Mistério da fé: cientistas mineiros investigam caso de brasileira que viveu 60 anos apenas se alimentando de hóstia
Paraplégica após uma queda na adolescência, Floripes Dornellas, a "Lola", passou décadas confinada a uma cama desafiando os limites conhecidos da medicina
A história de uma católica leiga brasileira está passando pelo crivo rigoroso da ciência. Conhecida carinhosamente como Lola, Floripes Dornellas de Jesus passou quase sete décadas deitada em uma cama, devido a uma queda na adolescência. O que mais impressiona em sua trajetória, no entanto, é a alegação de que ela passou a maior parte desse tempo sem comer, sem beber água e até mesmo sem dormir, sustentando-se exclusivamente com a Eucaristia.
Nesse sentido, o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), decidiu mergulhar de cabeça no caso para entender o que de fato aconteceu. A iniciativa partiu do psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, que conduz o estudo ao lado do gastroenterologista Julio Chebli e do estudante de Medicina Caio Almeida.
Sob o olhar da ciência e o "ceticismo saudável"
Para os cientistas, o objetivo principal neste momento é analisar o caso sob a perspectiva da fisiologia humana. Afinal, de acordo com o conhecimento médico atual, é impossível sobreviver por décadas sem hidratação, sono ou nutrientes básicos.
Por outro lado, a equipe faz questão de destacar que a abordagem utiliza um "ceticismo saudável", evitando conclusões precipitadas de fraude antes de uma análise minuciosa. Como Lola faleceu em 1999, os pesquisadores enfrentam o desafio de não poder monitorá-la em tempo real.
Para contornar essa barreira, a espinha dorsal da pesquisa consiste em:
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Coleta urgente de depoimentos de testemunhas oculares que conviveram com ela;
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Análise de laudos médicos da época e anotações de visitantes;
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Cruzamento de dados com relatos do geriatra Cláudio Bomtempo, que foi médico de Lola por cinco anos.
Segundo Bomtempo, Lola perdeu o apetite e o sono gradativamente após o acidente e, cerca de cinco anos depois, parou totalmente de comer e dormir. Surpreendentemente, ela não desenvolvia as escaras na pele comuns em pacientes acamados e mantinha exames sem sinais de anemia.
A "inédia eucarística" através dos séculos
Embora o caso pareça único, a história da Igreja Católica guarda outros registros semelhantes da chamada "inédia eucarística" — o fenômeno em que o indivíduo ingere apenas a comunhão. Contudo, cada caso possui suas particularidades. Santos e místicos como Santa Catarina de Sena (século 14), São Nicolau de Flüe (século 15) e, mais recentemente, a mística alemã Theresa Neumann e a mística portuguesa Alexandrina de Balasar também relataram o mesmo jejum absoluto. No caso da brasileira, a extrema duração do fenômeno e a total ausência de sono são os fatores que mais intrigam os especialistas.
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O caminho rumo aos altares do Vaticano
Lola sempre rejeitou a autopromoção e focava sua vida na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Apesar de sua discrição, a fama de santidade se espalhou e atrai fiéis até hoje. Em 2005, o Vaticano emitiu o nihil obstat (nada contra), concedendo a ela o título de "serva de Deus".
Em suma, o processo de canonização, que estava pausado, deve ter seu tribunal instalado oficialmente em breve na arquidiocese de Mariana. A expectativa é que os resultados do Nupes ofereçam um respaldo fundamental para os avaliadores religiosos.
O padre Rodney Francisco Reis da Silva, postulador da causa, reforça o valor dessa união entre laboratório e fé: "Esta é uma análise científica da qual a Igreja necessita para dar credibilidade moral e de fé ao processo, e mais ainda à idoneidade do candidato à honra dos altares."
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