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Aos 74 anos e morando sozinho desde que a esposa morreu, aposentado passa a deixar a porta da varanda aberta para a gata que aparecia todas as tardes no antigo horário do café dos dois, até instalar uma segunda cadeira depois que o animal começa a dormir sempre no lugar onde ela se sentava

Depois da morte da esposa, Antônio mantém o café da tarde até uma gata surgir no mesmo horário e transformar a antiga cadeira em seu lugar favorito.

14 set 2026 - 16h13
(atualizado às 16h19)
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Resumo
Após ficar viúvo aos 74 anos, seu Antônio manteve o hábito de tomar café na varanda às 16h30, ritual que dividiu com a esposa por décadas. A solidão diminuiu quando uma gata de rua passou a visitá-lo diariamente no mesmo horário e escolheu a cadeira da falecida para dormir. Afeiçoado ao animal, batizado de Nina, o idoso comprou uma nova cadeira para si e adotou a felina, que transformou o silêncio da casa e trouxe de volta a companhia para as suas tardes.

Depois que a esposa morreu, seu Antônio, de 74 anos, continuou preparando café todos os dias às 16h30, mesmo sem ter mais com quem dividir a mesa. Durante quase dois meses, ele colocava apenas uma xícara sobre a varanda e ficava olhando a rua em silêncio. Até que uma gata rajada começou a aparecer exatamente naquele horário, primeiro no muro, depois no piso da varanda e, por fim, na cadeira onde a esposa costumava se sentar.

A primeira visita aconteceu numa terça-feira de chuva

Antônio lembra que a gata surgiu pela primeira vez em uma tarde de garoa. Ela estava molhada, magra e ficou parada perto do portão, sem miar. Ele colocou um pouco de água e um pedaço de frango em um pires, mas o animal só se aproximou depois que ele voltou para a cadeira.

No dia seguinte, às 16h27, ela apareceu de novo. Depois voltou na quinta, na sexta e no sábado. Em menos de duas semanas, Antônio percebeu que já olhava para o relógio esperando por ela.

A gata começou a chegar sempre no antigo horário do café

Durante mais de 40 anos de casamento, Antônio e dona Lúcia tinham o hábito de tomar café juntos no fim da tarde. Não importava se o almoço atrasasse ou se algum compromisso surgisse. Por volta das quatro e meia, os dois paravam tudo e iam para a varanda.

Depois da morte dela, o ritual permaneceu, mas perdeu a conversa. Foi justamente nesse intervalo que a gata passou a aparecer.

Antônio começou a deixar a porta da varanda aberta antes mesmo de colocar a água para ferver. "Ela não chegava cedo nem tarde. Era sempre naquele pedaço da tarde", conta.

No começo, ela não deixava ninguém chegar perto

A aproximação foi lenta. Durante vários dias, a gata comia e ia embora. Depois começou a ficar alguns minutos deitada perto do vaso de samambaia. Só semanas mais tarde permitiu que Antônio encostasse a mão em sua cabeça.

Ele passou a comprar sachês e improvisou uma caminha com uma toalha velha dentro de uma caixa de papelão. A gata, porém, raramente usava o lugar.

  • ela chegava quase sempre entre 16h20 e 16h40;
  • esperava Antônio se sentar antes de subir na varanda;
  • comia devagar e permanecia ali depois;
  • começou a entrar na sala apenas depois de algumas semanas;
  • à noite, quase sempre voltava para a rua.

Tudo mudou quando ela escolheu a cadeira de Lúcia

A cadeira de madeira onde dona Lúcia se sentava continuava exatamente no mesmo lugar. Antônio nunca tinha conseguido retirá-la. Às vezes, colocava a mão sobre o encosto durante o café, como se aquele gesto bastasse para preencher o espaço.

Uma tarde, a gata pulou sobre o assento, deu duas voltas e dormiu ali. Antônio não mexeu nela. No dia seguinte, aconteceu de novo. Em pouco tempo, aquele passou a ser o lugar preferido do animal.

"Foi estranho no começo. Depois eu achei bonito", diz. "Parecia que ela tinha escolhido justamente o único lugar em que eu nunca colocava nada."

Ele comprou uma segunda cadeira para não tirar a gata dali

Durante semanas, Antônio continuou tomando café em pé ou usando um pequeno banco quando a gata ocupava sua cadeira. Até que decidiu resolver o problema de outro jeito.

Foi a uma loja do bairro e comprou uma segunda cadeira de madeira, parecida com a antiga. Colocou as duas lado a lado, separadas por uma pequena mesa redonda.

A gata continuou escolhendo a cadeira de Lúcia. Antônio passou a usar a nova.

A aproximação foi lenta. Durante vários dias, a gata comia e ia embora.
A aproximação foi lenta. Durante vários dias, a gata comia e ia embora.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

A rotina da casa começou a mudar aos poucos

Com o tempo, a gata deixou de ser apenas uma visitante. Antônio levou o animal a uma clínica veterinária, descobriu que era fêmea, adulta e não tinha identificação. Depois dos cuidados básicos, decidiu chamá-la de Nina.

Nina passou a dormir algumas noites dentro da casa e ganhou potes próprios na cozinha. Mesmo assim, o ritual da tarde permaneceu praticamente igual.

Por volta das 16h30, Antônio prepara café, abre a porta da varanda e coloca um pequeno prato de comida perto da mesa. Nina sobe na cadeira antiga e, muitas vezes, adormece antes que ele termine a primeira xícara.

A segunda cadeira não substituiu ninguém, mas mudou o silêncio da varanda

Antônio diz que nunca enxergou a gata como uma substituta para a esposa. A cadeira de Lúcia continua sendo de Lúcia, assim como as lembranças continuam no lugar delas. O que mudou foi o peso daquele horário do dia.

Hoje, quando coloca a xícara sobre a mesa, ele já sabe que provavelmente haverá uma gata enrolada na cadeira ao lado. A segunda cadeira não apagou a ausência, mas devolveu companhia a um ritual que tinha ficado silencioso. E, desde que Nina chegou, Antônio não toma mais o café das 16h30 completamente sozinho.

Catraca Livre
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