Vazamento na Foz do Amazonas reacendeu debate sobre riscos desconhecidos da exploração de petróleo na região
Não há um entendimento universal de como o fluido de perfuração como o que vazou na Foz do Amazonas interage com o ambiente marinho: tudo depende das características locais, que ainda precisam ser melhor estudadas
Em fevereiro de 2026, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou a Petrobras por um vazamento de fluído de perfuração durante testes em uma sonda na Foz do Amazonas. Com esse episódio, o debate sobre os riscos ambientais e sociais da exploração de petróleo na margem equatorial brasileira se reacendeu.
E o que veio à tona foi sobretudo uma questão científica ainda pouco discutida: como esse tipo de material interage com a dinâmica única da foz do Rio Amazonas, uma das mais vastas do planeta?
O fluido de perfuração sintético é uma substância utilizada para resfriar a broca, estabilizar o poço e transportar fragmentos de rocha à superfície durante a perfuração. Embora não seja petróleo, esse fluido contém uma mistura de componentes classificados na categoria de risco B, que representa risco médio tanto para a saúde humana quanto para o ecossistema aquático. Porém, não há um entendimento universal de como estes compostos interagem com o ambiente marinho: tudo depende das características locais.
Rio Amazonas: um rio único que pede por uma compreensão única
Na Foz do Amazonas, a enorme quantidade de água doce que o rio despeja no oceano forma uma vasta "mancha" que se espalha pela superfície do mar. Essa água carrega grande quantidade de matéria orgânica, tanto em partículas visíveis quanto dissolvida, além de sedimentos finos que ficam em suspensão.
Essa mistura torna o ambiente bastante dinâmico: a água doce e a água salgada não se misturam de imediato, criando camadas diferentes na coluna d'água. Ao mesmo tempo, há intensa atividade de microrganismos que transformam essa matéria orgânica, influenciando todo o funcionamento ecológico da região.
A presença dessa matéria orgânica, dissolvida e particulada, pode alterar significativamente o comportamento de químicos como o fluído sintético derramado, ou até mesmo de compostos orgânicos, como é o caso do petróleo e seus derivados. Por exemplo, a fração mais tóxica do petróleo, os chamados hidrocarbonetos policíclos araomáticos (HPAs), tendem a se associar a ambos os tipos de matéria orgânica, facilitando o seu transporte pela água ou sua deposição no fundo do rio.
Em alguns casos, isso diminui a toxicidade imediata dos compostos; mas, em outros, pode deixar os contaminantes mais disponíveis para animais ou prolongar sua permanência no ambiente. Tudo depende de onde ocorre um acidente como esses.
Um estudo recente demonstrou essa dinâmica da matéria orgânica com componentes do petróleo. Os pesquisadores detectaram efeitos deletérios, como danos genéticos, em peixes do Rio Negro após um derramamento de petróleo asfáltico nas proximidades do porto de Manaus. Em águas pretas da Amazônia, ricas em matéria orgânica dissolvida, os HPAs podem tornar-se mais biodisponíveis, aumentando sua absorção pelos organismos aquáticos e intensificando danos em processos celulares fundamentais.
Esses resultados acendem um alerta importante: a interação entre petróleo e matéria orgânica pode modificar o risco de intoxicação na água de forma significativa, de maneiras que ainda não compreendemos totalmente, levando em consideração a variedade de ecossistemas e tipos de água na Amazônia.
Além disso, ainda precisam ser estudados os efeitos da matéria orgânica sobre esses contaminantes em relação a outras características: o tipo de solo que o rio percorre, de acordo com a sazonalidade, entre cheias e secas típica bacia amazônica, pode alterar a qualidade da matéria orgânica presente na água de estação para estação, de contexto para contexto; ou ainda, a atividade de micróbios na água pode acelerar a degradação dos contaminantes e gerar novas moléculas cujos efeitos sobre o ambiente sequer conhecemos.
Olhando para os vizinhos: as experiências da exploração nas Guianas e Suriname
A experiência dos nossos vizinhos ainda é insuficiente para fornecer um quadro comparativo sobre riscos que merecem atenção. A Guiana tem se destacado como exportador de petróleo. Porém, estudos locais também apontam cenários em que atividades de óleo e gás representam riscos concretos a ecossistemas costeiros, como manguezais, que oferecem não apenas habitat e berçário para fauna, mas proteção contra erosão e suporte para pescarias artesanais essenciais às comunidades.
No Suriname, projetos de extração estão em rápida expansão com investimentos bilionários, mas sem estudos locais que avancem no entendimento dos riscos dessa empreitada.
Há, também, uma dimensão social e econômica que precisa ser integrada aos indicadores biológicos: pescarias artesanais que dependem de ambientes costeiros conectados pelos rios amazônicos já enfrentam pressões por mudanças climáticas e perda de ecossistemas.
A literatura de casos comparativos em outras costas tropicais indica que manguezais contaminados por óleo podem sofrer mortalidade de árvores, perda de invertebrados e declínio da produção de peixes por anos.
Devido à complexidade física e biológica da região, a simples comparação com experiências internacionais não basta: é necessário o levantamento de dados locais, replicados em tempo e espaço.
Mais ciência!
Os rios da Amazônia têm dinâmicas muito próprias, que ainda precisam ser mais estudadas. Não temos um entendimento completo de como o petróleo, fluídos sintéticos e as águas da Amazônia interagem entre si, e como os compostos tóxicos presentes podem ter seus efeitos negativos exacerbados pelas características únicas dessas águas. Por consequência, também o entendimento atual dos riscos dessa operação pode estar subestimado.
Qualquer licença para perfurar e produzir com base nos cenários hoje disponíveis não pondera quanto às incertezas que a própria Amazônia ainda impõe. Diante desses desafios, o monitoramento e a eventual remediação de vazamentos precisam ser adaptados à dinâmica local e não podem simplesmente reproduzir protocolos usados em outros locais.
Entre as medidas consideradas prioritárias está a criação de estações sentinela, que são pontos fixos de monitoramento permanente de riscos, distribuídos em áreas estratégicas, como dentro da pluma do Amazonas, na sua borda, próximas aos recifes e em regiões de pesca.
Espécies representativas da pluma, da plataforma continental e do sistema de recifes da Amazônia poderiam ser avaliados, permitindo detectar alterações antes que ocorram impactos visíveis, como mortandade de fauna. Técnicas modernas, como o uso de DNA ambiental (eDNA), também são apontadas como ferramentas importantes para identificar mudanças na biodiversidade ao longo do tempo.
Além disso, é importante monitorar o fundo do mar com coletores de partículas que medem o material acumulado, além de analisar hidrocarbonetos no sedimento e nos organismos que vivem no fundo dos ambientes aquáticos. Em ambientes de alta turbidez, podem se formar agregados de óleo e sedimento que acabam se depositando no fundo.
O desafio na Foz do Amazonas não é apenas evitar ou conter vazamentos, mas compreender cientificamente como a complexidade da região pode modificar ou agravar o impacto desses contaminantes. Em se mantendo os avanços na exploração, investir em ciência preventiva é a única forma de reduzir incertezas em um dos ambientes mais dinâmicos do planeta.
Helen Sadauskas-Henrique já recebeu financiamento dos órgãos de fomento Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), e atualmente recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Tiago da Mota e Silva recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).