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Quando o cabelo cai, o corpo fala

ão há uma única semana no consultório em que eu não receba homens e mulheres aflitos com a queda ou incomodados com a mudança na textura e na densidade dos fios

23 fev 2026 - 22h30
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Queda de cabelo nunca é apenas sobre cabelo. É sobre identidade. Sobre autoestima. Sobre a passagem do tempo. E, muitas vezes, sobre medo. Eu já escrevi aqui na minha coluna um guia completo sobre o tema, explicando causas, tipos de alopecias e os principais mecanismos envolvidos. Para quem quiser saber mais, entre aqui.

Queda de cabelo nunca é apenas sobre cabelo. É sobre identidade. Sobre autoestima. Sobre a passagem do tempo. E, muitas vezes, sobre medo
Queda de cabelo nunca é apenas sobre cabelo. É sobre identidade. Sobre autoestima. Sobre a passagem do tempo. E, muitas vezes, sobre medo
Foto: depositphotos.com / IgorVetushko / Bons Fluidos

Ainda assim, volto ao assunto porque ele insiste em aparecer. Não há uma única semana no consultório em que eu não receba homens e mulheres aflitos com a queda ou incomodados com a mudança na textura e na densidade dos fios. E, na maioria das vezes, a pergunta não é apenas "o que usar?", mas "por que isso está acontecendo comigo?".

O cabelo tem muito a nos dizer

Antes de pensar em fórmulas, é preciso compreender que ele obedece a um ciclo biológico. O fio não cresce de forma contínua e infinita. Ele passa por uma fase de crescimento que pode durar anos, depois por uma fase de transição e, por fim, por uma fase de queda. Perder de 50 a 100 fios por dia é fisiológico. O problema começa quando a fase de crescimento encurta ou quando os fios passam a nascer mais finos, mais frágeis, menos densos.

Nos homens, um dos protagonistas desse processo é a Dihidrotestosterona, derivada da testosterona. Ela pode se ligar aos receptores do folículo e, em pessoas geneticamente predispostas, acelerar a miniaturização capilar. Por isso a alopecia androgenética é tão comum no público masculino. Nas mulheres, a queda tende a ser mais multifatorial, envolvendo hormônios, carências nutricionais, alterações metabólicas e, com muita frequência, estresse.

O estresse não é um detalhe

Quando vivemos sob tensão constante, elevamos o cortisol e estimulamos mediadores inflamatórios. Esse cenário favorece o estresse oxidativo, que é o desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade antioxidante do organismo. O folículo capilar é altamente ativo e depende de boa oxigenação e nutrição. Em um ambiente inflamado e oxidativo, ele se torna vulnerável. A fase de crescimento pode encurtar. A queda pode aumentar.

Por isso, melhorar a microcirculação é tão importante. Cada fio nasce a partir de um bulbo que precisa receber oxigênio, aminoácidos, ferro, zinco, vitaminas e energia celular. Esse suprimento chega por meio de pequenos vasos sanguíneos no couro cabeludo. Quando essa circulação está comprometida, o folículo passa a funcionar em um ambiente menos favorável. Menos oxigênio significa menor produção de energia. Menos nutrientes significam fios mais finos e crescimento mais lento.

Melhorar a circulação é garantir que o folículo receba o que precisa e consiga eliminar resíduos metabólicos com eficiência. Trabalhar com antioxidantes significa proteger esse terreno. Radicais livres podem danificar membranas celulares, proteínas estruturais e o próprio ambiente ao redor do folículo. Quando há excesso dessas moléculas instáveis, instala-se uma inflamação silenciosa que prejudica o ciclo capilar.

Algumas plantas podem contribuir nesse processo. O ginkgo biloba favorece a microcirculação e melhora a perfusão periférica. O chá verde é rico em catequinas antioxidantes que ajudam a reduzir o impacto do estresse oxidativo. O alecrim possui compostos com ação antioxidante e anti-inflamatória, além de possível efeito favorável na circulação. Já o pinus pinaster, rico em proantocianidinas, protege o endotélio vascular e pode melhorar a função microvascular, favorecendo a oxigenação do couro cabeludo.

Na via hormonal, a serenoa repens exerce ação moduladora sobre a enzima responsável por converter testosterona em DHT. Sua atuação tende a ser mais suave quando comparada a medicamentos como finasterida e dutasterida. Há ainda o minoxidil, utilizado em formulações tópicas ou orais, que pode prolongar a fase de crescimento. São opções eficazes e, em muitos casos, fundamentais. Porém, por atuarem de maneira mais direta em vias hormonais ou vasculares, podem estar associadas a efeitos adversos em parte dos pacientes.

Não se trata de opor natural e alopático. Trata-se de compreender intensidade de intervenção e individualização. Alguns quadros exigem bloqueio hormonal mais potente. Outros respondem bem à modulação metabólica, ao controle do estresse, ao ajuste nutricional e à fitoterapia.

Outro ponto essencial é alinhar expectativa e fisiologia. O fio que já entrou na fase de queda não será mantido por nenhuma cápsula. Quando iniciamos uma estratégia natural, a redução da queda costuma ser percebida após seis a oito semanas. A melhora mais visível na densidade pode surgir após três ou quatro meses. Crescimento capilar exige constância. O cabelo responde ao tempo biológico, não à ansiedade humana.

Nada disso funciona se a base estiver fragilizada. O fio é composto majoritariamente por proteína. Sem ingestão adequada de aminoácidos, ferro, zinco, vitaminas do complexo B e vitamina D, o organismo prioriza funções vitais e deixa o cabelo em segundo plano. A alimentação é pilar fundamental. O couro cabeludo também precisa de cuidados consistentes, limpeza adequada e escolha correta de produtos.

Queda de cabelo raramente tem causa única. Hormônios, genética, estresse, inflamação, nutrição e hábitos diários se entrelaçam. O fio é um reflexo silencioso do que acontece internamente. Talvez a pergunta mais importante não seja apenas qual produto usar, mas o que o corpo está tentando sinalizar. Porque fortalecer o cabelo começa por fortalecer o terreno onde ele nasce.

Bons Fluidos
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