Mais de 2 milhões de crianças já recorrem à IA para pedir conselhos
Chatbots começam a ocupar espaço nos desabafos de crianças e adolescentes, mas especialistas alertam que tecnologia não substitui vínculos humanos
Milhões de crianças e adolescentes já recorrem à inteligência artificial em busca de apoio emocional e conselhos, atraídos pela agilidade e ausência de julgamento. O fenômeno evidencia a crescente solidão dos jovens, mas especialistas alertam que os chatbots não compreendem sentimentos reais e podem falhar. Diante disso, o papel de pais e educadores não é banir a tecnologia, mas promover a consciência crítica e garantir que as conexões virtuais não substituam os vínculos humanos.
A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma ferramenta usada para fazer pesquisas, ajudar nos estudos ou criar imagens e textos. Entre crianças e adolescentes, os chatbots começam a ocupar um espaço muito mais íntimo: o das conversas e conselhos sobre sentimentos, preocupações e problemas pessoais.
Em vez de procurar imediatamente os pais, amigos ou outros adultos de confiança, alguns jovens estão recorrendo à IA quando precisam desabafar ou pedir uma orientação. A facilidade ajuda a entender o fenômeno. Afinal, o chatbot está disponível a qualquer momento. Ele também responde em poucos segundos e não demonstra surpresa ou julgamento diante do que o contam.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), reunidos em dez países, mostram a dimensão dessa mudança de comportamento. Segundo o levantamento, crianças utilizam recursos de inteligência artificial em uma proporção mais de três vezes superior à observada entre adultos. Mais de 2 milhões delas já recorrem à tecnologia em busca de conselhos sobre questões pessoais que as preocupam.
IA já virou espaço para falar sobre sentimentos
A tendência também aparece em pesquisas voltadas especificamente à saúde emocional. Um estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics identificou que 19,2% dos jovens norte-americanos entre 12 e 21 anos já procuraram chatbots para obter conselhos ou algum tipo de ajuda em momentos de tristeza, nervosismo, irritação ou estresse.
Isso representa aproximadamente 8,2 milhões de jovens. Outro dado chama a atenção: entre aqueles que procuram a tecnologia para esse tipo de apoio, 63,3% não contam a ninguém que estão fazendo isso.
Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, escola especializada em IA, Ciência da Computação e Tecnologia, o comportamento precisa ser compreendido dentro de uma realidade em que os recursos digitais estão presentes praticamente o tempo todo.
"A tecnologia se tornou uma presença constante na vida dos jovens e, por estar disponível o tempo todo, acaba sendo procurada também para os momentos mais delicados. Não é o caso de tratar a IA como uma ameaça, mas de entender por que o jovem recorre a ela e garantir que saiba diferenciar uma ferramenta tecnológica de uma relação humana", afirma.
No Brasil, um em cada cinco estudantes procura a IA quando se sente sozinho
O fenômeno não está restrito a outros países. Uma pesquisa da Arco Educação, realizada com 936 estudantes brasileiros entre o 6º ano do Ensino Fundamental e o 3º ano do Ensino Médio, mostrou que um em cada cinco participantes utiliza inteligência artificial quando está se sentindo sozinho ou simplesmente precisa conversar.
Os resultados ajudam a compreender por que a tecnologia pode encontrar espaço na vida emocional dessa faixa etária. Mais da metade dos estudantes entrevistados (52%) afirmou ter alguma ou muita dificuldade para fazer novas amizades. Outros 17% disseram sentir solidão frequentemente.
Para um jovem que está envergonhado, com medo de ser criticado ou sem alguém disponível para conversar naquele momento, escrever para um chatbot pode parecer mais fácil do que iniciar uma conversa presencial. Mas é justamente essa facilidade que exige atenção.
Por que uma resposta convincente nem sempre é um bom conselho?
Chatbots conseguem produzir respostas acolhedoras, organizadas e aparentemente seguras. Isso, porém, não significa que compreendam verdadeiramente a situação vivida pelo usuário. Nem que aquilo que dizem seja necessariamente a orientação mais adequada.
Sistemas de inteligência artificial trabalham a partir de modelos tecnológicos e podem cometer erros, interpretar situações de maneira inadequada ou reforçar determinadas ideias apresentadas pelo próprio usuário. Algumas ferramentas também desenvolvem-se para estimular a continuidade das interações. Isso torna ainda mais importante ensinar crianças e adolescentes a analisar criticamente aquilo que recebem como resposta.
Além disso, empresas, com regras, critérios e objetivos próprios desenvolvem esses produtos. Por isso, compreender minimamente como essas tecnologias funcionam faz parte da educação digital das novas gerações.
Uma resposta que parece empática não equivale à escuta de um amigo, familiar, professor ou profissional preparado para compreender o contexto daquela criança ou adolescente. A tecnologia pode auxiliar na organização dos pensamentos ou até ajudar alguém a encontrar palavras para explicar o que está sentindo, mas não deveria se transformar na única fonte de apoio para problemas pessoais.
Proibir a IA não é a única resposta
Diante desse cenário, a participação dos pais e responsáveis pode ir além de fiscalizar quais aplicativos os filhos utilizam ou estabelecer limites de tempo diante das telas. Conversar sobre o assunto também é uma forma de proteção.
Perguntar como o jovem utiliza a IA, explicar que as respostas podem estar erradas e demonstrar disponibilidade para ouvir assuntos difíceis ajudam a construir uma relação mais consciente com a tecnologia.
Também é importante observar quando o chatbot começa a ocupar um lugar que antes pertencia às relações humanas. Se uma criança prefere conversar exclusivamente com a IA sobre aquilo que sente, evita procurar pessoas próximas ou demonstra sofrimento emocional persistente, vale investigar o que está por trás desse comportamento e ampliar sua rede de apoio.
"A inteligência artificial vai fazer cada vez mais parte da rotina das novas gerações, e não adianta ensiná-las a simplesmente evitar. É preciso prepará-las para utilizá-la com consciência, entendendo que a tecnologia pode ampliar possibilidades, mas não substitui vínculos, diálogo e a presença de pessoas", conclui Giroto.
A questão, portanto, talvez não seja impedir que crianças e adolescentes conversem com a inteligência artificial, mas ajudá-los a compreender o lugar que ela deve ocupar. Um chatbot pode estar disponível 24 horas por dia e responder imediatamente. Ainda assim, disponibilidade tecnológica e vínculo humano são coisas diferentes - e saber reconhecer essa diferença será cada vez mais importante para quem está crescendo em um mundo cercado por IA.
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