Puerpério expõe desafios invisíveis para a saúde mental materna
A ambivalência do pós-parto surpreende muitas mães
Psicanalista propõe olhar cuidadoso para este momento de exaustão e ambivalência
As mulheres costumam associar a chegada de um bebê a um dos momentos mais felizes da vida. Entretanto, quando enfrentam o puerpério, muitas revelam exaustão, ambivalência emocional e uma grande transformação psíquica que ainda recebe pouca atenção.
O baby blues é um período temporário e comum de estresse e ansiedade devido às alterações hormonais bruscas. Quando os sentimentos de exaustão e tristeza profunda persistem, os profissionais de saúde consideram o quadro uma Depressão Pós-Parto, e nesse momento a mulher deve buscar ajuda obrigatória.
Um levantamento realizado pela FioCruz divulgou que mais de 25% das mães no Brasil são afetadas pela condição. É nesse contexto que a psicanalista e apresentadora do podcast Onda, Octavie Laroque, propõe um olhar mais honesto sobre o pós-parto.
Seus sentimentos importam
Para ela, o puerpério não é apenas um período de adaptação à rotina com o bebê, mas uma experiência de cuidado com seus próprios sentimentos. "Cuidar da saúde mental no pós-parto não é uma fraqueza, a maternidade é uma experiência de intensidade fora do comum, uma verdadeira rearticulação psíquica", explica.
O silêncio e a culpa ainda atravessam o sofrimento psíquico no puerpério. A expectativa social de que a maternidade seja naturalmente instintiva e feliz dificulta que muitas mulheres reconheçam e verbalizem sentimentos como tristeza, irritação, solidão e até distanciamento em relação ao bebê.
"O que mais aparece nos relatos na Onda é a questão da solidão no puerpério, uma solidão concreta ou uma solidão psíquica. O cuidado com o bebê não pode ser acompanhado do abandono da mãe: ninguém se torna mãe sozinha. É importante ser reconhecida como mãe pelos outros e ser amparada diante da novidade desse papel 'Não se nasce mãe, torna-se mãe'", afirma Octavie.
A falta de uma rede de apoio estruturada também contribui para o agravamento desse cenário. Em uma sociedade que ainda delega à mulher a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado, o puerpério pode se tornar um período de isolamento intenso. Segundo a psicanalista, não é somente um problema individual, mas também coletivo.
Para repensar
Octavie propõe uma reflexão que busca questionar a ausência de suporte para as mães: "Como uma mãe que se sente abandonada poderia cuidar de um bebê, que depende totalmente dela? Como sociedade precisamos nos perguntar: quem sustenta o par 'mãe-bebê' para que a palavra, o afeto e o vínculo possam acontecer?".
O debate sobre saúde mental materna ganha ainda mais relevância diante de quadros como a depressão pós-parto, que pode se manifestar de forma silenciosa e progressiva. Mais do que identificar sintomas, Octavie defende a necessidade de ampliar o espaço de escuta para essas mulheres.
"O pós-parto, é um momento de transparência psíquica, um tempo de plasticidade emocional. Se houver acolhimento, a mulher integra seu passado e se fortalece; se houver solidão, o mesmo processo pode desorganizar ao ponto de adoecer. Insisto na importância de falar do parto e do que vem depois. O relato é essencial para que a mulher reencontre o seu eixo. Pedir ajuda e encontrar soluções é um sinal de força.", afirma.
Ao trazer essas reflexões também para o podcast Onda, a psicanalista reforça a importância de construir narrativas mais realistas sobre a maternidade. Falar sobre o puerpério, nesse sentido, não é apenas informar, mas abrir espaço para que outras mulheres se reconheçam e, sobretudo, deixem de se sentir sozinhas.
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