dos dentes resulta da hiperativação dos nervos trigêmeos
Por muito tempo, a comunidade médica considerou o bruxismo uma das possíveis causas das dores de cabeça intensas. Hoje, porém, os especialistas começam a compreender essa relação sob uma nova perspectiva: a própria enxaqueca pode manifestar o bruxismo. É o que aponta um estudo pioneiro realizado no Headache Center Brasil, centro especializado no tratamento 360º da condição, fundado pela médica neurologista Thais Villa, especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca.
A pesquisa revelou que 78% dos pacientes com enxaqueca crônica, que convivem com sintomas durante 15 ou mais dias do mês, apresentavam bruxismo diurno (de vigília). O dado reforça a hipótese de que o hábito de apertar ou ranger os dentes, durante o dia ou à noite, pode estar associado à hiperexcitabilidade do sistema nervoso central e à hiperativação do sistema trigeminovascular, mecanismos envolvidos no surgimento e na manutenção das crises de enxaqueca.
De onde vem a enxaqueca
A doença complexa e altamente incapacitante tem causa neurológica. Embora a dor de cabeça seja seu sinal mais evidente, a condição pode apresentar inúmeros sintomas, desde náuseas, fotofobia, alteração de humor, déficits cognitivos de memória e atenção, insônia e o próprio bruxismo.
Nesse contexto, apertar e ranger os dentes pode ser uma resposta do sistema nervoso e ocorrer independentemente de o indivíduo estar acordado ou dormindo, tornando fundamental encarar o bruxismo não como um problema isolado, mas como um alerta neurológico.
Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores é que muitas pessoas apresentam bruxismo diurno sem perceber. A identificação precisa da condição na pesquisa só foi possível graças ao uso da eletromiografia computadorizada de rosto, exame realizado por cirurgiões-dentistas especializados.
Novo olhar
Pequenos eletrodos colocados na musculatura da mastigação captaram e registraram graficamente as descargas elétricas enviadas pelos nervos trigêmeos, comprovando a contração muscular involuntária mesmo em pessoas que garantem não apertar os dentes ao longo do dia.
O diagnóstico da enxaqueca, no entanto, permanece clínico. Não existem exames de imagem ou laboratoriais capazes de diagnosticar a doença; a conclusão depende de uma consulta médica especializada e aprofundada, capaz de analisar o histórico detalhado do paciente. A eletromiografia atua como uma ferramenta complementar de mapeamento funcional para identificar o envolvimento muscular e orientar a terapêutica, sem substituir a avaliação clínica neurológica.
O estudo aponta para uma mudança na forma de olhar para o bruxismo. Apenas tratar o desgaste dos dentes ou usar uma placa para proteger a dentição pode não ser suficiente quando o problema está relacionado à enxaqueca. Nesses casos, é importante considerar uma abordagem integrada, com diferentes profissionais de saúde.
"O bruxismo é um sintoma tão frequente da enxaqueca quanto a própria dor de cabeça. Por isso, a doença de base precisa de tratamento multidisciplinar em um modelo 360º. Tratar o cérebro e o sistema nervoso é o único caminho eficaz para controlar, simultaneamente, as crises de dor e o estímulo nervoso que leva ao bruxismo", conclui a neurologista Thais Villa.
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