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Três coisas que a série "Rivalidade ardente" mostra sobre consentimento e masculinidade no esporte

Que modelos de masculinidade o esporte profissional produz, mesmo na intimidade entre homens? A série "Rivalidade ardente" mostra situações que a sociologia do esporte já estudou e descreveu

9 abr 2026 - 18h14
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Série na HBO Max acompanha a história de amor secreta entre dois jogadores profissionais de hóquei sobre o gelo
Série na HBO Max acompanha a história de amor secreta entre dois jogadores profissionais de hóquei sobre o gelo
Foto: The Conversation

Em uma série sobre hóquei de elite espera-se velocidade, choques e ética de vestiário. "Rivalidade ardente", no HBO Max, tem tudo isso. Mas a cena que melhor explica por que a série importa não acontece durante uma partida, e sim na intimidade: perguntas simples — "o que você quer fazer?", "assim está bom?", "você está com medo?" — ditas com naturalidade durante um encontro sexual.

Esse detalhe abre uma questão: que modelos de masculinidade o esporte profissional produz, inclusive na intimidade entre homens? E o que muda quando o consentimento deixa de ser um pressuposto e se torna conversa? Para além da trama, a série permite observar três questões relevantes sobre consentimento, masculinidade e cultura esportiva.

1. O consentimento verbal questiona uma masculinidade baseada no comando

Em muitos contextos, o esporte profissional continua sendo um espaço em que a masculinidade se organiza em torno de três imperativos: resistir, performar e não mostrar fissuras. Há décadas, a sociologia do esporte descreve esse ambiente como um laboratório de dureza, disciplina e controle emocional. Os trabalhos de Michael Messner mostram como esses espaços premiam o domínio e a força, enquanto a vulnerabilidade costuma ser percebida como um risco para o prestígio.

Nesse marco cultural, perguntar ou confirmar não é apenas uma prática interpessoal de cuidado. É também um gesto que altera a lógica habitual da masculinidade dominante. A pergunta "está tudo bem para você?" desloca o centro de gravidade da cena: o desejo já não aparece como uma conquista individual, mas como uma coordenação entre duas pessoas.

Não é entender o consentimento como um momento pontual — um "sim" inicial —, mas concebê-lo como um processo que pode ser matizado ou interrompido. Essa segunda possibilidade exige habilidades que muitas formas de socialização masculina pouco treinaram: nomear o que está acontecendo, escutar ou se ajustar ao outro sem interpretar isso como fracasso.

A série sugere, assim, uma ideia frequentemente ignorada: a masculinidade também se aprende na intimidade. Em contextos em que "não destoar" continua sendo uma norma viril, formular uma pergunta pode ser culturalmente mais disruptivo do que parece.

2. O "armário" não é apenas privado

Uma das contribuições clássicas da teoria queer foi mostrar que o "armário" não é apenas uma experiência psicológica individual. Ele é também uma estrutura social que regula quem pode ser visível, quando e a que custo. Essa ideia foi formulada em Epistemology of the Closet, de Eve Kosofsky Sedgwick.

No esporte profissional, essa regulação tem consequências concretas: pode afetar a reputação, os patrocínios, a relação com os colegas de vestiário, o tratamento midiático ou até mesmo a continuidade de uma carreira esportiva.

"Rivalidade ardente" sugere que a aceitação simbólica não elimina necessariamente esses custos. A visibilidade continua distribuída de forma desigual: há trajetórias que podem sustentá-la com mais facilidade do que outras, e contextos em que falar ainda implica riscos.

Essa estrutura também influencia a cultura do consentimento. Não porque o armário a substitua, mas porque condiciona os enquadramentos comunicativos em que ela se produz. Se falar abertamente na vida pública tem custos, parte dessa economia do silêncio pode deslocar-se para a intimidade: evitar perguntas para não complicar a situação ou recorrer a ambiguidades.

A série mostra que, mesmo sob essa pressão, é possível construir uma intimidade que não dependa nem do comando nem do silêncio.

3. Entre homens, tampouco existe um único script sexual

No debate público, o consentimento costuma ser apresentado como uma fórmula universal aplicável a qualquer encontro sexual. No entanto, a pesquisa sobre relações entre homens gays, bissexuais e queer mostra uma realidade mais complexa: existem códigos e scripts sexuais situados, que variam conforme os espaços e as formas de socialização sexual.

Uma revisão recente de Webber e outros pesquisadores assinala que entrar em determinados ambientes sem conhecer esses códigos pode aumentar a vulnerabilidade, e que normas associadas à masculinidade hegemônica — como o controle ou a evitação emocional — continuam operando no sexo entre homens.

Isso não significa que a comunicação não verbal seja problemática em si. Em muitos encontros, ela funciona perfeitamente. O problema aparece quando é tomada como dada em contextos marcados pelo álcool, pela pressão social, pela desigualdade de poder ou pelo medo de perder status.

Por isso, alguns estudos assinalaram que parte das políticas de "consentimento afirmativo" foi pensada sobretudo a partir de um script heterossexual predominante. Já em um trabalho pioneiro, Melanie Beres mostrava que a comunicação do consentimento em relações entre pessoas do mesmo sexo pode assumir formas diversas e contextuais.

Para além da tela

A série também sugere um limite importante. Nela, a contestação da masculinidade tradicional aparece mediada pelo prestígio: corpos treinados, fama e capital simbólico, que facilitam a aceitação social, mas também restringem quais vidas podem ser visíveis.

Se, em um vestiário de elite, uma pergunta tão simples quanto "você está bem?" pode soar estranha, o problema não é a pergunta, mas a cultura patriarcal que ainda organiza o que se pode dizer, sentir e ser.

Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é apenas quem pode aparecer representado na tela, mas que tipo de masculinidade continuamos a considerar normal dentro - e fora - do esporte profissional.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Antoni Aguiló é membro da associação sem fins lucrativos Homes Transitant, dedicada à reflexão sobre masculinidades.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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