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O Diabo Veste Prada 2: o que você perde quando começa a dar certo, uma análise psíquica

Muito além da moda, o filme revela como a busca por reconhecimento pode afastar uma pessoa de si mesma

4 mai 2026 - 18h39
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Há filmes que passam e vão embora, e há aqueles que continuam trabalhando dentro da gente mesmo depois que acabam. O Diabo Veste Prada é um desses. Muita gente olha para ele e enxerga só moda, luxo, aparência. Mas, quando a gente desacelera e observa melhor, percebe que a história fala de algo muito mais íntimo e desconfortável: a forma como a gente vai moldando quem é para caber em um lugar no mundo.

“O Diabo Veste Prada” vai além do glamour e expõe temas como identidade, poder, comparação e o risco de se perder ao tentar se encaixar
“O Diabo Veste Prada” vai além do glamour e expõe temas como identidade, poder, comparação e o risco de se perder ao tentar se encaixar
Foto: Reprodução/YouTube / Bons Fluidos

O que mais chama atenção não são as roupas, mas o tipo de poder que circula ali. Um poder silencioso, que não precisa se explicar, que organiza tudo ao redor sem esforço aparente. É isso que torna Miranda Priestly tão marcante na interpretação de Meryl Streep. Ela não levanta a voz, não pede, não negocia. E, mesmo sendo dura, distante e muitas vezes injusta, existe algo ali que inquieta, porque, em algum nível, a gente reconhece aquela posição como desejável. Não necessariamente bonita, mas sedutora.

Talvez porque Miranda não seja apenas uma personagem. Ela representa um lado que existe em todos nós, ainda que a gente não goste de admitir. Um lado que quer controle, reconhecimento, influência. Um lado que nem sempre é generoso, nem sempre é paciente, nem sempre é empático. A psicologia chama isso de sombra, conceito muito trabalhado por Carl Jung. A sombra não é o mal em si, mas tudo aquilo que a gente evita enxergar em si mesmo. E o problema não é ter esse lado, porque ele faz parte do humano. O problema é fingir que ele não existe, porque aquilo que a gente não reconhece continua agindo, só que de forma automática.

Ao longo do filme, o que mais chama atenção é a transformação da protagonista. Não é uma mudança brusca, não existe um ponto claro de virada. É algo gradual, silencioso. Ela começa a se adaptar, a entender o que é esperado, a responder melhor ao ambiente. E isso parece crescimento, parece amadurecimento. Mas, ao mesmo tempo, ela vai se afastando de si. Esse é um dos pontos mais delicados da história, porque a gente raramente percebe quando começa a deixar de ser quem é para se tornar quem funciona melhor.

Isso acontece fora da ficção o tempo todo. A gente aprende a se ajustar, a falar de determinada forma, a agir de um jeito que seja mais aceito, mais valorizado. E, quando percebe, já não sabe mais o que veio de dentro e o que foi moldado para caber. A adaptação, que é uma habilidade importante, pode se transformar em um afastamento silencioso de si mesmo.

O filme também mostra com muita clareza o efeito do poder. Existe uma ideia de que o poder transforma as pessoas, mas, muitas vezes, ele só revela. Quando alguém não precisa mais agradar, quando não depende tanto da aprovação, certos limites deixam de existir. E aí aparecem comportamentos que antes estavam contidos. Isso ajuda a entender por que personagens como Miranda são tão impactantes. Elas mostram uma versão mais crua do humano, sem filtros.

Mas esse lugar que parece tão forte também é extremamente solitário. Quanto mais alto alguém chega, mais precisa sustentar uma imagem, manter uma posição, evitar qualquer sinal de fragilidade. Não sobra muito espaço para falhar, para desacelerar, para simplesmente ser humano. E, aos poucos, as relações vão ficando mais estratégicas. Nem sempre é possível saber quem está ali por quem você é e quem está ali pelo que você representa.

Há também uma dimensão muito sutil que atravessa o filme inteiro: a forma como o valor pessoal vai sendo confundido com desempenho. As pessoas não são reconhecidas pelo que são, mas pelo quanto entregam, pelo quanto aguentam, pelo quanto conseguem se manter funcionando. Isso cria uma lógica perigosa, porque o reconhecimento passa a depender de resistência, e não de humanidade. Descansar vira fraqueza, desacelerar vira risco, e continuar produzindo passa a ser quase uma obrigação.

Outro ponto interessante é o ritmo. A vida vai ficando cada vez mais acelerada, sem espaço para pausa. As decisões são rápidas, as demandas constantes, e tudo acontece em um fluxo que não permite reflexão. E quando não há tempo para refletir, fica muito mais difícil perceber o que está sendo perdido no caminho. O excesso de movimento, muitas vezes, é uma forma de não entrar em contato com o que dói.

A comparação também está presente o tempo inteiro, ainda que de forma indireta. Existe uma hierarquia clara, e essa hierarquia define valor. Quem está mais próximo do poder é mais visto, mais ouvido, mais importante. E isso vai influenciando a forma como todos se posicionam. A pessoa deixa de se medir por si mesma e passa a se medir pelo lugar que ocupa em relação aos outros. Esse tipo de lógica cansa, porque sempre haverá alguém acima, alguém mais valorizado.

E talvez uma das coisas mais interessantes seja que o filme não aponta um culpado claro. Ele não faz um discurso direto dizendo o que é certo ou errado. Ele apenas mostra. E isso é o que torna tudo mais incômodo, porque não dá para culpar apenas uma pessoa. O sistema funciona porque é sustentado por todos que estão dentro dele, em maior ou menor grau.

Ao longo da história, também aparece uma sensação difícil de nomear. Quanto mais a protagonista se aproxima do que parecia ser o ideal, mais surge um vazio. Não é uma tristeza evidente, nem uma insatisfação clara. É algo mais sutil, como uma desconexão. E isso talvez seja uma das partes mais verdadeiras do filme. Nem sempre o problema é estar no lugar errado. Às vezes, o problema é perceber que o lugar certo, do jeito que foi imaginado, não preenche o que a gente esperava.

Talvez seja por isso que O Diabo Veste Prada continua tão atual. Porque ele não fala só de moda, nem de um mercado específico. Ele fala de um jeito de viver que está em muitos lugares hoje. Um jeito mais exigente, mais acelerado, mais orientado por performance e comparação.

No final, o filme não entrega uma resposta pronta, mas deixa uma pergunta que fica. Até que ponto vale a pena se adaptar tanto para chegar onde você quer? E, mais do que isso, o que você está deixando pelo caminho sem perceber? Reconhecer o próprio lado sombra, aceitar que ele existe e escolher com mais consciência como agir talvez seja uma forma de não se perder completamente nesse processo. Porque crescer, conquistar e evoluir são importantes, mas nada disso deveria custar a ponto de você já não se reconhecer mais quando olha para si mesmo.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

Bons Fluidos
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