Cultura do estupro no Brasil "é achar que o corpo da mulher é sempre um convite"
Caso de jovem estuprada após ser deixada sozinha na porta de casa levanta debate sobre aumento dos casos de violência contra mulher
Mais um caso de estupro tomou conta do noticiário nacional nesta semana. O crime aconteceu na madrugada de domingo (30), em Belo Horizonte: uma jovem de 22 anos foi estuprada após ser deixada na porta de casa, desacordada. O suspeito é um homem que passou na rua logo depois e a levou para um campo de futebol.
Essa história remete à cultura do estupro, tão presente na sociedade brasileira onde esse e outros crimes contra a mulher são recorrentes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, divulgado no último dia 20, destaca isso.
O ano registrou o maior número de estupros da história do levantamento: 74.930 ocorrências registradas. A maioria das vítimas - 6 a cada 10 - tem menos de 13 anos, o que chama atenção para o abuso infantil.
Mas outro ponto destacado pela diretora-executiva do anuário, Samira Bueno, em entrevista ao podcast "O Assunto" é que vítimas a partir dos 14 anos costumam sofrer mais abusos entre sexta-feira e domingo, à noite e de madrugada. Um detalhe relacionado a ambientes de festas em que meninas e mulheres são vulnerabilizadas.
Foi o que aconteceu com a jovem de Belo Horizonte e com outras mulheres cujos casos ganharam repercussão nacional - jogadores de futebol, como Daniel Alves e Robinho, estão entre os acusados, por exemplo.
O primeiro está preso na Espanha e, nesta quarta-feira (2), foi indiciado formalmente por estupro. Já o segundo foi condenado na Itália, mas pela legislação brasileira, não pode ser extraditado. A Justiça do país europeu quer que ele cumpra a pena no Brasil. Ambos negam o crime.
Cultura do estupro
Para a advogada Thayná Silveira, é esse contexto social que torna o caso da jovem estuprada em Belo Horizonte tão ilustrativo sobre a cultura do estupro. "Um cara que vê uma mulher completamente desacordada, a coloca nas costas, caminha por cerca de 3km na madrugada e a deixa jogada num campo", ressalta em entrevista ao Terra.
É achar que o corpo da mulher é sempre um convite para satisfazer a lascívia de abusadores. Ela não tinha condições de dizer não, destaca Thayná Silveira
Tal análise é semelhante a de Deborah de Mari, pesquisadora e ativista do "Força Meninas". Em conversa com o portal, ela aponta a omissão de terceiros que foram deixando a vítima desamparada ao longo do caminho. "Como é que ninguém viu isso?", pontua, em referência à caminhada que o suspeito fez carregando a vítima.
"Com certeza alguém viu e todo mundo se omitiu. Até quando a sociedade a gente vai se omitir quando a gente vê uma menina sofrendo violência, quando a gente vê uma mulher com namorado puxando pelo braço ou até esse caso mais absurdo ainda, de um homem carregar essa muher nas costas e não receber denúncia de ninguém?".
Quem protege as mulheres?
A situação retrata um país onde os índices de violência contra a mulher são crescentes e a sociedade ainda descredibiliza e culpabiliza as vítimas. Nesse caso em questão, se destaca ainda a falta de cuidado com a mulher, deixada sozinha, embriagada no carro de aplicativo, e depois novamente sozinha, desacordada, na rua.
Mulheres sempre estão no olho do furacão. Sentimos medos de muitas situações que passam despercebidas por homens e temos sempre que pensar e procurar mecanismos de proteção para evitarmos micro e macroviolências advindas do machismo estrutural, avalia Thayná.
Sem a devida segurança do estado ou o respeito dos homens, as mulheres levantam uma questão que Deborah, também fundadora da plataforma educativa "Força, Meninas", considera emergencial: como cuidar, ajudar e proteger nossas semelhantes?
"[Precisamos] Conversar com as meninas e depois ajudá-las a pensarem como criar uma rede de segurança quando elas saem. Eu não vou falar para as meninas: 'não saiam, não bebam, não se divirtam mais'. A gente levou anos pra conquistar essa liberdade. O meu apelo é para que a gente consiga, sim, rede de segurança forte pra obter apoio quando preciso".
De certo modo, é o que já fazem mulheres que se organizam em coletivos ou mesmo em seus pequenos grupos íntimos, formando redes de proteção e suporte paralelas às ações de segurança pública. Isso vai desde fazer companhia ao andar na rua - movimento que ganhou até nome com o "Vamos juntas?", em 2015 - a iniciativas de acolhimento e assistência a vítimas de violência doméstica, como o aplicativo PenhaS, do Instituto AzMina. Thayná é também gerente da plataforma, disponível para download gratuitamente nos smartphones.
"A forma como mulheres - amigas, mães, filhas e outras - devem se proteger é sempre segurando a mão de uma outra mulher. É estar atenta a situações em que coloquem outras mulheres em risco e tentar proteger. É ver alguma mulher sendo cercada e puxá-la mesmo sem saber quem é e fingir uma conversa para que ela saiba que você está ali. É compartilhar uma viagem, fazer uma escuta sem julgamentos e, principalmente, não culpabilizá-la por violências sofridas. Não é uma escolha ser vítima", reforça.
São atos que põem em prática o conceito de sororidade, que se refere à união, solidariedade e companheirismo entre mulheres. Valores por muitos anos não estimulados na sociedade.
Quantos homens pedem para suas amigas avisarem quando chegam em casa? Ou levam ela em segurança?
Saiba mais sobre o caso
A história da jovem da capital mineira começa na noite de sábado (29), quando ela curtia a "Tardezinha", evento do cantor Thiaguinho, com amigos e colegas de trabalho. Segundo o G1 MG, ela ingeriu grande quantidade de bebidas alcoólicas e, já de madrugada, um amigo pediu um carro de aplicativo para deixá-la em casa.
Ele teria compartilhado o trajeto da viagem com o irmão mais novo da moça, que estava em casa. Mas o rapaz não viu a mensagem, assim como também não ouviu quando o motorista tocou a campainha. Após ataques de pessoas que o responsabilizam pela violência que a irmã sofreu, a família esclareceu ao programa “Encontro” que ele havia tomado remédios que dão sono, por isso não ouviu os chamados.
Ainda de acordo com o portal, imagens das câmeras de segurança da rua mostram o carro chegar ao destino final por volta das 3h. Nesse momento, o motorista desce do carro e toca o interfone. Ele insiste por cerca de 10 minutos até que usa a ajuda de um pedestre que passava pelo local para carregar a jovem e deixá-la sentada no meio-fio, apoiada em um poste.
Depois disso, o motorista ainda permanece no local, tentando tocar o interfone. Sem sucesso, ele vai embora às 3h17.
Apenas cinco minutos depois, às 3h22, o suspeito do crime aparece na rua e carrega a mulher, que está desacordada. Ela só acordou na manhã de domingo, quando socorristas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), acionados por moradores da região, chegaram ao local.
A vítima foi encontrada em um campo de futebol. Ela estava coberta por um pano, mas com a calça e a calcinha abaixadas até o joelho.
Inicialmente, a mulher relatou que não sentia dores nem se lembrava de nada. Foi para a casa e, depois, procurou um hospital. Foi na unidade de saúde, após a realização de exames, que os médicos constataram o abuso sexual.
Prisão do suspeito
O suspeito do crime foi localizado com ajuda das câmeras de segurança. Ele foi preso em flagrante por estupro de vulnerável ainda na noite de domingo.
Em depoimento à policia, o homem de 47 anos negou o crime. Ele disse que ao ver a jovem desacordada e sozinha decidiu levá-la para um local seguro. Acrescentou ainda que ela teria vomitado na roupa durante o trajeto em que foi carregada. O caso é investigado pela Polícia Civil.
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