Como uma rotina saudável ajuda com a endometriose?
Especialista explica hábitos que podem melhorar os sintomas e aumentar a qualidade de vida
A prática de exercícios, aliada a uma dieta balanceada, é um dos melhores aliados no controle de sintomas e na garantia da qualidade de vida
É fato que praticar atividades físicas com constância é um dos melhores aliados quando o assunto é qualidade de vida e longevidade. A endometriose afeta cerca de sete a 10 milhões de brasileiras e aproximadamente 190 a 200 milhões de mulheres no mundo e, assim como inúmeros quadros de saúde, tem o exercício como parte essencial do tratamento. Apesar de muito comum, ainda é uma doença cercada de desinformação e estigmas e requer cuidados para garantir uma rotina balanceada.
Uma analogia explicativa
Para entender melhor o que acontece no corpo afetado pela doença, imagine que o útero é uma "casinha" que todo mês prepara um "tapete" (o endométrio) para receber o bebê. Quando não há óvulo fecundado após o período fértil, o endométrio se desfaz e sai do corpo: essa é a menstruação. No caso da endometriose, pedaços desse "tapete" começam a florescer fora do útero, podendo ir parar nos ovários, intestino ou até na bexiga. Diferente da menstruação, esse sangue fica preso dentro da barri- ga sem porta de saída, o que causa inflamação, inchaço e fortes dores. É como um machucado interno que é "cutucado" todos os meses.
Negligência e estigmas acerca da endometriose
Estimativas indicam que uma em cada 10 mulheres em idade reprodutiva sofre com a doença. Na prática, esse volume pode parecer menor, visto que muitos casos são subdiagnosticados, com diagnósticos errados ou normalização da dor — cenário que retarda o tratamento. "O maior mito em relação à endometriose ainda é o de que 'cólica forte é normal'. Essa crença atrasa diagnósticos, prolonga o sofrimento e permite que a doença avance em silêncio por anos", alerta Alexandre Rossi, médico ginecologista e obstetra, responsável pelo ambulatório de Ginecologia Geral do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros e membro da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo (SOGESP).
"A paciente, a família e, infelizmente, alguns profissionais de saúde ainda normalizam equivocadamente a dor, mesmo que ela esteja impedindo a mulher de trabalhar, estudar ou realizar atividades do dia a dia. Esta dor não é normal e esse é o momento de procurar um especialista", pontua.
Segundo o médico, uma mulher com endometriose leva entre sete e 10 anos para receber o diagnóstico correto. Isso acontece especialmente por uma combinação de fatores que evidencia a negligência em relação à saúde da mulher. "Primeiro, a dor menstrual ainda é muito naturalizada pela sociedade. Segundo, exames de imagem convencionais, como o ultrassom, podem não detectar todos os tipos de lesão. Terceiro, muitas vezes a paciente passa por vários especialistas antes de chegar a um ginecologista com experiência na doença", discorre Alexandre.
Outro mito sobre a endometriose é o de que, ao receber o diagnóstico, a vida acabou. Isso não é verdade. Com o tratamento correto, acompanhamento contínuo e hábitos que apoiem o processo, é totalmente possível construir e manter uma vida saudável e feliz. Isso inclui a ideia de que a doença é sinônimo de infertilidade, outra inverdade que precisa cair por terra. "Muitas mulheres com a doença engravidam naturalmente ou com suporte adequado", afirma.
Existe uma causa comum para a endometriose?
Infelizmente, a endometriose ainda carece de pesquisas mais aprofundadas e, por isso, sua causa não é totalmente esclarecida. Mas, de acordo com o ginecologista, a doença tem forte componente genético, o que significa que mulheres com mãe ou irmã com endometriose têm risco muito maior de desenvolvê-la. Outras teorias incluem a menstruação retrógrada, em que "parte do sangue menstrual refluiria pelas trompas para dentro da pelve, carregando células do endométrio que se implantariam em outros órgãos". Além disso, fatores imunológicos também têm papel importante. "Em algumas mulheres, o sistema imunológico simplesmente não consegue eliminar esse tecido fora do lugar", completa Alexandre.
O papel (essencial) de uma rotina saudável
Independentemente da origem, o especialista é pragmático ao dizer que o estilo de vida não causa nem cura a endometriose, mas que adotar hábitos de alimentação e atividade física equilibrados causa impacto real na qualidade de vida das pacientes. "Dieta inflamatória, sedentarismo, estresse crônico e privação de sono podem amplificar a percepção da dor e piorar a qualidade de vida. Por outro lado, hábitos saudáveis funcionam como aliados no tratamento, pois reduzem a inflamação, melhoram o humor e ajudam o corpo a responder melhor às terapias disponíveis."
Evidências científicas sustentam que praticar exercício com frequência ajuda a diminuir o uso de analgésicos durante o tratamento. "A atividade física regular reduz os níveis de estrogênio circulante, diminui a inflamação sistêmica e libera endorfinas, que são analgésicos naturais do próprio corpo. Estudos mostram que cerca de 150 minutos de atividade moderada por semana, o equivalente a cinco caminhadas de 30 minutos, já são suficientes para produzir benefícios mensuráveis na percepção da dor", orienta o profissional. Pilates, yoga e natação são atividades bem toleradas por mulheres com endometriose, mas ele reforça: "O melhor exercício é sempre aquele que a paciente consegue manter com regularidade".
O cardápio também merece atenção especial. A dieta anti-inflamatória inclui vegetais, frutas, peixes ricos em ômega-3 (sardinha e salmão), azeite de oliva, sementes e grãos integrais. Esses alimentos ajudam a modular a resposta inflamatória do organismo. Já carne vermelha, ultraprocessados, açúcar refinado, álcool e gorduras saturadas devem ser reduzidos, pois tendem a potencializar a inflamação.
O controle de sintomas: uma vida mais feliz
O tratamento indicado depende do perfil de cada paciente, considerando idade, desejo de engravidar, localização e extensão da doença. "De forma geral, temos duas grandes frentes: o tratamento clínico, com medicamentos hormonais que reduzem a progressão da doença e controlam a dor, e o tratamento cirúrgico, indicado nos casos em que a doença já causou lesões estruturais ou quando não há resposta satisfatória ao tratamento medicamentoso", explica o médico.
Por fim, é importante entender que a escolha por um estilo de vida saudável faz parte da conscientização sobre a endometriose. O diagnóstico não é um atestado de que tudo está perdido. Hoje, a medicina não oferece cura, mas sim controle dos sintomas, já que a doença pode recidivar mesmo após o tratamento. Porém, é perfeitamente possível controlá-la e garantir qualidade de vida. "Muitas mulheres levam uma vida plena, têm filhos e trabalham sem limitações significativas quando estão bem acompanhadas e tratadas de forma adequada", afirma. "O objetivo do tratamento moderno é exatamente esse: devolver à mulher a qualidade de vida que a doença vinha tirando", conclui Alexandre.
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