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Estamos desaprendendo? Os riscos do excesso de informações

Consumo acelerado de excesso de informações pode afetar memória, concentração, pensamento crítico e capacidade cognitiva ao longo do tempo. Vídeos de poucos segundos, excesso de estímulos digitais, respostas prontas fornecidas por inteligência artificial e cada vez menos tempo dedicado à leitura profunda. O comportamento moderno de excesso de informações está mudando rapidamente a forma como […]

1 jun 2026 - 15h25
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Consumo acelerado de excesso de informações pode afetar memória, concentração, pensamento crítico e capacidade cognitiva ao longo do tempo.

Vídeos de poucos segundos, excesso de estímulos digitais, respostas prontas fornecidas por inteligência artificial e cada vez menos tempo dedicado à leitura profunda. O comportamento moderno de excesso de informações está mudando rapidamente a forma como o cérebro humano consome conteúdos — e especialistas começam a levantar um alerta importante: estamos treinando o cérebro para pensar menos?

Foto: Revista Malu

Segundo o neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP Fernando Gomes, o cérebro funciona como um sistema de adaptação contínua. Quanto mais determinados circuitos são utilizados, mais fortalecidos eles ficam. O problema é que o padrão atual de hiperestimulação e consumo acelerado de conteúdo - com o excesso de informações - pode favorecer justamente o enfraquecimento de habilidades cognitivas importantes.

"O cérebro humano é extremamente plástico. Ele se adapta ao tipo de estímulo que recebe diariamente. Quando uma pessoa passa horas consumindo conteúdos rápidos, fragmentados e superficiais, o cérebro começa a reduzir tolerância para atividades que exigem atenção prolongada, raciocínio profundo e reflexão", explica.

A preocupação cresce em um momento em que plataformas digitais disputam atenção por meio de vídeos curtos, rolagem infinita e estímulos constantes, enquanto ferramentas de inteligência artificial começam a assumir funções antes realizadas pelo próprio pensamento humano, como escrita, pesquisa, síntese e organização de ideias.

Para o especialista, a questão não é demonizar tecnologia ou inteligência artificial, mas entender como o cérebro responde ao excesso de terceirização cognitiva.

"Quando usamos tecnologia para potencializar aprendizado, produtividade e criatividade, ela pode ser extremamente positiva. O risco aparece quando começamos a substituir processos mentais importantes em vez de estimulá-los. O cérebro precisa de desafios para continuar eficiente", afirma Fernando Gomes.

Leitura profunda está diminuindo

Entre os hábitos mais impactados pela transformação digital está a leitura prolongada. Segundo o neurocientista, ler exige um trabalho cerebral complexo envolvendo linguagem, memória, interpretação, imaginação, associação de ideias e capacidade de abstração.

"O cérebro da leitura é diferente do cérebro do consumo rápido de estímulos. A leitura profunda exige concentração sustentada, construção de imagens mentais, interpretação e pensamento crítico. Quando reduzimos muito esse hábito, determinadas redes neurais podem ser menos estimuladas", explica.

Além disso, o excesso de alternância entre aplicativos, notificações e conteúdos rápidos fragmenta continuamente a atenção.

Na prática, o cérebro passa a funcionar em estado constante de busca por novidade.

"O sistema de recompensa cerebral responde muito ao imediatismo digital. Vídeos curtos oferecem estímulos rápidos, mudança constante de informação e sensação frequente de novidade. Isso pode diminuir a tolerância cerebral para atividades mais lentas e cognitivamente exigentes", alerta.

Concentração e memória podem ser afetadas

Outro ponto de preocupação envolve a capacidade de foco prolongado.

Segundo Fernando Gomes, o cérebro hiperestimulado tende a apresentar mais dificuldade para sustentar atenção em tarefas longas, estudos, reuniões, leituras extensas ou atividades que exigem aprofundamento intelectual.

Além disso, a dependência crescente de ferramentas digitais também pode impactar processos relacionados à memória.

"O cérebro sempre utilizou ferramentas externas de apoio, como livros, agendas e computadores. Mas hoje existe uma terceirização muito intensa de funções cognitivas básicas. Muitas pessoas já não memorizam informações, não elaboram raciocínios completos e nem exercitam interpretação antes de buscar respostas prontas", explica.

A inteligência artificial pode mudar a forma de pensar

Com a popularização das inteligências artificiais generativas, especialistas começam a discutir os impactos cognitivos da automatização do pensamento.

"O risco não é a inteligência artificial substituir o ser humano. O risco é o ser humano parar de exercitar habilidades exclusivamente humanas, como reflexão crítica, criatividade, capacidade de dúvida, interpretação emocional e construção profunda do pensamento", afirma o neurocientista.

Ele ressalta que o cérebro funciona em lógica de uso e desuso.

Ou seja: circuitos frequentemente utilizados tendem a se fortalecer, enquanto funções menos estimuladas podem perder eficiência ao longo do tempo.

"O cérebro não foi feito apenas para consumir respostas. Ele foi feito para construir perguntas, conectar ideias, interpretar contextos e criar significado", destaca.

Como proteger o cérebro do excesso de informações

Por fim, apesar do cenário, o cérebro possui alta capacidade de adaptação e recuperação quando adequadamente estimulado. Entre os hábitos considerados importantes para preservação cognitiva estão:

• leitura regular;

• redução de hiperestimulação digital;

• períodos sem telas;

• sono adequado;

• atividade física;

• aprendizado contínuo;

• conversas presenciais;

• exercícios de memória e raciocínio;

• consumo menos fragmentado de informação.

"O cérebro precisa de profundidade, não apenas velocidade. O desafio da era digital não é abandonar a tecnologia, mas evitar que ela reduza nossa capacidade de pensar de forma complexa", conclui Fernando Gomes.

Revista Malu Revista Malu
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