"Meu filho não come nada": Frieza, fase ou seletividade alimentar?
"Meu filho não come nada": entenda quando a seletividade alimentar deixa de ser uma fase e se torna um problema
A seletividade alimentar infantil vai além de birra e exige investigação médica quando afeta a saúde, o convívio social ou restringe grupos nutricionais inteiros. Segundo a pediatra Mariana Bolonhezi, a recusa pode estar ligada a fatores comportamentais, sensoriais e do neurodesenvolvimento, como no autismo e no TDAH. Em vez de forçar a alimentação, pais devem buscar avaliação pediátrica para identificar as causas do sofrimento e adotar estratégias graduais para ampliar o repertório da criança.
Como diferenciar comportamentos comuns da infância de sinais que merecem investigação — e por que, em alguns casos, não se trata apenas de "birra"
"Ele só come macarrão." "Não aceita comida de outra cor." "Se mudar a marca do biscoito, ele não come." "Não suporta determinados alimentos na mesma textura." Queixas como essas fazem parte da rotina de muitas famílias, mas nem sempre a seletividade alimentar deve ser encarada apenas como uma fase ou como falta de vontade da criança.
Para a pediatra Dra. Mariana Bolonhezi, antes de classificar o comportamento como "birra", é importante entender o que está por trás da recusa. A seletividade alimentar pode estar relacionada a diferentes fatores e, em algumas crianças, questões sensoriais, comportamentais ou do neurodesenvolvimento podem influenciar diretamente a relação com a comida.
"É importante observar não apenas o que a criança recusa, mas como ela se comporta diante dos alimentos, quais características ela aceita e se existem outros sinais associados", explica a especialista.
Seletividade alimentar em crianças autistas
Crianças autistas, por exemplo, podem apresentar maior seletividade alimentar relacionada a características sensoriais dos alimentos, como textura, cheiro, temperatura, cor ou aparência. Algumas também podem demonstrar preferência por uma apresentação muito específica da comida ou resistência quando há mudanças na rotina alimentar. "Isso não significa que toda criança autista será seletiva. O padrão alimentar precisa ser observado dentro do contexto individual de cada criança", pondera a médica.
Em crianças com TDAH, fatores relacionados à atenção, impulsividade, rotina e percepção de fome e saciedade também podem interferir na alimentação. "Por isso, compreender o comportamento alimentar exige olhar para a criança como um todo, e não apenas para o prato", afirma.
Outro ponto de atenção é o impacto dessa seletividade sobre a saúde. Quando o repertório alimentar fica muito restrito, a criança pode deixar de consumir nutrientes importantes ou apresentar dificuldades relacionadas ao crescimento e ao desenvolvimento. Também é importante observar se a recusa interfere na participação em refeições familiares, na escola ou em situações sociais.
A avaliação pediátrica pode ajudar a identificar quando a seletividade está dentro de uma variação esperada do desenvolvimento e quando é necessário investigar melhor a situação. A abordagem também evita que as refeições se transformem em momentos constantes de pressão, negociação ou conflito. "Mais do que obrigar a criança a experimentar determinado alimento, o objetivo é compreender a origem da recusa e construir estratégias adequadas para ampliar, gradualmente, a relação com a alimentação", completa Mariana.
Pra ficar atento
Para a especialista, alguns sinais merecem atenção dos pais:
- repertório alimentar muito pequeno ou cada vez mais restrito;
- recusa de grupos alimentares inteiros;
- forte reação a textura, cheiro, temperatura ou aparência dos alimentos;
- ansiedade ou sofrimento diante das refeições;
- dificuldade para comer fora de casa ou na escola;
- impacto no crescimento, peso ou estado nutricional;
- mudanças importantes no comportamento alimentar;
- presença de outros sinais relacionados ao desenvolvimento ou comportamento.
"A principal orientação é evitar interpretar automaticamente a recusa como desobediência. Quando a alimentação se torna fonte frequente de sofrimento para a criança ou para a família, vale buscar uma avaliação pediátrica para entender o que está acontecendo e, se necessário, contar com outros profissionais no acompanhamento", conclui a Dra. Mariana Bolonhezi.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.