Modelos de comunidades carentes vivem dia de princesa em SP
Ter um dia de top, com direito a compras, salão de beleza e restaurantes glamourosos – ainda a bordo de uma limusine - é o sonho de qualquer mulher, certo? Some a isso o fato de as mulheres em questão serem jovens modelos, moradoras de comunidades carentes e recém-eleitas as mais belas das favelas brasileiras. Beatriz Fortunato, Marleyse Viana e Beatriz de Sousa formaram o pódio do Top Cufa 2012, concurso organizado Central Única das Favelas (Cufa) e pela marca Pantene Pro-V. Um dos prêmios foi ter um dia de princesa, juntas, em São Paulo. O Terra acompanhou com exclusividade o momento das três jovens, que também foi de transformações e revelações.
“Miss caldeirão, top ufa, já me chamaram de tudo. Agora todo mundo quer saber onde fica Ibicuitinga” (cidade natal da jovem, antes desconhecida, que fica no interior do Ceará), afirmou Beatriz Sousa, de 18 anos, que faturou o terceiro lugar na final realizada no programa Caldeirão do Huck, da TV Globo. A eleição esteve a cargo do júri formado por Fátima Bernardes, Pedro Bial, MV Bill, Regina Casé, Alexandre Herchcovitch, Bruno Astuto, André Schiliró e Preta Gil.
“Foi incrível, meu Facebook foi de 300 para mais de mil amigos. Comentam que admiram meu trabalho, desejam feliz fim de ano, é o maior barato!”, disse Marleyse Viana, de 21 anos, moradora da Vila Brasilândia, em São Paulo, que empatou com Beatriz Sousa na terceira colocação. “Agora eu tenho que falar com todo mundo na rua, senão o povo acha que fiquei besta só porque apareci no Caldeirão (risos)”, disse Beatriz Sousa.
“Minha prima veio contar toda empolgada que se digitasse Beatriz F no Google aparecia meu nome como primeira opção”, conta Beatriz Fortunato, a grande vencedora do concurso, que tem 20 anos e é moradora da comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro (RJ). Além do título de mais bela, a carioca fechou um contrato de um ano com uma agência de modelo. Devido a um imprevisto, a vice-campeã do Top Cufa não pôde estar em São Paulo para usufruir o prêmio.
Magrinhas também sofrem no provador
A empolgação das meninas para as compras em um dos pontos mais chiques do País é clara. No caminho para a rua Oscar Freire, em São Paulo, as três já discutiam o look que pretendiam comprar.
Para entrar na primeira loja do passeio, todas com o pé direito. Depois de olhar as araras de cabo a rabo, horas no provador. As magrinhas também sofrem com peças que sempre parecem um pouco grande demais. Após muitas dúvidas e mudanças, finalmente cada uma escolheu seu look para aquela noite especial. “Nunca me apaixonei tanto por uma peça”, confessou Beatriz Fortunato ao exibir sua calça enquanto as amigas checavam as novas aquisições.
“Sapato, sapato. Ai, que sonho!”, comemorou Marleyse na porta da loja de calçados, segunda parada do dia. “Adoro um saltão!”, contou Beatriz Fortunato. Beatriz Sousa não é tão fã: “já sou alta, tenho 1,83 m, então se coloco um salto muito alto fico vendo todo mundo de cima”, disse. Para testar o conforto do sapato, Beatriz Fortunato confiou no samba no pé e começou a dançar.
Elas revelam que, em seus dias “comuns”, se viram como podem para ficar na moda. “Descobri uma moça perto de casa que vende blusinhas, daquelas de feirinha, por um preço bom. Combino uma blusa básica com um acessório legal e pronto”, Marleyse conta seu segredo fashion.
Sonho de menina e vida de gente grande
Enquanto prova algumas peças, Beatriz Sousa é questionada sobre seu futuro. Ela apenas aponta para as fotos na parede da loja com Rosie Huntington-Whiteley, Ana Beatriz Barros, Izabel Goulart e outras grandes tops em desfiles. “Estou trabalhando para isso. Tenho que desfilar em Nova York”, completou decidida. Ela começou a desfilar aos 13 anos, em Fortaleza, mas, quando se mudou para o interior, um ano depois, se viu obrigada a se afastar da profissão dos sonhos. Focou-se nos estudos e, aos 17, começou a ensaiar seu retorno ao mundo da moda. “Queria muito, muito ser modelo de passarela, mas é difícil. Sei que tenho que emagrecer e ralar bastante para chegar lá”, contou. Beatriz Sousa pretende eliminar algumas medidas para fechar o contrato com uma agência de São Paulo.
A primeira aula de modelo de Beatriz Fortunato foi aos 11 anos. Porém, devido à distância e aos confrontos constantes com a polícia em sua comunidade na época, teve que abandonar o curso. “Sempre tive esse sonho. Quero passarela, comercial, foto, quero tudo. A princípio não me vejo fazendo outra coisa, não passaria por cima de ninguém, mas não vou desistir desse sonho”, declarou ela.
Marleyse começou a carreira de modelo há menos de dois anos e já possui contrato com uma agência. “Depois do concurso, consegui trabalhos melhores. Deu um ‘up’ no meu currículo. Tenho boas expectativas e quero apostar mesmo nessa carreira”, afirmou. Porém, ela também pensa no futuro a longo prazo e pretende voltar a cursar a faculdade de biomedicina que trancou durante o ano. “A ideia é levar as duas coisas. Sei que a beleza é por tempo limitado e quero proporcionar uma vida boa para minha família, ter uma casa legal”, planeja.
Beatriz Sousa não conseguiu passar no vestibular esse ano, mas não vai desistir de tentar prestar odontologia em 2013. “Esse é um plano B para mim, mas acho importante me garantir com uma faculdade”, acredita.
Namoro e família
O papel da família também é algo muito importante para elas. “Meus pais me incentivam, me dão força, quando viajo sempre mandam mensagem desejando coisas boas”, contou Beatriz Sousa sorridente. “No começo meu pai era contra. Às vezes, tinha que mentir porque ele negava dinheiro para passagem. Mas hoje está cheio de orgulho”, diz Beatriz Fortunato. “Sou filha única e hoje já consigo viver com meu dinheiro e até consigo ajudar minha mãe um pouco”, se orgulha.
Mesmo estando em um relacionamento de mais de 2 anos, Beatriz Sousa tem que lidar com os ciúmes do namorado. “Ele me ligou agora pouco bravo dizendo que tenho tempo de postar fotos do meu dia, mas não para mandar mensagem”, contou. Enquanto isso, Marleyse teve que esperar a final do concurso para oficializar o namoro. “Ele dizia que não aguentaria se eu fosse a Top Cufa (risos). Meu namorado é pé no chão. Ele fala que não posso ser bonita burra, tenho que estudar.”
Corpo e comida de modelo
Durante o almoço, nada de exageros, mas também nenhuma restrição. “Quem não gosta de comer não sabe o prazer que há em uma feijoada, um belo churrasco. Quer me deixar louca é ter que dividir brigadeiro, o que acontece bastante quando se tem nove irmãos”, contou Marleyse. Mas, apesar de comerem de tudo, as garotas não descuidam do corpo. Beatriz Fortunato investe no MMA, Beatriz Sousa pratica capoeira e joga futsal e Marleyse curte vôlei.
“Quando era mais nova queria engordar, ganhar mais medida. Frequentava ensaios de escola de samba e queria ter mais curvas”, contou Marleyse. Beatriz Fortunato também costumava implicar com o fato de ser magra. “Sempre fui a magricela da escola. Queria ter coxa, mais bumbum. Tinha vergonha de usar short curto, achava horrível. Onde eu moro as meninas são mais ‘tchutchucas’ (cheias de curvas). Mas fui me acostumando e hoje gosto do meu corpo”, contou.
O cabelo crespo também já foi motivo de desgosto. “Já tive cabelo liso e loiro. Usava uma trança de lado, mas acabei sendo despedida do emprego por estar fora do padrão”, lembrou Marleyse. Beatriz Fortunato também passou por uma fase de alisamento. “Acabei com meu cabelo. Passei um tempão com o cabelo liso e franja”, contou. Porém, hoje as duas têm orgulho do cabelo afro. “O black está na moda, temos que aproveitar. Fiz permanente afro e uso aplique para deixar o cabelo mais volumoso”, contou Marleyse.
Transformação
Para continuar o dia de top, as meninas passaram a tarde no salão Galeria, sob os cuidados do hair stylist Julio Crepaldi. Cabelo, maquiagem, manicure e pedicure - produção completa. “Nós já somos lindas, é só jogar uma água no corpo e já está ótimo”, brincou a vencedora do concurso, que ficou ainda mais bonita maquiada.
Depois da produção, hora do jantar. “Eu vou chorar!”, exclamou Beatriz Fortunato ao ver a limusine parada na frente do salão. “Quero passar no meu bairro para todo mundo me ver nesse carro”, brincou Marleyse. Ao som da música Billionaire, de Bruno Mars, elas estouraram champanhe, cantaram e posaram para fotos. “Nada melhor do que champanhe com Ferrero Rocher (chocolate)”, brincou Beatriz Fortunato.
Ao chegar ao restaurante, ainda antes da balada que encerrava a programação do dia, a última pergunta: “E aí, ser uma ‘top’ é tudo que imaginavam?”. “É muito melhor”, garantiu Beatriz Sousa.
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