Calor recorde não freia ceticismo climático na Alemanha
Estudo aponta que desconfiança em relação às mudanças climáticas se tornou "fenômeno de massa" na Alemanha, com postura sendo associada a posições de direita, desconfiança nas instituições e insatisfação com democracia.Os céticos em relação às mudanças climáticas já não são uma minoria barulhenta. Segundo pesquisadores da Universidade de Flensburg, na Alemanha, eles se tornaram "um fenômeno de massa".
Em um estudo publicado na revista científica Global Environmental Change, os autores Katharina Gies e Emanuel Deutschmann relataram que, entre 2022 e 2023, houve um grande aumento das atitudes céticas em relação às mudanças climáticas entre a maioria dos 3.074 entrevistados. Cerca de 59% disseram ter mais dúvidas sobre as mudanças climáticas em 2023 do que tinham no ano anterior.
À época da pesquisa, os anos de 2022 e 2023 constavam entre os anos mais quentes já registrados na Alemanha, e a divulgação do estudo ocorre enquanto o país vem enfrentando neste verão de 2026 seguidas ondas de calor extremo e secas persistentes, que cientistas apontam que vêm sendo intensificadas pelas mudanças climáticas.
Os pesquisadores concluíram que a situação econômica individual dos entrevistados não é a principal explicação para o aumento do ceticismo. Outros fatores, afirmaram, foram muito mais decisivos: orientação política à direita, desconfiança em relação às instituições estatais e insatisfação com a democracia.
A psicóloga social Marlene Altenmüller afirmou que a publicação de Flensburg é importante, embora tenha dúvidas sobre seu tom alarmista. Outros estudos mostram que "o número de pessoas que têm dúvidas ainda é muito pequeno", argumenta.
Altenmüller, que é professora assistente do Instituto Leibniz de Psicologia, pesquisa a percepção pública da ciência: como as pessoas percebem evidências científicas e o que pensam sobre o sistema científico e seus pesquisadores. Segundo seus estudos, os alemães não têm dúvidas fundamentais sobre evidências científicas. No entanto, essa atitude pode variar de acordo com o tema e a visão que o grupo ao qual sentem pertencer tem sobre o assunto.
Ceticismo e política
O trabalho dela, assim como o de muitos outros pesquisadores, mostra que pessoas com orientação política mais à direita expressam mais ceticismo em relação às mudanças climáticas.
"Se partidos de direita descobrissem subitamente que, de fato, devemos agir contra as mudanças climáticas, minha hipótese é que os apoiadores desses partidos também passariam a acreditar nas mudanças climáticas e apoiariam medidas políticas nessa direção", afirmou Altenmüller.
Ela também não acredita que os céticos do clima tenham uma estrutura de personalidade diferente. Em vez disso, o ceticismo climático provavelmente decorre do fato de que "as pessoas se orientam de acordo com seu grupo e sua identidade". Para a maioria das pessoas, o conteúdo vem em segundo plano, ou, como Altenmüller define, "o partido acima das políticas públicas".
Por trás disso está o que psicólogos chamam de raciocínio motivado. As pessoas sempre enxergam o mundo por meio das lentes de seus próprios desejos, ideias, valores e ideologias políticas. Tudo aquilo que não pode ser conciliado com suas convicções tende a ser desvalorizado. As pesquisas de Altenmüller demonstram que todos nós somos predispostos a enxergar o mundo por meio de nossos próprios filtros.
Do ceticismo climático às teorias da conspiração
Tanto Altenmüller quanto os pesquisadores de Flensburg enfatizam que o ceticismo em relação às mudanças climáticas assume diferentes formas. Uma delas é a rejeição a políticas climáticas. Isso pode ser baseado na suposição de que a situação não será tão grave ou na dúvida de que a atividade humana seja a causa do problema. Outra forma é a crença de que todo o discurso sobre mudanças climáticas não passa de uma fraude, uma conspiração.
Esse é o foco das pesquisas de Stephan Lewandowsky, professor de ciência cognitiva nas universidades de Bristol, no Reino Unido, e Potsdam, na Alemanha. Entre outros temas, ele estuda a persistência da desinformação e das teorias da conspiração, além dos fatores que determinam se as pessoas rejeitam ou aceitam evidências científicas, especialmente em relação a vacinas e mudanças climáticas.
"Algumas pessoas são mais suscetíveis às teorias da conspiração do que outras", afirmou.
A pandemia de covid-19 deixou isso muito evidente. Lewandowsky argumenta que, para algumas pessoas, teorias da conspiração que apontam culpados por uma determinada situação funcionam como um escape de sentimentos como medo e perda de controle.
"Isso proporciona algum alívio psicológico temporário às pessoas", diz Lewandowsky.
No entanto, ele acrescenta que o conforto obtido ao atribuir culpa a alguém não dura muito. "Há fortes evidências de que as pessoas que entram nessa espiral acabam sofrendo com o tempo", afirmou. "Elas têm menos probabilidade de manter seus empregos. Perdem contatos sociais. Passam a enfrentar dificuldades mentais."
Ceticismo em baixa na Índia
O ceticismo climático e as teorias da conspiração circulam de forma diferente em países onde as mudanças climáticas são uma questão cotidiana de sobrevivência, como na Índia.
"Na Índia, muitas pessoas ainda sofrem por não ter acesso à água potável limpa", afirma Jagadish Thaker, professor sênior da Universidade de Queensland, na Austrália, e especialista em comunicação sobre mudanças climáticas.
Há anos, diz ele, as populações do chamado Sul Global vivenciam diretamente como as mudanças climáticas agravam problemas por meio do aumento das temperaturas e de eventos climáticos extremos.
Por isso, medidas para reduzir emissões e de adaptação às mudanças nas condições de vida não são vistas como uma questão de ideologia política. Segundo Thaker, os indianos procuram reduzir sua vulnerabilidade às mudanças climáticas ao mesmo tempo em que tentam se desenvolver economicamente.
Combater o ceticismo climático com respeito
Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos representam uma ameaça direta à vida humana, como ficou evidente durante as ondas de calor deste verão no hemisfério Norte. Só na Alemanha, cerca de 10 mil mortes foram ligadas ao calor extremoneste ano.
O ceticismo em relação às mudanças climáticas deve, portanto, ser tratado com seriedade, para que a sociedade encampe medidas de proteção climática, alertam os pesquisadores da Universidade de Flensburg.
Thaker acredita que a mídia desempenha um papel decisivo. Segundo ele, ainda há uma carência generalizada de informação e compreensão sobre os efeitos das mudanças climáticas.
"A cobertura jornalística de eventos climáticos extremos é extensa, é dramática e, infelizmente, não menciona as mudanças climáticas", afirma.
Altenmüller diz que é importante continuar enfatizando que existe consenso científico de que as mudanças climáticas são antropogênicas, ou seja, causadas pela atividade humana. Em alguns casos, afirma ela, também importa quem transmite essa mensagem. Pesquisas mostram que algumas áreas da ciência são percebidas como mais enviesadas do que outras. Por isso, economistas têm mais chances de alcançar um público amplo do que sociólogos, por exemplo.
Levar em consideração os valores das pessoas que expressam ceticismo também pode ajudar a comunicar um ponto de vista diferente, diz Altenmüller. A comunicação deve enfatizar não apenas as restrições que precisam ser impostas por meio de políticas públicas, mas também as oportunidades que surgem delas.
Pessoas que vivenciaram eventos climáticos extremos provavelmente têm mais facilidade para mudar de perspectiva. Por isso, Lewandowsky acredita que as ondas de calor e os incêndios florestais deste ano podem fazer diferença.
"Em algum momento, as experiências pessoais das pessoas passam a importar", afirma.
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