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O que a Ciência perde quando um fóssil se torna um troféu de luxo

Vendido por um preço recorde de mais de US$ 50 milhões (cerca de R$ 256 milhões), "Gus" foi descrito pela casa de leilões Sotheby's como estando mais de 60% completo

21 jul 2026 - 10h35
(atualizado em 22/7/2026 às 08h57)
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Em 14 de julho de 2026, "Gus", um dos espécimes mais completos de fóssil de Tyrannosaurus rex, foi arrematado por um comprador ainda não identificado por US$ 50,1 milhões (cerca de R$ 256 milhões). Esse leilão na Sotheby's estabeleceu um recorde para o fóssil mais valioso já vendido. Com isso, outro dinossauro entrou no mercado de itens de coleção de luxo, um lembrete de que mesmo a história mais antiga da Terra pode ser vendida ao maior lance.

Para paleontólogas como eu, no entanto, um fóssil como o "Gus" - escavado da Formação Hell Creek em Dakota do Sul, EUA, em um trabalho que durou três anos, a partir de 2021, pelo colecionador comercial Thomas Heitkamp e sua equipe - não é um troféu nem uma obra de arte. É um arquivo científico insubstituível. Os fósseis preservam evidências de evolução, extinção, crescimento, doenças, lesões e ecossistemas antigos. São registros finitos e insubstituíveis da história da vida na Terra.

A Ciência depende da verificação independente de afirmações e de um debate saudável. Pesquisadores devem poder reexaminar espécimes, testar conclusões anteriores e fazer novas perguntas. Mas, uma vez que um fóssil de importância científica passa a fazer parte de uma coleção particular, o acesso dos pesquisadores não é mais garantido.

Colecionadores costumam guardar seus fósseis em casa. Mesmo quando espécimes de propriedade privada são emprestados a museus, os proprietários podem mudar de ideia, encerrando o acesso a qualquer momento. Essa questão é especialmente relevante quando se trata do Tyrannosaurus rex. Um estudo de 2025 constatou que, embora houvesse 61 fósseis de T. rex em acervos públicos naquela época, 71 estavam em mãos privadas.

É por isso que a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, da qual sou integrante de longa data e presidente eleita, há muito defende que fósseis de vertebrados cientificamente significativos devem pertencer ao patrimônio público, sob a curadoria de museus e universidades que os preservem permanentemente, os disponibilizem para pesquisa e os compartilhem com o público.

Encontrando um fóssil

Os defensores da comercialização de fósseis costumam argumentar que, sem as vendas a colecionadores particulares, espécimes como "Gus" permaneceriam enterrados ou seriam destruídos pela erosão. Eles estão certos sobre uma coisa: a descoberta é importante.

Muitos fósseis extraordinários foram encontrados por fazendeiros, caminhantes, colecionadores amadores e escavadores comerciais. A paleontologia está ao alcance de qualquer pessoa que tenha um bom olho para observar a natureza - não é preciso ser um especialista com formação acadêmica para fazer uma descoberta importante.

vista aérea de três pessoas agachadas sobre ossos incrustados em rocha arenosa
vista aérea de três pessoas agachadas sobre ossos incrustados em rocha arenosa
Foto: The Conversation

A descoberta e a escavação de um fóssil são apenas o começo. Patrick Aventurier/Gamma-Rapho via Getty Images

Mas a descoberta é apenas o começo. O valor científico de um fóssil depende da documentação cuidadosa do local onde foi encontrado, das rochas ao seu redor e das plantas e animais preservados junto com ele. Esses detalhes permitem que os cientistas reconstruam ecossistemas antigos, compreendam como um animal viveu e morreu e interpretar como seus restos se tornaram fósseis. Quando essas informações contextuais estão incompletas ou se perdem, grande parte do valor científico do fóssil também se perde.

Mas mesmo a descoberta, escavação e publicação sobre o achado mal arranham a superfície da importância científica de um fóssil. O maior valor científico de um espécime geralmente surge décadas mais tarde, quando pesquisadores levantam novas questões e aplicam novas tecnologias que as gerações anteriores jamais imaginaram. Um espécime que hoje parece ter sido totalmente estudado pode revelar novas informações surpreendentes amanhã, mas somente se ainda estiver disponível para estudo.

Descobertas tardias

Considere dinossauros icônicos, incluindo o T. rex, o Triceratops, o Diplodocus e o Stegosaurus, coletados pela primeira vez há mais de um século. Os primeiros paleontólogos conseguiam descrever suas formas, mas não tinham como aprofundar a análise examinando o interior dos ossos. Como esses espécimes foram preservados em coleções de museus, gerações posteriores puderam reexaminá-los com tecnologias que não existiam quando foram descobertos.

Forma oval com manchas mais escuras que parecem orifícios esponjosos
Forma oval com manchas mais escuras que parecem orifícios esponjosos
Foto: The Conversation

Tomografia micro-CT não destrutiva da fíbula de um espécime neonatal de Rapetosaurus, um titanossauro de pescoço longo. Kristina Curry Rogers

O paleontólogo Larry Witmer e seus colaboradores da Universidade de Ohio começaram a usar tomografia computadorizada há 20 anos para reconstruir a anatomia interna de fósseis históricos de dinossauros sem danificá-los, com base na forma como os raios X atravessam os espécimes. Cavidades cerebrais, ouvidos internos, espaços aéreos , nervos e vasos sanguíneos tornaram-se visíveis pela primeira vez, revelando como os dinossauros mantinham o equilíbrio, ouviam, cheiravam e percebiam o mundo ao seu redor.

Henry Fricke, Thomas Cullen e outros geoquímicos utilizaram assinaturas isotópicas preservadas em dentes fósseis e cascas de ovos para reconstruir a dieta dos dinossauros, padrões de migração e temperaturas corporais. Essa pesquisa revelou como os dinossauros viviam: o que comiam, como se deslocavam pelas paisagens antigas e até qual era a temperatura de seus corpos.

Mais recentemente, a paleontóloga molecular Jasmina Wiemann e seus colaboradores identificaram vestígios químicos preservados em ossos fósseis, casca de ovo e pele que revelam aspectos da biologia dos dinossauros inimagináveis mesmo uma geração atrás. Até agora, os paleontólogos não tinham como saber detalhes sobre taxas metabólicas e reprodução, nem sobre as cores da pele, das penas e dos ovos.

Foto: The Conversation

Uma seção fina do fêmur de um Diplodocus revela a arquitetura microscópica do osso, preservando um registro do crescimento e da história de vida do animal. Kristina Curry Rogers

Em minha própria pesquisa, utilizo microscópios para desvendar as histórias ocultas preservadas dentro dos ossos e dentes dos dinossauros. Cortes finos de ossos fósseis revelam que os dinossauros cresciam mais como mamíferos e aves do que como répteis gigantes. Modificações microscópicas nos ossos capturam vestígios de alimentação necrófaga antiga, e minúsculas marcas no interior dos ossos de filhotes de dinossauros indicam o momento da eclosão.

Nenhuma dessas descobertas teria sido possível se os fósseis originais tivessem desaparecido em coleções particulares inacessíveis.

Patrimônio natural compartilhado, no leilão

Fósseis não são objetos estáticos cujo valor científico se esgota assim que são descritos. Seu valor cresce à medida que a ciência avança, mas somente se pesquisadores futuros puderem continuar a examinar os espécimes originais.

É claro que, às vezes, fósseis de dinossauros são resgatados do esquecimento por meio de compra e depósito imediato ou doação a museus de história natural. Alguns dos fósseis de dinossauros mais importantes do mundo estão acessíveis hoje porque indivíduos, empresas ou organizações com recursos para adquirir espécimes extraordinários reconheceram que eles devem permanecer onde os cientistas possam continuar a estudá-los e onde as futuras gerações possam aprender com eles.

grande esqueleto fóssil sob luz forte, com dezenas de crianças ao redor
grande esqueleto fóssil sob luz forte, com dezenas de crianças ao redor
Foto: The Conversation

Alunos do ensino fundamental foram os primeiros a visitar 'Sue', o T. rex, assim que ela foi exibida no Museu Field de História Natural, em Chicago, Illinois, graças ao financiamento do sistema da Universidade Estadual da Califórnia, da Walt Disney Parks and Resorts e do McDonald's. John Zich/AFP via Getty Images

Adquirir um fóssil com o objetivo de colocá-lo permanentemente à disposição do público é fundamentalmente diferente de adquiri-lo como item de coleção particular: um amplia o acesso, o outro deixa o acesso incerto.

Mas à medida que os preços dos fósseis chegam a milhões, os museus cada vez mais não conseguem competir com os colecionadores particulares. Os fósseis mais importantes não estão mais entrando de forma confiável nas coleções públicas. Em vez disso, estão se tornando ativos de luxo cujo valor de mercado supera seu valor científico.

Os dinossauros pertencem ao nosso patrimônio natural comum. Eles inspiram admiração porque nos conectam a um mundo inimaginavelmente mais antigo do que o nosso. Para mim, a questão levantada por leilões como o de 14 de julho do "Gus" não é quem tem condições financeiras para possuir essas relíquias do passado. É se as futuras gerações terão a chance de estudá-las e aprender com elas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Kristi Curry Rogers recebeu financiamento da National Science Foundation. Ela é a presidente eleita da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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