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Não é 'só cólica': endometriose pode dar sinais ainda na adolescência 

Sintomas que surgem antes dos 19 anos podem levar mais de 12 anos para serem diagnosticados; especialista alerta para a normalização da dor menstrual

1 set 2026 - 16h10
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Resumo
A endometriose pode surgir na adolescência, mas a normalização de cólicas intensas faz o diagnóstico demorar, em média, 12 anos para jovens. No Brasil, o SUS registrou mais de mil internações de adolescentes pela condição na última década. Especialistas alertam que dores incapacitantes que afetam a rotina escolar e social não são normais e exigem investigação precoce, medida essencial para controlar a doença crônica, evitar complicações e preservar a fertilidade.

Sentir cólica durante a menstruação é uma experiência comum, especialmente nos primeiros anos depois da menarca. Mas quando a dor é tão intensa que faz uma adolescente faltar à escola, abandonar atividades ou não conseguir seguir a rotina, encará-la simplesmente como "coisa da idade" pode atrasar a identificação de um problema que também atinge meninas jovens: a endometriose.

Endometriose também pode surgir na adolescência; saiba quais sinais merecem atenção e por que a cólica incapacitante não deve ser normalizada
Endometriose também pode surgir na adolescência; saiba quais sinais merecem atenção e por que a cólica incapacitante não deve ser normalizada
Foto: Reprodução: Peopleimages.com/YuriArcurs / Bons Fluidos

Embora seja frequentemente associada à vida adulta, a doença pode começar a apresentar sinais ainda na adolescência. Dados brasileiros ajudam a dimensionar essa realidade. Um estudo publicado no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, elaborado a partir de informações do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, identificou 1.192 internações por endometriose entre adolescentes de 10 a 19 anos no país entre 2014 e 2024.

A maior parte dos registros, 1.046, ocorreu entre jovens de 15 a 19 anos. O levantamento encontrou ainda 39 ocorrências em crianças de até 9 anos no mesmo intervalo. O problema é que, quando os sintomas aparecem tão cedo, o caminho até descobrir a doença pode ser especialmente longo.

Endometriose pode levar mais de 12 anos para o diagnóstico

Informações divulgadas pela Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo (SOGESP) mostram que a idade em que os primeiros sinais aparecem está relacionada ao tempo necessário para chegar ao diagnóstico. Entre pacientes que começam a apresentar sintomas até os 19 anos, a espera é, em média, de 12,1 anos. Quando as primeiras manifestações surgem depois dos 30, esse intervalo é de aproximadamente 3,3 anos.

Uma das razões para tamanha diferença pode estar na normalização da dor menstrual durante a adolescência. A dismenorreia, nome dado à cólica menstrual intensa, é muito frequente nessa fase, com prevalência estimada entre 50% e 90% das adolescentes. Assim, uma dor que deveria ser investigada pode acabar sendo interpretada pela família - e até por profissionais - como parte natural do amadurecimento.

Para o ginecologista e cirurgião robótico Dr. Thiers Soares, referência no tratamento de endometriose, adenomiose e miomas, esse processo pode fazer com que uma adolescente passe anos convivendo com sintomas sem receber respostas.

"Eu costumo dizer que a mulher adulta com endometriose foi, quase sempre, uma adolescente com dor que não foi ouvida. Quando a cólica intensa é tratada como um rito de passagem da puberdade, perdemos anos preciosos de um diagnóstico que poderia ter começado ainda na escola, com a menina relatando a dor para os pais ou para o médico de família", explica o Dr. Thiers.

Quando a cólica na adolescência merece investigação?

Nem toda cólica significa endometriose. O ponto de atenção está principalmente na intensidade da dor e no impacto que ela provoca na vida da adolescente. Nos primeiros anos após a primeira menstruação, é comum que o ciclo ainda seja irregular. Essa característica esperada da adolescência, porém, pode contribuir para que outras alterações passem despercebidas.

Segundo Dr. Thiers, alguns sinais merecem atenção especial. Entre eles estão cólicas fortes a ponto de impedir a adolescente de ir à escola ou realizar tarefas habituais, dor na região pélvica mesmo fora da menstruação, desconforto para evacuar ou urinar durante o período menstrual e sangramento muito intenso.

Em outras palavras, mais importante do que simplesmente perguntar se existe cólica é observar o quanto aquela dor modifica a rotina. "Não é sobre alarmar as famílias a cada cólica, mas sobre ensinar as meninas, desde cedo, a diferenciar o desconforto esperado da dor que exige investigação. Essa educação evita anos de sofrimento silencioso e, em muitos casos, preserva a saúde reprodutiva no futuro", afirma o médico.

Diagnóstico precoce pode mudar a trajetória da paciente

A endometriose é uma doença crônica e não possui uma cura definitiva. Isso significa que o acompanhamento pode continuar ao longo da vida reprodutiva. Inclusive porque os sintomas podem retornar mesmo depois de um tratamento realizado durante a adolescência.

A abordagem para pacientes jovens depende das características de cada caso. O acompanhamento ginecológico pode combinar-se com tratamentos hormonais, utilizados para regular o ciclo e controlar a progressão da doença. O suporte psicológico também pode fazer parte do cuidado. Principalmente diante dos impactos que conviver com uma condição crônica pode trazer para a vida emocional, escolar e social.

Nos quadros em que há indicação, procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos podem ser considerados para retirar focos de endometriose. Isso levando em conta também a preservação da fertilidade da paciente.

É justamente nesse aspecto que identificar a doença cedo pode fazer diferença. "Quanto antes identificamos e tratamos a doença, maior a chance de controlar os sintomas, evitar cirurgias mais complexas no futuro e proteger a fertilidade dessa jovem para o futuro se ela decidir engravidar", completa Dr. Thiers.

Dor menstrual incapacitante não deve ser normalizada

Além do consultório ginecológico, o reconhecimento dos primeiros sinais pode começar dentro de casa, na escola ou durante consultas de rotina com pediatras e médicos de família. Se todos os meses uma adolescente precisa faltar às aulas, deixa de praticar esportes ou não consegue realizar atividades básicas devido à menstruação, o impacto merece ser levado a sério.

Por isso, Dr. Thiers defende uma rede de atenção capaz de ouvir essas jovens e encaminhar os casos suspeitos para investigação especializada, em vez de atribuir automaticamente a dor às transformações próprias da puberdade.

Falar sobre saúde menstrual desde cedo também ajuda meninas a conhecerem melhor o próprio corpo. O objetivo não é fazer com que cada desconforto se transforme em motivo de preocupação, mas ensinar que existe uma diferença entre uma cólica administrável e uma dor que paralisa a rotina.

Se a menstruação repetidamente impede uma adolescente de estudar, sair de casa ou realizar atividades cotidianas, suportar em silêncio não deve ser a única alternativa. Investigar o que está acontecendo pode evitar que uma jovem atravesse boa parte da vida sem saber a verdadeira origem de sua dor.

*Fonte: Oliverpress

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