Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Maratona de Berlim: quando o plano muda no meio da prova

Ju Cassino chegou preparada para buscar 4h04, pensou em parar no km 22 e encontrou nos amigos a força para seguir até o fim

2 out 2026 - 18h02
(atualizado às 18h14)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A maratonista Ju Cassino relata sua superação na Maratona de Berlim ao mudar a estratégia após desgaste emocional e físico. Apesar do treino focado em tempo, o cansaço a fez querer desistir no km 22. Incentivada pelo marido, ela decidiu concluir o trajeto alternando corrida e caminhada. Amparada pelo apoio de amigos, torcedores e a energia do público, ela abandonou a meta do relógio e cruzou o Portão de Brandemburgo, transformando a frustração inicial em uma emocionante lição de resiliência.
Ju Cassino Maratona de Berlim Arquivo Pessoal 5
Ju Cassino Maratona de Berlim Arquivo Pessoal 5
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

Eu gosto muito de Berlim e estava especialmente animada para correr a maratona. Já tinha visitado a cidade outras vezes, inclusive o parque do antigo aeroporto de Tempelhof, onde fica a Expo. Em uma dessas visitas, fui até lá para ver um eclipse lunar. Desta vez, entrei no antigo terminal para retirar meu kit. Achei incrível ver a entrega acontecer em um espaço tão ligado à história e à arquitetura da cidade.

No dia em que fui, o processo fluiu bem. Peguei a pulseira, o número de peito e a camiseta sem grandes esperas. A Expo tinha marcas e produtos criados para celebrar não só a prova, mas também Berlim. Não vi nenhuma grande novidade, mas gostei daquela sensação de que a cidade inteira estava entrando no clima da maratona.

A largada confirmou essa impressão. Havia um DJ no alto do pórtico, músicas de vários países — até Ivete Sangalo tocou — e uma energia coletiva difícil de descrever. As pessoas batiam palmas juntas, se animavam, se preparavam para sair. Olhei ao redor e pensei: estou mesmo aqui.

Eu tinha feito um bom ciclo de treinos. Estava confiante, com um plano A de 4h04 e um plano B de 4h06. Na véspera, descansei e cuidei da alimentação, mas uma questão familiar no Brasil mexeu comigo e com o Dudu, meu marido. Dormi muito pouco e acordei cansada.

BANDEIRA SALVADORA

Antes de largar, encontrei as amigas Pri e Sofia, que também iam correr, e o Léo. As duas estavam com pequenas bandeiras do Brasil presas ao número de peito e me deram uma. Ainda não sabia o quanto aquela bandeirinha me ajudaria ao longo do dia.

Saí para correr por um percurso lindo, passando por lugares que eu conhecia e outros que redescobria em movimento. Só que, desde os primeiros quilômetros, o corpo parecia pesado. Perto do km 10, comecei a sentir que aquele talvez não fosse meu dia.

NO KM 22, UM NOVO PLANO

Eu sabia que encontraria o Dudu no km 22. Ele estaria com amigos que moram em Berlim, em um ponto de torcida com bateria de escola de samba. Então fiz um acordo comigo mesma: manteria o ritmo até lá, avisaria que ia parar e ele não ficaria preocupado.

Cheguei a esse ponto ainda correndo, mas sem conseguir imaginar outros 20 quilômetros pela frente. O Dudu segurava uma placa com os dizeres "Bora, Ju". Parei e disse que não queria continuar. Ele perguntou por quê. Eu só conseguia responder que estava muito cansada.

Momento de dúvida e o encontro com o marido, Dudu Marote (arquivo pessoal)
Momento de dúvida e o encontro com o marido, Dudu Marote (arquivo pessoal)
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

Foi ele quem me fez considerar outra possibilidade: seguir sem pressa, caminhando quando precisasse e trotando quando desse. Andou de mãos dadas comigo até o próximo ponto de hidratação. Chorei um pouco. Eu tinha treinado para uma prova e, naquele momento, precisava aceitar que faria outra.

Enchi minha garrafinha, respirei e segui. Corria um pouco, caminhava um pouco. Às vezes sentia o joelho ou a panturrilha quando voltava a trotar, então caminhava novamente. Aos poucos, parei de pensar no tempo que tinha planejado e passei a prestar atenção no que acontecia à minha volta.

Encontrei amigos correndo, como Beca Sales, Gui Celso e Karla Dellanoce. Na torcida, Marilene Ramos e Celani me viram passar e gritaram meu nome. Quando eu caminhava, pessoas olhavam para a bandeirinha no meu peito e gritavam "Go, Brasil!" ou "Go, Juliana!". Aquilo me dava ânimo para correr mais um trecho.

Em festa com os amigos Beca Sales, Gui Celso e Karla Dellanoce  (arquivo pessoal)
Em festa com os amigos Beca Sales, Gui Celso e Karla Dellanoce (arquivo pessoal)
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

ENERGIA QUE ME LEVOU ADIANTE

Um pouco antes do km 35, encontrei a turma da Run&Fun, que me acompanhava e esperava minha passagem. Me deram uma Coca-Cola; tomei um gole e continuei. Mais à frente, foi a vez da turma da MPR. O Cesinha me ofereceu outra Coca-Cola e fiquei alguns minutos com ele, o Brum e o Marcos Paulo. Quem tem amigos nessa vida tem tudo, né?

A mudança de ritmo também me mostrou duas maratonas na mesma prova. Até o km 22, eu estava cercada por gente correndo em busca de um tempo. Depois, passei a conviver com quem alternava corrida e caminhada, e com quem seguia só caminhando. Havia muitas maneiras de chegar. Naquele dia, a minha era uma delas.

A passagem pelo Portão de Brandembugo (Arquivo Pessoal)
A passagem pelo Portão de Brandembugo (Arquivo Pessoal)
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

Entre passos de caminhada e de corrida, a música, a torcida e os amigos me ajudaram a seguir. Até que atravessei o Portão de Brandemburgo. Depois de uma prova tão difícil, aquela chegada foi especialmente emocionante.

Meu tempo ficou longe do planejado. Precisei mudar de rota no meio dos 42,195 km e, quando tomei essa decisão, me senti frustrada. Hoje estou feliz por ter continuado. Saí de Berlim com a medalha, com uma história que não previa contar e já pensando na próxima.

Metros finais e a tão desejada medalha da Maratona de Berlim (arquivo pessoal)
Metros finais e a tão desejada medalha da Maratona de Berlim (arquivo pessoal)
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

* Ju Cassino é publicitária, profissional de marketing, maratonista, ciclista e diretora de operações da Milk, está à frente do planejamento e coordenação de produção e execução de grandes ações e projetos da agência.

Contra-Relógio
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra