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Homem abandonou a escola ainda adolescente para ajudar em casa, passou mais de 30 anos dizendo que "já era tarde demais" e só contou à família o que estava fazendo quando apareceu para o jantar carregando um caderno novo

Aos 49 anos, homem volta à escola após mais de três décadas e transforma pequenos avanços na leitura e na escrita em parte do recomeço.

25 set 2026 - 18h04
(atualizado às 18h05)
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Resumo
Após abandonar os estudos aos 16 anos para trabalhar e passar mais de três décadas adiando o retorno, Damião, aos 49 anos, matriculou-se secretamente na Educação de Jovens e Adultos (EJA) para superar a insegurança com a leitura e a escrita. Inicialmente receoso de fracassar, ele revelou a decisão à família ao ser descoberto com o material escolar e recebeu apoio na rotina. Enfrentando o cansaço e notas baixas, conquistou a autonomia de preencher formulários sem precisar de ajuda.

Aos 16 anos, Damião guardou o caderno no alto do armário e começou a trabalhar num depósito para ajudar em casa. Prometeu a si mesmo que voltaria à escola quando as contas melhorassem. Vieram outros empregos, uma família e mais de trinta anos em que sempre havia algo mais urgente. Aos 49, ele ainda resolvia problemas no trabalho com rapidez, mas congelava diante de um formulário longo. Numa terça-feira, passou em frente a uma escola de noite e viu adultos entrando com mochilas. Anotou o telefone num papel pequeno, guardou-o na carteira e não comentou com ninguém.

O medo de fracassar quase o fez esconder sua matrícula.
O medo de fracassar quase o fez esconder sua matrícula.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

Por que ele evitava contar que queria voltar?

Damião não tinha vergonha de trabalhar; tinha receio de parecer incapaz por não dominar conteúdos que seus filhos aprenderam cedo. Em reuniões da família, inventava que estava sem óculos quando precisava ler um documento complicado. Sabia reconhecer rotas, fazer cálculos práticos de estoque e negociar entregas, mas essas habilidades não substituíam a oportunidade de concluir a formação interrompida.

Antes da matrícula, perguntou à secretaria quais documentos precisava levar e se haveria uma turma compatível com seu horário. Descobriu uma modalidade de educação de jovens e adultos e preencheu a ficha com demora. Ao sair, comprou um caderno simples e escondeu-o na sacola do trabalho. Temia que a notícia chegasse em casa antes de saber se aguentaria a primeira semana.

Como foi sentar de novo numa sala de aula?

Na primeira noite, escolheu uma carteira perto da porta. Havia pessoas mais jovens e outras mais velhas que ele; ninguém parecia ter a mesma história. Quando a professora pediu que escrevessem sobre um dia comum, Damião descreveu o caminho do depósito à escola e precisou parar para lembrar uma palavra. Achou que o texto dos colegas sairia pronto enquanto ele ainda apagava o título.

Voltou no dia seguinte. Estudava meia hora antes de dormir e pedia explicação quando não entendia uma divisão feita no quadro. Faltou a duas aulas por causa de um turno extra e quase usou a ausência como desculpa para largar tudo. A possibilidade de retomar os estudos na vida adulta deixara de ser uma notícia distante; agora exigia que negociasse horários reais.

O que o caderno revelou em casa?

Depois de três semanas, a filha encontrou um exercício de matemática sobre a mesa. Damião disse primeiro que era de um colega do trabalho. A resposta não durou até o jantar. Ele tirou o caderno da bolsa e contou que se matriculara, mas não havia avisado porque achava que poderia fracassar. A filha perguntou em que noites precisava chegar mais cedo para estudar.

A família reorganizou uma tarefa da casa para que ele pudesse sair no horário da aula. Não transformou cada exercício concluído em celebração, o que lhe trouxe alívio. Ele queria ajuda para proteger aquele tempo, não uma plateia observando se erraria. A informação pública sobre a educação de jovens e adultos também mostrou que seu retorno fazia parte de uma modalidade organizada para trajetórias interrompidas.

Pequenas conquistas mostraram que aprender novamente ainda era possível.
Pequenas conquistas mostraram que aprender novamente ainda era possível.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

Houve uma prova que quase o fez desistir?

Houve. A primeira avaliação escrita voltou com correções em vermelho e uma nota abaixo da média da turma. Damião levou a folha dobrada no bolso o dia inteiro. No depósito, respondeu a todas as solicitações com a eficiência habitual; por dentro, repetia que o menino de 16 anos teria entendido aquilo melhor. Na aula seguinte, sentou ao lado de um colega que também precisava refazer parte do conteúdo.

Os dois reservaram quinze minutos antes do turno para revisar as questões. Damião percebeu onde tinha pulado etapas e refez os exercícios em vez de memorizar respostas. A nota seguinte melhorou, mas não foi o que mais o impressionou. Ele passou a ler o enunciado inteiro antes de decidir que já sabia, ou que nunca saberia, o que era pedido.

Qual foi a conquista que ele mostrou primeiro?

Meses depois, chegou para jantar com um formulário que precisava preencher no trabalho. Escreveu os dados, conferiu duas vezes e assinou sem procurar alguém para fazer por ele. A filha olhou o papel e perguntou se era esse o motivo do caderno novo sobre a mesa. Damião riu: ainda havia matérias difíceis e muitos meses de aula pela frente.

Não anunciou um diploma que ainda não tinha recebido. Contou apenas que não precisara inventar uma desculpa para pedir ajuda naquela tarde. O caderno permaneceu aberto ao lado do prato depois do jantar, com uma lista de palavras corrigidas na margem. Pela primeira vez em muitos anos, a expressão 'tarde demais' não servia para decidir o que ele faria na manhã seguinte.

Por que contar essa história sem uma formatura?

Damião ainda tinha etapas para concluir. Falar apenas do diploma futuro apagaria a coragem cotidiana de assistir à aula cansado, refazer contas e escrever com dúvidas na frente de outras pessoas. Sua família não sabia se ele terminaria no tempo previsto, e ele não precisava transformar uma matrícula em promessa de sucesso instantâneo.

No domingo, colocou o caderno na mochila ao lado do uniforme de trabalho. A rotina era apertada, e a segunda-feira continuaria exigente. Mesmo assim, quando recebeu um formulário novo, já não o empurrou para outra pessoa sem tentar ler. A mudança cabia naquele gesto pequeno, antes de qualquer cerimônia.

Catraca Livre
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