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Consumo excessivo de gordura saturada pode causar perda neuronal, revela pesquisa da Unicamp

Estrutura é semelhante à bactérias que inflamam e destroem sinalização de saciedade

10 jul 2019
14h59
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Um estudo do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC, da sigla em inglês) da Unicamp aponta correlação entre o consumo excessivo de gordura saturada e a perda neuronal, que interrompe as vias de sinalização da saciedade.

"A estrutura da gordura saturada é semelhante à parede de alguns tipos de bactéria. O corpo reage achando que está reagindo a uma bactéria e gera uma inflamação. Essa inflamação destrói toda a sinalização da saciedade", explicou Bruna Bombassaro, pesquisadora do OCRC.

Nos indivíduos obesos, mesmo tendo mais insulina e leptina que os indivíduos magros, esses sinalizadores de saciedade não funcionam. A interrupção da comunicação seria causada pela inflamação, gerada como resposta imunológica ao alto consumo de gordura saturada.

Uma das pesquisas realizadas pelo grupo verificou morte neuronal pelo consumo exagerado de gordura saturada em camundongos. Submetidos a uma dieta hiperlipídica (com excesso de gordura saturada), por entre oito e 16 semanas, os animais apresentaram morte dos neurônios responsáveis pela sensação de saciedade. "Os animais perdiam exatamente os neurônios que percebem que ele está alimentado e o levam a parar de comer", afirmou Bruna Bombassaro.

A gordura saturada é amplamente utilizada pela indústria de alimentos para oferecer características como crocância, maciez ou palatabilidade aos alimentos. É também a gordura presente em carnes, lácteos, ovos e manteiga. Em uma dieta saudável, esses alimentos trazem a quantidade de gordura que o corpo precisa.

A nutricionista comportamental Patrícia Cruz lembra que começamos a consumir gordura saturada desde a tenra idade: "Começamos a consumir gordura desde o nosso nascimento. O leite materno apresenta em sua composição gordura, boa parte sendo triglicérides. Mas de fato iniciamos o consumo de gordura saturada quando introduzimos em nossa dieta alimentos de origem animal como leite, derivados, carnes e aves".

A especialista ressalta que algumas pessoas são mais suscetíveis e acabam consumindo mais gordura saturada do que o tolerável. "Sabemos que alguns indivíduos mais vulneráveis apresentam vício em comer ou como chamamos 'Food Addictive' e que os alimentos altamente palatáveis (ricos em gordura e açúcar) estão entre os preferidos. Mas não podemos falar que alimentos ricos em gordura viciam. A análise deve ser mais ampla, isto é, precisamos avaliar o contexto do consumo", avalia.

Os alimentos ultraprocessados também trazem uma quantidade de gordura saturada muito maior do que o corpo está preparado para administrar. "Um hambúrguer de fast-food tem mais gordura saturada do que deveríamos comer no dia todo, em uma única refeição, associada, ainda, a um monte de sal e açúcar. O problema é o excesso", destacou Bruna Bombassaro, da Unicamp.

A endocrinologista Lívia Marcela ressalta que obesidade e diabete são as principais doenças associadas ao consumo excessivo de gordura saturada. "A obesidade pode gerar resistência a ação da insulina e com isso, ao longo do tempo, pode gerar diabete. Além de um aumento no risco cardiovascular, doenças como infarto e acidente vascular cerebral também são registradas", ponderou a médica.

Outro trabalho do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades investigou, em humanos, por meio de ressonância magnética, a resposta do hipotálamo frente a estímulos de glicose. O hipotálamo é a região do cérebro responsável pela identificação dos sinais da saciedade.

Nos indivíduos magros, foi verificada a resposta esperada da atividade do hipotálamo. Nos obesos, essa atividade ficou muito abaixo do esperado. "O hipotálamo não está sentindo a glicose como ele deveria sentir. Portanto, esse indivíduo não vai parar de comer, porque o cérebro não entendeu que ele consumiu aquela caloria e está satisfeito", apontou Bruna Bombassaro.

Cirurgia bariátrica e o consumo de gordura saturada

O terceiro grupo avaliado pelos pesquisadores da Unicamp foi de indivíduos obesos pós-cirurgia bariátrica. A resposta identificada foi intermediária. "O hipotálamo não respondia como um indivíduo magro, mas também já não respondia como um indivíduo obeso", explicou Bombassaro.

De acordo com a pesquisadora, esse resultado sinaliza uma recuperação neuronal parcial. Novos estudos estão sendo realizados para verificar se, ao longo prazo, a recuperação é total. "Outro trabalho do nosso grupo mostra o retorno de algumas das vias dessa inflamação quando o indivíduo volta a dieta normal. A princípio existe uma reversibilidade. Então, o segredo é realmente mudar completamente o hábito alimentar. Por isso falamos que a obesidade é social", ressalta.

Consumo de carboidrato X gordura

A 'vilanização' do carboidrato nos últimos anos também foi apontada pela pesquisadora como uma das responsáveis pelo aumento do consumo de gordura e, consequente, o aumento dos níveis de obesidade da população mundial.

Para Bruna Bombassaro, apesar de engordar se consumido em excesso, o carboidrato não é capaz de gerar a resposta inflamatória desencadeada pela gordura saturada. "O carboidrato não é reconhecido pelo corpo como um dano, como um perigo. Ele não interfere na resposta aos sinais de saciedade", afirmou Bruna.

Gordura saturada: consumir ou não?

Para a endocrinologista Lívia Marcela, é preciso consumir a gordura saturada com moderação: "Principalmente em alimentos que não passem por algum processo de industrialização, como por exemplo ovos ou carnes. Quanto menor a utilização de alimentos ultraprocessados mais você está acertando na sua escolha".

A nutricionista comportamental Patrícia Cruz afirma que a American Heart Association recomenda o consumo de 5 a 6% de gordura saturada do total do valor calórico da dieta. "Portanto, é preciso substituir o consumo de alimentos ricos em gordura saturada por alimentos mais saudáveis fontes de gordura insaturadas (monoinsaturada e poli-insaturadas), mas também sem excessos. Na prática devemos substituir o leite integral e queijos amarelos por versões desnatados, light e zero. Reduzir o consumo de cortes de carne vermelha com maior percentual de gordura (picanha, cupim, costela). Também retirar a pele de aves no momento do preparo. Mas não podemos parar só nisso", diz.

Para a especialista, é necessário investir nos 'alimentos protetores', acrescentar algumas frutas oleaginosas ou conhecidas também com nuts (castanhas, nozes, avelãs) e aumentar o consumo de fibras (frutas, verduras, legumes e cereais integrais).

Obesidade infantil

As pesquisas indicam que uma infância obesa aumenta em 30% a chance do indivíduo se tornar um adulto obeso. A obesidade na adolescência aumenta em 50% essa chance. Um indivíduo que teve infância e adolescência obesas tem, portanto, 80% de chances de ser um adulto obeso.

O grupo está investigando, agora, se esses dados são consequência apenas de hábitos alimentares ou se os danos causados no hipotálamo da criança teriam um caráter mais definitivo do que na vida adulta. "O consumo de alimentos ultraprocessados é cada vez maior. Pesquisas recentes apontam que um terço das crianças abaixo de dois anos consome refrigerantes ou bebidas açucaradas cinco ou mais vezes por semana", destacou Bruna Bombassaro.

Estadão
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