1851-1946
A tentação das utopias

O ouro já não levantava mais igrejas, nem o diamante, palácios. Era preciso inventar novas alternativas de progresso para povoar o sertão.

Estamos em 1852. Sob o signo da aventura liberal empreendida pelo político e empresário Teófilo Otoni, um mineiro nascido em Vila do Príncipe em 1807, nasce a cidade de Filadélfia, inspirada nos ideais republicanos dos norte-americanos Washington, Jefferson e Franklin. Otoni troca a luta política contra a Monarquia, sua bandeira de anos, pela aventura de expandir Minas pelo território brasileiro.

Sob o céu do Rio Mucuri, Teófilo Otoni sonha com o mar. Seu desejo é criar um porto na região de Caravelas, precisamente na foz do Rio Mucuri, para levar o sertão mineiro de encontro ao mar. Para isso, organiza juntamente com o primo Manuel Otoni e o irmão Augusto Otoni a Companhia de Comércio e Navegação do Rio Mucuri, com capital inicial de 1.200 contos de réis (valor baixíssimo para abrir uma empresa na época).

Em 1853, a Companhia do Mucuri inicia uma colonização sem precedentes na história da província. Além de navegar, Teófilo Otoni planeja desenvolver o nordeste de Minas, e contrata dois mil agricultores alemães. São distribuídas glebas de terra para o plantio e o pastoreio. Constroem-se navios a vapor e navega-se por onde é possível. Surgem fazendas que dão origem a dezenas de municípios atuais, como Águas Formosas, Carlos Chagas, Ataléia e Nova Módica. A companhia faz estradas que mais tarde provocam elogios de viajantes estrangeiros, como o geólogo Charles Hart, que considerou "excelente" a estrada de Santa Clara a Filadélfia, com 170 km. É a primeira estrada de rodagem do País.

A experiência de povoamento do nordeste mineiro é relatada no livro Colonização do Mucuri, escrito pelo próprio Teófilo. Sua aventura, conta, acabou sendo golpeada por incompreensões políticas e por espertalhões europeus que, em vez de colonos enviam pessoas indesejáveis, como vagabundos e criminosos conhecidos. "Só podem ser bons colonos os que emigraram voluntariamente", conclui. O fracasso é iminente.

Em 1861, Teófilo retorna à vida pública, eleito deputado geral com mandato até 1863. O liberal deixa o Mucuri, e a companhia encerra suas atividades. Fora investido mais do que se previa e se podia. A abertura de estradas ficava bem para o Estado, não para capitais privados. Mas a utopia é a verdade vista de longe, escreve Otoni no Correio Mercantil. Filadélfia torna-se cidade e traz vida ao sertão, aproximando Minas do mar. Fazendas plantam café, cana e desenvolvem cidades. A companhia acaba, mas a utopia, não.

O sonho do desenvolvimento das Minas Gerais acontece, paralelamente, na Zona da Mata. A primeira rodovia pavimentada do Brasil, a União e Indústria, ajuda no escoamento da produção de café e no crescimento de todo o sul da província. Entretanto, a expansão da nascente rede ferroviária nacional boicota o sucesso da União e Indústria. O avanço da ferrovia por Minas prossegue devagar até alcançar, 20 anos depois, a cidade de Ouro Preto, em julho de 1889, quando dos 9.200 km da rede imperial, 1.803 correm em solo mineiro. Paralelamente, a indústria têxtil também apresenta grande progresso, levando o desenvolvimento para o interior, sob o comando dos irmãos Bernardo e Caetano Mascarenhas.

Com o avanço da tecelagem, das rodovias e ferrovias, o domínio das técnicas de industrizaliação do ferro era um dos últimos desafios a serem suplantados numa terra tão rica em minérios. Minas já contava com mais de 100 fábricas de ferro, mas somente em 1876 instalou-se o primeiro estabelecimento de ensino da metalurgia: a Escola de Minas de Ouro Preto.

Após o desenvolvimento industrial, Minas não há mais – como diria o itabirano Carlos Drummond de Andrade. Mas também não há mais escravidão, abolida em 1888, e a província torna-se Estado, após a proclamação da República um ano depois. O café sobe e desce morro, com suas exportações correpondendo a 31% do total nacional e a 90% das vendas agrícolas estaduais. No Sul, além do café, o gado e a nascente indústria de laticínios geram um tipo diferente: o coronel, que da fazenda estende seu manto político até onde for possível.

Os coronéis acumulam capital e poder. Só em 1889, Minas exporta mais de 147 mil cabeças de gado e mais de uma tonelada de queijo. A República fortalece o coronelismo. Por decisão política e por que há muito se deseja sair de Ouro Preto, de topografia inadequada para o crescimento urbano, muda-se a capital para Curral Del Rei, hoje Belo Horizonte. Em 7 de setembro de 1895, o governador, Crispim Bias Fortes, vem de Ouro Preto, de trem, para a inauguração oficial do ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil, que liga a capital a General Carneiro. Bias Fortes traz consigo todo o funcionalismo ouro-pretano e o orgulho com a nova capital. Mas traz, também, uma colossal dívida que ameaça quebrar Minas Gerais na mudança do século.

É assim que Minas chega ao século XX: quebrado, mas esperançoso. A siderurgia vai mal, com o fechamento de muitas usinas e forjas. O café, à medida que amplia a sua produção – 70% das exportações estaduais – declina de importância e de preço no comércio internacional. Nem os incentivos governamentais do acordo de Taubaté, em 1906, o salvam do fracasso anunciado pelos sucessivos recordes de produção. E o capital acumulado do café, que em São Paulo cria fábricas, em Minas, por causa da distância natural dos portos, opta por bancos.

A construção acelerada de Belo Horizonte – que, estima-se, consumiu mais de 33 milhões de contos de réis em três anos de obras -, o nascimento de uma gorda burocracia estatal e a redução das rendas com as exportações cafeeiras instalam de vez a crise. Crise que leva os empresários mineiros a se lançarem numa batalha contra a invasão de produtos estrangeiros.

Até a chegada dos anos 30, quando termina a República Velha, Minas vive a contradição de ir muito bem na política nacional e muito mal na economia. Graças à força do PRM (Partido Republicano Mineiro), Minas e São Paulo vão se sucedendo no governo federal, dominando alternadamente a Presidência da República. A série principia com Afonso Pena, eleito por voto direto e empossado em 15 de novembro de 1906, sucedendo a um paulista. A política do "café-com-leite" prossegue com Venceslau Brás, Delfim Moreira e Artur Bernardes, que encerra o ciclo.

No plano econômico, após a crise, destaca-se o retorno do interesse pela siderurgia. As enormes reservas de ferro fazem o Estado renascer. Enquanto o mundo teme a falta do minério, fundamental para o boom industrial, descobre-se que o Brasil conta com reservas estimadas em 10 bilhões de toneladas. É a segunda epifania de Minas Gerais.

Mas, fora o surgimento do parque siderúrgico e de muitos bancos, nos anos 20, Minas não consegue substituir as atividades agrícolas pela indústria de bens de consumo, que estimula o comércio, dá empregos e gera renda para os cofres públicos. Mas, apesar das dificuldades financeiras, Minas constrói dois centros de lazer e turismo: o Palace Hotel e as Termas de Poços de Caldas, na década de 20, e o Grande Hotel Barreiro de Araxá, na década de 40.

Enquanto São Paulo dispara no desenvolvimento industrial, os mineiros vão devagar. O déficit cresce. Até o crack da Bolsa de Nova York, em 1929, o período caracteriza-se pela agricultura. Neste particular, deve-se destacar os êxitos obtidos no Triângulo Mineiro, especialmente em Uberaba, onde criadores transformam suas fazendas em laboratórios. No mais, Minas é um Estado político e Belo Horizonte uma cidade de funcionários públicos. Como não há oferta de trabalho aos cidadãos, os mineiros iniciam uma interminável migração rumo a São Paulo e, mas tarde, ao Paraná.

Durante a ditadura Vargas, embora Minas Gerais apareça como o terceiro pólo industrial do País, com 32 mil km de rodovias e 8 mil km de ferrovias, o Estado assiste, impotente, à saída em massa de seus cidadãos. Em 1940, Minas perde para São Paulo a posição de unidade mais populosa da federação, que detinha desde o século XVIII. Contam-se em 830 mil os mineiros exilados em outros estados.

Até queda de Getúlio Vargas, em 1945, o setor têxtil e siderúrgico crescem levemente, mas duas iniciativas obtém destaque e finalizam o período: a criação da Cidade Industrial de Contagem, na vizinhança de Belo Horizonte, e a fundação da Companhia Vale do Rio Doce, destinada a exportar o minério de Itabira.

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