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Endrick e o peso de virar promessa cedo demais: uma análise psíquica

Quando um jovem passa a ser chamado de "revelação", ele não ganha apenas torcida. Ganha também uma expectativa enorme, muitas vezes difícil de carregar

25 jun 2026 - 21h11
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Quando Endrick aparece em campo, não é só mais um jogador entrando para uma partida. Existe uma expectativa que chega antes dele. Ela vem nos comentários, nas comparações, nas manchetes, nas pessoas dizendo que ele é o futuro do futebol brasileiro, que precisa resolver o jogo, que precisa provar porque foi tão falado desde tão cedo. E é curioso pensar que ele ainda é muito jovem, mas já parece ter que lidar com uma cobrança que muitos atletas só enfrentam depois de anos de carreira. Talvez seja esse o lado menos comentado de ser uma revelação: enquanto todo mundo olha para o talento, quase ninguém pensa no peso emocional de ser visto como alguém que precisa dar certo.

A pressão sobre jovens talentos como Endrick levanta reflexões sobre desempenho e impactos emocionais de crescer sob os holofotes do futebol
A pressão sobre jovens talentos como Endrick levanta reflexões sobre desempenho e impactos emocionais de crescer sob os holofotes do futebol
Foto: Reprodução: Marc Atkins/Getty Images / Bons Fluidos

No futebol, a palavra "promessa" parece bonita. Parece até um elogio. E é, de certa forma. Significa que alguém enxergou algo especial naquela pessoa. Mas também pode virar uma espécie de prisão. Porque, quando um jovem é tratado como o próximo grande nome, ele não ganha só incentivo. Ele ganha pressa. A torcida quer ver resultado logo, quer gol, quer decisão, quer que ele entre e faça alguma coisa memorável. E, se isso não acontece, a mesma expectativa que parecia carinho pode virar crítica, cobrança e até deboche. É como se não existisse mais o direito de amadurecer com calma.

A gente costuma esquecer que talento não significa estar pronto. Uma pessoa pode ser muito boa, ter potencial, ter disciplina, ter brilho, e mesmo assim ainda estar aprendendo a lidar com pressão, frustração, comparação e exposição. No caso de um jogador jovem, isso acontece diante de milhões de pessoas. Cada partida vira uma prova. Cada minuto em campo pode virar assunto nas redes sociais. Cada decisão do técnico vira discussão. E, às vezes, o atleta nem teve tempo suficiente para mostrar quem é, mas já precisa lidar com a sensação de que está sendo avaliado o tempo todo.

Na psicologia do esporte, existe uma ideia importante: quando a pressão fica grande demais, o cérebro pode sair do modo mais espontâneo e entrar em estado de vigilância. A pessoa começa a pensar demais em algo que antes fazia de forma mais automática. Em vez de simplesmente jogar, ela começa a se observar jogando. Em vez de prestar atenção apenas na bola, pensa na torcida, no técnico, na crítica, no que vão escrever depois. E isso pode atrapalhar até quem tem muito talento. Não porque faltou preparo, mas porque ninguém rende igual quando sente que qualquer erro pode ser usado como prova de que não era tudo aquilo que imaginavam.

Talvez seja por isso que a história de Endrick chama tanto a atenção. Ela fala de futebol, claro. Mas fala também de uma coisa que muita gente conhece fora dos estádios: a sensação de precisar corresponder a uma expectativa muito grande. Tem gente que ouviu a vida inteira que era inteligente e depois cresceu com medo de errar. Tem gente que foi chamada de promissora no trabalho e começou a sentir que não podia mais demonstrar insegurança. Tem gente que virou "o orgulho da família" e passou a viver tentando não decepcionar ninguém.

Quando isso acontece, a pessoa deixa de fazer as coisas apenas porque gosta ou porque acredita nelas. Ela passa a fazer também para provar que merece estar ali. E isso cansa.

Existe uma diferença muito importante entre incentivo e pressão. Incentivo é quando alguém olha para você e diz: "eu acredito em você, vai no seu tempo". Pressão é quando a mensagem parece ser: "você precisa mostrar logo que é tudo isso". O primeiro dá segurança. O segundo pode gerar medo. E, quando alguém vive muito tempo com medo de decepcionar, até uma conquista pode perder um pouco da leveza. A pessoa não comemora porque venceu; ela apenas sente alívio porque, por enquanto, conseguiu escapar da crítica.

A torcida brasileira é apaixonada, e isso é uma das coisas mais bonitas do nosso futebol. Mas talvez a gente precise aprender a torcer sem transformar jovens jogadores em salvadores. Endrick não precisa carregar sozinho a ideia de que representa o futuro de uma geração. Ele precisa jogar, errar, aprender, amadurecer e descobrir qual será o próprio caminho. Porque ninguém consegue construir uma carreira saudável quando sente que precisa provar, todos os dias, que merece a história que os outros escreveram para ele.

No fim, talvez o mais interessante nessa discussão seja perceber que a pressa quase nunca ajuda alguém a florescer. Algumas pessoas explodem cedo. Outras precisam de mais tempo. Algumas têm momentos brilhantes muito jovens e depois enfrentam fases difíceis. Outras começam devagar e se tornam gigantes quando finalmente encontram espaço, confiança e maturidade. O problema é que, hoje, parece que todo mundo quer uma resposta imediata. E a vida real raramente funciona assim.

Endrick pode ser um grande jogador. Pode viver momentos importantes, pode se tornar um nome marcante do futebol brasileiro. Mas ele não precisa provar isso em cada partida, em cada lance ou em cada manchete. Talvez o melhor que a torcida possa fazer seja lembrar que, antes de ser uma promessa, ele é uma pessoa muito jovem aprendendo a lidar com uma expectativa enorme. E isso, por si só, já é um jogo difícil.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

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