Angélica Kalil: "Apagar uma mulher da História é diminuir a importância de todas as mulheres"
Como a estrutura patriarcal invisibiliza o legado feminino, é preciso resgatar essas trajetórias do passado para, assim, transformar o imaginário coletivo e garantir a equidade de direitos no futuro
Só de conversar nos bastidores da entrevista com a roteirista e escritora Angélica Kalil a gente já sente um orgulho danado de ter nascido mulher. Em menos de 5 minutos de papo, ela menciona uma meia dúzia de nomes de mulheres que, em diferentes períodos, foram autoras de feitos importantíssimos para a humanidade. O problema é que isso raramente é mencionado. Não se aprende na escola ou em lugar algum. Como a História é escrita por homens, os louros recaem sobre eles. Fomos (e,ainda hoje, somos) apagadas. Nos registros oficiais ou na vida.
Ah, o patriarcado...
Para ela, tudo começa na infância, com os ensinamentos (equivocados) sobre onde é o lugar da mulher. "Duas arquitetas urbanistas em Barcelona fizeram mapeamento de onde as crianças ficam na hora do recreio. Os meninos ficam sempre no meio do espaço, jogando na quadra e as meninas em volta, quietas. Desde sempre, estimulam os meninos a explorar o espaço público, a falar, se expor, enfim, a não acharem ruim que as atenções estão neles. As meninas, dizem o contrário: fiquem quietinhas, encolhidas. Jogar não é coisa de menina... Por isso, elas crescem com vergonha de se expor", afirma.
Ela destaca como figuras femininas fundamentais desde a Grécia Antiga, passando por cientistas modernas, que os registros oficiais omitiram. Angélica afirma que existe a Lei 14.986, sancionada em 25 de setembro de 2024, que obriga escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio a incluírem no currículo o estudo das contribuições, experiências e perspectivas femininas na história, ciência, artes e cultura. No entanto, pouca gente sabe disso.
Angélica Kalil e o reconhecimento das vozes femininas
Angélica Kalil cita diversas mulheres cujas contribuições foram fundamentais em áreas como filosofia, ciência e política, mas que frequentemente sofrem apagamento histórico nos registros oficiais. Uma delas é Aspásia de Mileto. Foi umamestre em oratória
na Era de Ouro de Atenas e companheira de Péricles. Angélica destaca que ela foiprofessora de
Sócrates.Além disso,
historiadores acreditam que ela era a mente por trás dos famosos discursos do marido.Ver essa foto no Instagram
A jornalista também destaca Bertha Lutz: A bióloga e sufragista brasileira teve um papel político internacional de destaque, ao ser a responsável por garantir que a palavra "mulheres" estivesse presente na carta de fundação da ONU.
Por fim, quando perguntada sobre os caminhos para que uma mudança, de fato, ocorra, Angélica fala da importância de que a valorização comece por nós mesmas: "É acreditar as mulheres, chamar mulheres para trabalhar, preencher a vaga na empresa, ler livro de mulher - escrito por mulher ... Não é deixar de ler os homens, mas também ler as autoras."