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O núcleo da Terra está parando de girar, invertendo sua direção, e os humanos já estão sentindo os efeitos, sugere um estudo

Ondas sísmicas revelam uma mudança na rotação relativa do núcleo interno da Terra. O movimento ocorre lentamente e não produz efeitos perceptíveis no cotidiano.

19 set 2026 - 18h54
(atualizado às 19h00)
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Resumo
Cientistas detectaram, via ondas sísmicas, que o núcleo interno da Terra alterou sua rotação relativa ao manto nas últimas décadas, desacelerando entre 2008 e 2023. O fenômeno não significa que o centro do planeta parou literalmente, mas sim que sua velocidade oscila em relação à superfície. Essa dinâmica pode gerar variações mínimas de milissegundos na duração dos dias, porém é imperceptível para os humanos e não causa impactos diretos no cotidiano ou na integridade do planeta.

O núcleo interno da Terra passou por uma mudança de rotação detectada a partir de ondas sísmicas de terremotos repetidos. O fenômeno acontece a milhares de quilômetros de profundidade e envolve a interação entre núcleo, manto e rotação terrestre. Apesar de manchetes sugerirem que essa região "parou" e começou a girar ao contrário, o processo é mais sutil e não significa que o centro do planeta tenha simplesmente deixado de girar.

Como não existe acesso direto ao centro da Terra, geofísicos usam ondas sísmicas como uma espécie de ferramenta de investigação.
Como não existe acesso direto ao centro da Terra, geofísicos usam ondas sísmicas como uma espécie de ferramenta de investigação.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

O núcleo da Terra realmente parou de girar?

Não no sentido literal. O núcleo interno continua acompanhando a rotação do planeta. O que os pesquisadores medem é sua rotação relativa ao manto. Essa enorme esfera sólida, formada principalmente por ferro e níquel, pode se mover ligeiramente mais rápido ou mais devagar que as camadas externas da Terra.

Um estudo publicado na Nature em 2024 analisou registros sísmicos e encontrou evidências de que esse movimento relativo mudou de comportamento ao longo das últimas décadas. Os resultados indicam:

  • uma super-rotação gradual entre aproximadamente 2003 e 2008;
  • uma mudança no movimento por volta de 2008;
  • uma sub-rotação entre 2008 e 2023;
  • um retorno lento por posições que o núcleo já havia ocupado anteriormente.

Como terremotos revelaram a mudança de direção?

Como não existe acesso direto ao centro da Terra, geofísicos usam ondas sísmicas como uma espécie de ferramenta de investigação. O trabalho publicado na Nature reuniu 143 pares de terremotos repetidos, formados a partir de 121 eventos registrados entre 1991 e 2023 nas Ilhas Sandwich do Sul.

Algumas ondas atravessam o núcleo interno antes de chegar aos instrumentos instalados na superfície. Ao comparar terremotos muito semelhantes ocorridos em anos diferentes, os cientistas perceberam que determinados sinais mudavam e depois voltavam a apresentar formas anteriores. Esse comportamento indica que o núcleo interno pode ter retornado a posições relativas já ocupadas.

Por que uma esfera de ferro pode mudar sua velocidade?

O núcleo interno está cercado pelo núcleo externo líquido e submetido a diferentes forças no interior do planeta. O campo magnético, o fluxo do ferro líquido e a atração gravitacional exercida pelo manto participam dessa dinâmica complexa. Por isso, sua velocidade não precisa permanecer perfeitamente sincronizada com a superfície.

Entre os elementos envolvidos nessa interação estão:

  • o núcleo externo líquido, responsável por grande parte da geração do campo magnético;
  • o manto terrestre, que exerce acoplamento gravitacional sobre regiões profundas;
  • a transferência de momento angular entre diferentes camadas;
  • variações de velocidade observadas em escalas de anos ou décadas.
  • Como não existe acesso direto ao centro da Terra, geofísicos usam ondas sísmicas como uma espécie de ferramenta de investigação.
    Como não existe acesso direto ao centro da Terra, geofísicos usam ondas sísmicas como uma espécie de ferramenta de investigação.
    Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

Essa mudança altera a duração dos dias?

Pesquisas sobre a rotação do núcleo encontraram relações entre movimentos do interior terrestre e pequenas oscilações na duração do dia. Um estudo publicado na Nature Geoscience em 2023 identificou uma variação de várias décadas na rotação diferencial do núcleo interno que coincide com mudanças registradas na duração dos dias e no campo magnético terrestre. Isso não significa, porém, que o núcleo seja responsável sozinho por essas alterações.

Na prática, essas diferenças são extremamente pequenas e aparecem na escala de milissegundos. Atmosfera, oceanos, movimentos do manto e até redistribuições de massa dentro do planeta também interferem na velocidade de rotação da Terra. Para uma pessoa seguindo sua rotina, portanto, não existe a percepção de que o dia ficou subitamente mais curto ou mais longo.

Os humanos já conseguem sentir os efeitos dessa mudança?

Até agora, não há evidência de que a inversão do movimento relativo do núcleo interno esteja provocando efeitos diretamente perceptíveis no corpo humano ou mudanças repentinas na vida cotidiana. O estudo de 2024 se concentrou principalmente em demonstrar a progressão e a regressão do núcleo por meio de registros sísmicos. Ele não concluiu que pessoas estejam fisicamente sentindo essa alteração.

A importância da descoberta está em compreender melhor a dinâmica profunda da Terra. A rotação do núcleo interno, a circulação do núcleo externo, o campo magnético terrestre e pequenas variações na rotação do planeta fazem parte de um sistema interligado. A mudança detectada não indica que a Terra esteja prestes a parar, inverter sua rotação ou sofrer uma transformação brusca, mas oferece uma nova pista sobre processos que acontecem a mais de 5 mil quilômetros abaixo dos nossos pés.

Catraca Livre
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