Cardigã tem nome ligado à guerra da Crimeia; entenda
Lordes de Cardigan de Raglan participaram do conflito contra os russos ocorrido há 160 na península da Crimeia, que faz referendo neste domingo (16) para decidir se passa a fazer parte da Rússia
O que o famoso cardigã, popularizado por Coco Chanel nos anos 20 e 30, e a conhecida manga raglã, de corte diagonal do ombro à cava, têm a ver com a Crimeia, estado autônomo, que neste domingo (16) faz referendo popular para decidir se passa a fazer parte da Rússia ou se fica ligada à Ucrânia, à qual foi incorporada em 1954, por Nikita Khruschov?
Para responder a pergunta acima, porém, é preciso voltar 160 anos e chegar à guerra da Crimeia (1853-1856), deflagrada pela aliança entre o Império Otomano, a Grã-Bretanha, a França e a Sardenha (que ainda não fazia parte da Itália) contra a Rússia, com sua política expansionista.
Lá estiveram presentes o Lorde James Cardigan (James Thomas Brudenell /1797-1868), que comandou a Carga da Brigada Ligeira, e FitzRoy James Henry Somerset (1788-1855), comandante-em-chefe da tropa inglesa, que em 1952 tinha sido nomeado Lorde Raglan.
Pois bem, tais vestimentas usadas pelos militares foram transformadas e adaptadas ao dia a dia, tornando-se clássicos da moda, que gosta de se apropriar de peças e termos de guerra para o uso civil.
Cardigã
O cardigã, na época era um paletó militar de malha lã penteada com mangas compridas, com debruns de pele ou galões abotoado na frente, usado pelos militares ingleses, segundo explica a Enciclopédia da Moda, de Georgina O´Hara Callan.
Foi batizado dessa maneira exatamente para homenagear o sétimo Lorde de Cardigan. Sua passagem pela guerra, porém, é tida como uma das mais controversas.
Em 1854, ele recebeu ordens de enfrentar com pouco mais de 673 homens contra 20 batalhões russos e 50 cargas de artilharias. Depois avançar como em uma parada militar e sem armamento suficiente, os soldados foram atacados pelos adversários, contabilizando muitos mortos e feridos.
O episódio é conhecido como o mais heróico ou mais desastroso da Batalha de Balaclava, que pretendia tomar dos Russos a cidade de Sebastopol.
Miti Shitara, professora de História da Moda da Faculdade Santa Marcelina, lembra que o cardigã conhecido atualmente, feito de lã leve com decote V e botões, é também um derivado do suéter, que não tem abertura. “Na década de 10, esportistas começaram a usar a peça para a prática de tênis e golfe.
Nos anos 20, a Chanel a adaptou para si mesma. “Nos anos 30, usou com saia do mesmo tecido, transformando no conhecido tailleur Chanel”, disse a especialista, ao lembrar, porém, que o tailleur feminino não foi uma invenção da estilista francesa, mas uma adaptação de trajes já usados no século 19.
O cardigã, nos anos 50 e 60, era usado com suéter por baixo de manga curta, conjunto chamado de twinset, que voltou a estar em alta recentemente.
Raglan
A fatídica ação de Lorde Cardigan aconteceu a pedido do chefe das forças inglesas, Lorde Raglan, e foi imortalizada pelo poema “The Charge of the Light Brigade” (A Carga da Brigada Ligeira), de Alfred Tennyson, que dizia: “Não há nenhuma razão / só há que agir e morrer”.
O comandante Raglan morreria um ano depois, durante a guerra, de disenteria e depressão. Foi responsabilizado pelas perdas inglesas, mas a manga que, diz-se, usava em seus casacos, mantém seu nome até hoje. O militar perdeu o braço direito na Batalha de Waterloo, contra Napoleão Bonaparte.
De acordo com a Enciclopédia da Moda, a manga raglã se estende da gola ao punho. “É presa ao corpete de um casaco ou vestido por meio de costuras diagonais, que vão desde o pescoço até embaixo do braço, permitindo maior mobilidade.” Uma das hipóteses é que ele a usava o corte exatamente por conta de seu problema físico, explica Miti Shitara.
Mas segundo o Dicionário da Moda, de Marco Sabino, o nome foi dado em homenagem ao comandante porque “devido ao frio intenso durante a guerra da Crimeia, sugeriu aos soldados que improvisassem um agasalho a mais cortando cobertores. A maneira como cortaram e fizeram o agasalho acabou formando uma linha mais suave aos ombros, sendo logo depois lembrada e adaptada às vestimentas civis.”
O corte diagonal da manga ficou muito em moda nos anos 60, tanto em blusas quanto em casacos, e até hoje pode ser visto em roupas esportivas.
Outras guerras
Independente de suas atuações na guerra, a contribuição à moda foi dada, assim como outras peças militares que até hoje são usadas, como o trench-coat, casaco de trincheira, também usado pelos militares ingleses durante a Primeira Guerra. “Na época, a peça não tinha fivelas e era fechada por duas argolas em forma de D, como se veem em alças de mochilas”, disse Miti Shitara.
Outra vestimenta que veio da guerra é o casaco com capuz usado pelo comandante inglês Montgomery na Segunda Guerra. “Por conta da escassez de matérias para a produção de botões, a peça de feltro era fechada por alamares, tipo de laço preso por ossos ou bambus, lembrando roupas orientais.”
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