Visão: o que vemos e o que não conseguimos ver nos diz muito sobre a consciência humana
A informação que os seus olhos captam é apenas parte da história, e fenômeno está na base de uma das hipóteses para uma "teoria da consciência"
O que você consegue ver neste momento? Pode parecer uma pergunta boba, mas o que chega à sua consciência não é tudo quando se trata da visão. Grande parte do processamento visual no cérebro ocorre bem abaixo do nosso nível de consciência.
Alguns estudos investigaram as profundezas inconscientes da visão. Uma fonte de evidência vem da condição neurológica conhecida como visão cega, causada por danos em áreas do cérebro envolvidas no processamento de informações visuais. Pessoas com visão cega relatam que são incapazes de ver, seja totalmente ou em uma parte de seu campo visual. No entanto, quando solicitadas a adivinhar o que está ali, muitas vezes conseguem fazê-lo com notável precisão.
Por exemplo, em um experimento publicado em 2004 sobre alguém com visão cega, uma barra preta foi exibida na parte do campo visual em que a pessoa era cega. A pessoa foi solicitada a "adivinhar" se a barra estava na vertical ou na horizontal.
Apesar de negar qualquer percepção consciente da barra, o participante conseguiu responder corretamente em um nível bem acima do acaso. O participante chegou a demonstrar ser capaz de prestar atenção na barra — ele respondia mais rapidamente quando uma seta (colocada em uma área saudável do seu campo visual) indicava corretamente a localização da barra.
A interpretação mais popular (embora não seja a única) é que pessoas com visão cega podem ver esses objetos, mas não os veem conscientemente. Elas veem o que está lá, mas tudo ocorre inconscientemente, abaixo de sua percepção.
O fenômeno da cegueira por desatenção parece mostrar que é possível ver sem que a informação chegue à consciência. Qualquer pessoa pode experimentar a cegueira por desatenção. O fenômeno é conhecido há muito tempo, mas podemos compreendê-lo mais facilmente observando um experimento bem conhecido relatado em 1999.
Nessa experiência, os participantes assistem a um vídeo de pessoas jogando basquete e são instruídos a contar o número de passes entre os jogadores vestindo uma camisa branca. Se você nunca fez isso antes, recomendo que pare de ler agora e assista ao vídeo.
Em muitos casos, as pessoas estão tão ocupadas contando os passes que deixam passar completamente despercebido um grande gorila que atravessa o centro da cena batendo no peito e depois vai embora. O gorila está bem ali, no centro do seu campo visual. A luz do gorila entra em seus olhos e é processada pelo sistema visual, mas, de alguma forma, você não o percebeu, porque não estava prestando atenção nele.
E o gorila tem mais a nos ensinar. Em outro experimento relatado em 2013, radiologistas receberam uma série de tomografias pulmonares. Eles foram instruídos a procurar nódulos (que aparecem como pequenos círculos de cor clara) em cada tomografia. Em uma das imagens, uma foto grande de um gorila dançando foi sobreposta na parte superior da imagem do pulmão. Nesse estudo, 83% dos radiologistas não conseguiram identificar a foto do gorila, mesmo sendo 48 vezes maior do que o nódulo médio que eles procuravam. Alguns deles até olharam diretamente para o gorila e ainda assim não o notaram!
A interpretação dessas experiências é controversa. Alguns cientistas sugerem que, nesse tipo de caso, você vê o gorila conscientemente, mas o esquece imediatamente (embora um gorila dançando no pulmão de alguém não pareça o tipo de coisa que se esqueceria facilmente). Outros argumentam que você vê o gorila, mas esta informação nunca chegou à sua consciência. Você viu o gorila, mas inconscientemente.
Vamos supor que, no caso da visão cega e da cegueira por desatenção, a informação é vista, mas não chegou até a consciência. Então, a questão é: o que torna algumas informações conscientes, em vez das informações que permanecem inconscientes? Essa é uma das questões centrais dos estudos sobre a consciência na filosofia, na psicologia e na neurociência.
O alto-falante do cérebro
Não há consenso sobre qual é a melhor teoria da consciência, mas, na minha opinião, a candidata mais forte é a teoria do espaço de trabalho neuronal global (global neuronal workspace theory, no original em inglês).
De acordo com essa teoria, a consciência está totalmente relacionada a uma área específica do cérebro que é a sede do "espaço de trabalho". O espaço de trabalho é um sistema de pequena capacidade, portanto, não consegue armazenar muitas informações ao mesmo tempo. A função do espaço de trabalho é pegar informações inconscientes e transmiti-las para várias redes diferentes por todo o cérebro. Os teóricos do espaço de trabalho neuronal global afirmam que transmitir a informação dessa maneira é o que a torna consciente.
A função do espaço de trabalho é agir como o alto-falante do cérebro, e a consciência é a informação que é transmitida. O espaço de trabalho pega informações inconscientes e as amplifica para que muitos dos diferentes sistemas do cérebro tomem conhecimento delas e possam usar essas informações em seus próprios processos. O falecido filósofo Daniel Dennett costumava chamar a consciência de "fama no cérebro". A ideia do espaço de trabalho é semelhante.
Uma das implicações mais marcantes da teoria do espaço de trabalho neuronal global é o quão pouca informação chega à consciência. Como o espaço de trabalho tem uma capacidade bastante pequena, segue-se que só podemos estar conscientes de poucas coisas de cada vez. Podemos pensar que há um mundo visual rico à nossa frente, cheio de detalhes, dos quais temos consciência, mas, na verdade — de acordo com a teoria —, estamos sempre conscientes apenas de uma pequena parte disso.
Alguns filósofos e cientistas se opuseram à teoria do espaço de trabalho justamente com base nisso. Eles sugerem que a consciência "transborda" do espaço de trabalho: estamos conscientes de mais informações do que aquelas que podem "caber" no espaço de trabalho a qualquer momento. Mesmo com esses debates ainda em andamento, acho que a teoria do espaço de trabalho neuronal global nos dá uma resposta razoavelmente clara para a questão de para que serve a consciência e como ela interage com outros sistemas no cérebro.
Em nossos cérebros, a consciência é apenas a ponta de um iceberg muito grande. Mas a teoria do espaço de trabalho neuronal global pode nos dar uma ideia do que torna essa ponta tão especial.
Henry Taylor recebeu financiamento do Leverhulme Trust.