Astronautas da Artemis II passaram por treinamento físico rigoroso antes de ir para o espaço; veja
Missões espaciais exigem meses de preparação para enfrentar perda muscular, desorientação, confinamento e os efeitos da microgravidade
Viajar ao espaço não exige apenas coragem. Antes mesmo de deixar a Terra, astronautas precisam submeter o corpo e a mente a uma preparação intensa para enfrentar um ambiente que desafia quase tudo o que o organismo humano conhece como normal. No caso da missão Artemis II, da NASA, esse processo envolveu meses de treino para lidar com microgravidade, confinamento, sobrecarga física e situações de emergência em pleno espaço profundo.
Ao contrário do que muita gente imagina, a adaptação não se resume a aprender a flutuar. Fora da Terra, músculos e ossos deixam de sustentar o peso do corpo da forma como fazem aqui embaixo. Com isso, a tendência é que haja perda de massa muscular, redução da densidade óssea e alterações no sistema cardiovascular, além de impacto no equilíbrio, na orientação espacial e até na sensação de bem-estar. É por isso que a preparação física se torna uma das etapas mais importantes da rotina de quem vai embarcar em uma missão espacial.
O corpo entra em outro modo no espaço
Na microgravidade, o organismo precisa reaprender funções básicas. Sem a ação constante da gravidade, o ouvido interno pode ficar "confuso", o que ajuda a explicar episódios de desorientação e enjoo nos primeiros dias de missão. Além disso, o corpo passa a distribuir líquidos de forma diferente, exige-se menos da musculatura e o esqueleto perde parte do estímulo mecânico que, na Terra, ajuda a preservar sua força.
Por isso, o treinamento começa muito antes do lançamento. Segundo a NASA, a tripulação da Artemis II passou por um processo de cerca de 18 meses, iniciado em 2023, com foco em operações da nave Orion, respostas a cenários inesperados, condicionamento físico, sobrevivência e adaptação à rotina extrema de uma missão de cerca de 10 dias ao redor da Lua.
Piscinas gigantes, simuladores e exercícios intensos
Um dos treinamentos mais conhecidos ocorre em piscinas enormes, como o Laboratório de Flutuabilidade Neutra. Lá, os astronautas vestem trajes espaciais e realizam tarefas submersos. A água ajuda a reproduzir parte da sensação de ausência de peso e serve para treinar movimentos que seriam necessários em atividades fora da nave, além de exigir controle corporal e resistência.
A rotina também inclui simuladores de alta fidelidade. Neles, a tripulação aprende a operar a cápsula Orion em situações normais e em cenários críticos, como falhas de sistema, perda de comunicação e manobras que precisam realizar-se com precisão absoluta. A repetição é uma das bases do processo: ensaiam cada procedimento tantas vezes que precisa se tornar quase automático.
No preparo físico, a lógica parece com a de atletas de alto rendimento. O foco recai sobre força, resistência cardiovascular e fortalecimento do tronco. Especialmente do core, já que essa região é fundamental para sustentar movimentos e dar estabilidade ao corpo mesmo quando o astronauta está sentado dentro da nave.
Treinar em órbita também faz parte da missão
Nem todo o esforço acontece antes do lançamento. Durante a própria Artemis II, os astronautas mantiveram exercícios a bordo da Orion para reduzir os efeitos da permanência no espaço. Em 9 de abril de 2026, por exemplo, a NASA informou que a tripulação realizou sessões de treino em um sistema flywheel. Ele é capaz de combinar movimentos aeróbicos e de resistência, como agachamentos e levantamentos.
No mesmo período, também testaram trajes de intolerância ortostática. As roupas de compressão são pensadas para ajudar a manter a circulação sanguínea estável e reduzir o risco de tontura ou desmaio no retorno à Terra.
Esse cuidado não é exagero. Mesmo em missões relativamente curtas, o corpo já começa a responder à ausência de gravidade. Por isso, criar o hábito do exercício diário ainda em solo é essencial para que o astronauta consiga manter a disciplina quando estiver em órbita.
O treino vai muito além da academia
A preparação da Artemis II não ficou restrita aos exercícios físicos. A equipe passou por treinamentos de geologia em ambientes extremos, estudos detalhados sobre os sistemas da Orion, formação em primeiros socorros e simulações de sobrevivência no oceano. Em uma dessas etapas, os astronautas praticaram saída da cápsula em mar aberto, subida em plataformas flutuantes e resgate com apoio militar. Afinal, a recuperação da tripulação após o pouso também faz parte da missão.
Outro ponto importante foi a rotina dentro da própria nave. A cápsula Orion foi projetada para sustentar a tripulação durante a viagem, mas o espaço interno é limitado. Isso significa que comer, dormir, se movimentar, operar os equipamentos e até descansar são atividades rigorosamente planejadas. A NASA também trabalhou aspectos como alimentação individualizada e sono, reconhecendo que a fadiga pode comprometer decisões em um ambiente onde a margem para erro praticamente não existe.
Preparar o corpo é preparar o futuro da exploração espacial
No fim das contas, o treinamento físico dos astronautas revela algo maior. Antes de sonhar com a Lua, é preciso ensinar o corpo humano a sobreviver longe da Terra. Cada exercício, cada simulação e cada protocolo existem para tornar possível uma presença mais longa e segura no espaço.
A Artemis II mostrou que explorar o cosmos depende tanto de foguetes e tecnologia quanto de resistência física, equilíbrio emocional e adaptação. Em outras palavras, para chegar mais longe, o ser humano primeiro precisa aprender a funcionar em um mundo onde quase nada funciona como aqui.
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