Quando o cabelo cai, o corpo fala
ão há uma única semana no consultório em que eu não receba homens e mulheres aflitos com a queda ou incomodados com a mudança na textura e na densidade dos fios
Queda de cabelo nunca é apenas sobre cabelo. É sobre identidade. Sobre autoestima. Sobre a passagem do tempo. E, muitas vezes, sobre medo. Eu já escrevi aqui na minha coluna um guia completo sobre o tema, explicando causas, tipos de alopecias e os principais mecanismos envolvidos. Para quem quiser saber mais, entre aqui.
Ainda assim, volto ao assunto porque ele insiste em aparecer. Não há uma única semana no consultório em que eu não receba homens e mulheres aflitos com a queda ou incomodados com a mudança na textura e na densidade dos fios. E, na maioria das vezes, a pergunta não é apenas "o que usar?", mas "por que isso está acontecendo comigo?".
O cabelo tem muito a nos dizer
Antes de pensar em fórmulas, é preciso compreender que ele obedece a um ciclo biológico. O fio não cresce de forma contínua e infinita. Ele passa por uma fase de crescimento que pode durar anos, depois por uma fase de transição e, por fim, por uma fase de queda. Perder de 50 a 100 fios por dia é fisiológico. O problema começa quando a fase de crescimento encurta ou quando os fios passam a nascer mais finos, mais frágeis, menos densos.
Nos homens, um dos protagonistas desse processo é a Dihidrotestosterona, derivada da testosterona. Ela pode se ligar aos receptores do folículo e, em pessoas geneticamente predispostas, acelerar a miniaturização capilar. Por isso a alopecia androgenética é tão comum no público masculino. Nas mulheres, a queda tende a ser mais multifatorial, envolvendo hormônios, carências nutricionais, alterações metabólicas e, com muita frequência, estresse.
O estresse não é um detalhe
Quando vivemos sob tensão constante, elevamos o cortisol e estimulamos mediadores inflamatórios. Esse cenário favorece o estresse oxidativo, que é o desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade antioxidante do organismo. O folículo capilar é altamente ativo e depende de boa oxigenação e nutrição. Em um ambiente inflamado e oxidativo, ele se torna vulnerável. A fase de crescimento pode encurtar. A queda pode aumentar.
Por isso, melhorar a microcirculação é tão importante. Cada fio nasce a partir de um bulbo que precisa receber oxigênio, aminoácidos, ferro, zinco, vitaminas e energia celular. Esse suprimento chega por meio de pequenos vasos sanguíneos no couro cabeludo. Quando essa circulação está comprometida, o folículo passa a funcionar em um ambiente menos favorável. Menos oxigênio significa menor produção de energia. Menos nutrientes significam fios mais finos e crescimento mais lento.
Melhorar a circulação é garantir que o folículo receba o que precisa e consiga eliminar resíduos metabólicos com eficiência. Trabalhar com antioxidantes significa proteger esse terreno. Radicais livres podem danificar membranas celulares, proteínas estruturais e o próprio ambiente ao redor do folículo. Quando há excesso dessas moléculas instáveis, instala-se uma inflamação silenciosa que prejudica o ciclo capilar.
Algumas plantas podem contribuir nesse processo. O ginkgo biloba favorece a microcirculação e melhora a perfusão periférica. O chá verde é rico em catequinas antioxidantes que ajudam a reduzir o impacto do estresse oxidativo. O alecrim possui compostos com ação antioxidante e anti-inflamatória, além de possível efeito favorável na circulação. Já o pinus pinaster, rico em proantocianidinas, protege o endotélio vascular e pode melhorar a função microvascular, favorecendo a oxigenação do couro cabeludo.
Na via hormonal, a serenoa repens exerce ação moduladora sobre a enzima responsável por converter testosterona em DHT. Sua atuação tende a ser mais suave quando comparada a medicamentos como finasterida e dutasterida. Há ainda o minoxidil, utilizado em formulações tópicas ou orais, que pode prolongar a fase de crescimento. São opções eficazes e, em muitos casos, fundamentais. Porém, por atuarem de maneira mais direta em vias hormonais ou vasculares, podem estar associadas a efeitos adversos em parte dos pacientes.
Não se trata de opor natural e alopático. Trata-se de compreender intensidade de intervenção e individualização. Alguns quadros exigem bloqueio hormonal mais potente. Outros respondem bem à modulação metabólica, ao controle do estresse, ao ajuste nutricional e à fitoterapia.
Outro ponto essencial é alinhar expectativa e fisiologia. O fio que já entrou na fase de queda não será mantido por nenhuma cápsula. Quando iniciamos uma estratégia natural, a redução da queda costuma ser percebida após seis a oito semanas. A melhora mais visível na densidade pode surgir após três ou quatro meses. Crescimento capilar exige constância. O cabelo responde ao tempo biológico, não à ansiedade humana.
Nada disso funciona se a base estiver fragilizada. O fio é composto majoritariamente por proteína. Sem ingestão adequada de aminoácidos, ferro, zinco, vitaminas do complexo B e vitamina D, o organismo prioriza funções vitais e deixa o cabelo em segundo plano. A alimentação é pilar fundamental. O couro cabeludo também precisa de cuidados consistentes, limpeza adequada e escolha correta de produtos.
Queda de cabelo raramente tem causa única. Hormônios, genética, estresse, inflamação, nutrição e hábitos diários se entrelaçam. O fio é um reflexo silencioso do que acontece internamente. Talvez a pergunta mais importante não seja apenas qual produto usar, mas o que o corpo está tentando sinalizar. Porque fortalecer o cabelo começa por fortalecer o terreno onde ele nasce.