Tradução Ecossistêmica: a busca por uma linguagem comum entre ecologia, economia e governança
Construir métricas para os serviços ecossistêmicos não é simplificá-los, mas torná-los inteligíveis para instituições que alocam recursos, definem prioridades e influenciam investimentos em escala regional e global
Construir métricas que tornem os serviços ecossistêmicos compreensíveis a tomadores de decisão não é simplificar os ecossistemas, mas torná-los inteligíveis para instituições que alocam recursos, definem prioridades e influenciam investimentos em escala regional e global.
A economia global, a segurança alimentar, a estabilidade climática e o bem-estar humano dependem de uma infraestrutura natural complexa e amplamente invisível. Rios transportam água, nutrientes e energia; florestas regulam o clima, reciclam umidade e armazenam carbono; solos sustentam a produção de alimentos, controlam fluxos hidrológicos e abrigam uma parcela significativa da biodiversidade terrestre.
Mas, apesar de constituírem a base biofísica sobre a qual se apoia o desenvolvimento humano, esses sistemas permanecem insuficientemente representados nos mecanismos que orientam as decisões de maior impacto sobre o futuro do planeta.
As principais estruturas de governança contemporânea — como os governos, bancos multilaterais de desenvolvimento, organismos internacionais, mercados financeiros, fundos de investimento e instituições responsáveis pela gestão de riscos — operam predominantemente por meio de indicadores econômicos.
Entretanto, os ecossistemas continuam sendo descritos sobretudo em termos biofísicos, ecológicos e funcionais. Essa diferença de linguagem produz uma desconexão crítica entre o conhecimento científico e os processos de tomada de decisão.
O resultado é um paradoxo. Embora o capital natural sustente a produção de riqueza, a estabilidade dos sistemas produtivos e a própria resiliência das sociedades, sua degradação frequentemente permanece ausente ou subestimada nos processos de planejamento econômico e financeiro.
Em muitos casos, os impactos ecológicos tornam-se visíveis apenas quando já se converteram em crises hídricas, perdas agrícolas, eventos climáticos extremos, deslocamentos populacionais ou passivos econômicos de grande magnitude.
Encontrando uma linguagem comum entre ciência e tomadas de decisão
Nesse contexto, emerge a necessidade de uma nova geração de abordagens capazes de traduzir funções ecológicas, Serviços Ecossistêmicos (S.Es) e danos ambientais para métricas compreensíveis aos sistemas contemporâneos de governança.
Não se trata de simplificar a complexidade dos ecossistemas, mas de torná-la inteligível para instituições que alocam recursos, definem prioridades e influenciam investimentos em escala regional e global.
Quando um rio é contaminado, por exemplo, o que exatamente se perde? Para além da imagem visível da água degradada, ocorre a interrupção de funções ecológicas fundamentais relacionadas ao abastecimento humano, à manutenção da biodiversidade, à produção econômica e à estabilidade ambiental.
O rompimento da barragem de Brumadinho e seus impactos sobre o Rio Paraopeba ilustram de forma emblemática essa realidade. A perda observada não foi apenas ecológica. Foi também funcional, econômica e temporal.
Entretanto, a forma tradicional de valoração econômica da água frequentemente falha em capturar a natureza dinâmica dos sistemas fluviais. Rios não são superfícies estáticas delimitadas por áreas em hectares. São sistemas caracterizados pelo fluxo contínuo de água, energia e matéria.
Nesse sentido, a incorporação de conceitos hidrológicos e econométricos, unidos a conceitos relacionados ao meio ambiente à valoração dos S.Es hídricos, representa uma evolução necessária do rigor científico aplicado à avaliação ambiental.
Uma alternativa promissora consiste na utilização do volume hídrico representativo, capaz de integrar vazão, velocidade do escoamento e extensão do curso d'água, aproximando a valoração da realidade física do sistema analisado. Além de aprimorar o rigor técnico das estimativas, essa abordagem pode ampliar sua aplicabilidade em contextos jurídicos, regulatórios e de formulação de políticas públicas.
Contudo, mesmo quando a ciência consegue medir adequadamente um dano ambiental, permanece um desafio adicional: comunicar sua magnitude aos sistemas responsáveis pela gestão de recursos e riscos em escala global. Instituições financeiras (como os Bancos Mundiais), organismos multilaterais (como a Organização das Nações Unidas) e formuladores de políticas (como a Alliance of CEO Climate Leaders ou o Fórum Econômico Mundial) raramente operam com indicadores ecológicos isolados. Eles tomam decisões a partir de parâmetros associados a risco, retorno, comparabilidade e alocação de capital.
É nesse ponto que a Tradução Ecossistêmica (T.E) se torna necessária. Converter danos ambientais ou S.Es em métricas economicamente comparáveis não significa reduzir a natureza a mercadoria. Significa tornar visível aquilo que os sistemas convencionais de decisão historicamente ignoraram.
Sob essa perspectiva, a tradução de perdas ambientais para equivalentes de ativos globalmente reconhecidos pode criar uma linguagem comum entre ecologia, economia e governança. O objetivo não é atribuir à natureza um preço definitivo, mas permitir que seu valor seja incorporado aos processos que determinam investimentos, prioridades institucionais e estratégias de desenvolvimento.
Essa lógica não se restringe aos recursos hídricos. Ferramentas como a VEDA (Valoração Econômica de Danos Ambientais) já demonstram o potencial de traduzir impactos sobre a vegetação para métricas capazes de dialogar com sistemas econômicos e institucionais.
A supressão vegetal não representa apenas perda de biomassa ou redução do estoque de carbono. Ela desencadeia alterações nos ciclos hidrológicos, nos fluxos energéticos, na reciclagem de umidade, na estabilidade climática e na produtividade dos territórios.
Da mesma forma, a degradação dos solos compromete funções essenciais relacionadas à segurança alimentar, à regulação hídrica e à ciclagem de nutrientes. Para piorar o cenário, a valoração econômica dos S.Es do solo ainda representa um desafio científico significativo. Embora o solo desempenhe funções vitais, como regulação hídrica, ciclagem de nutrientes e suporte à produção de alimentos, sua complexidade física, química e biológica é frequentemente apontada como um limitante para a tradução monetária de seus S.Es. Contudo, há avanços significativos na valoração de benefícios como o sequestro de carbono e a segurança alimentar.
Medindo os benefícios produzidos pelos ecossistemas
Todavia, a fronteira mais avançada da Tradução Ecossistêmica talvez não esteja apenas na mensuração das perdas, mas também na capacidade de reconhecer os benefícios produzidos por sistemas que conservam e regeneram capital natural.
Nesse contexto, Sistemas Agroflorestais e a agricultura de montanhas emergem como exemplos de infraestruturas ecológicas produtivas capazes de gerar simultaneamente alimentos, segurança hídrica, armazenamento de carbono, proteção da biodiversidade e resiliência climática.
Apesar desses benefícios, grande parte de seu valor permanece invisível aos indicadores econômicos convencionais. Como consequência, sistemas que geram ganhos ambientais frequentemente competem em condições desiguais com atividades capazes de degradar os mesmos recursos dos quais dependem.
Assim, traduzir economicamente os S.Es produzidos por esses sistemas representa uma oportunidade de incorporar o capital natural aos processos de investimento, planejamento territorial e formulação de políticas públicas. Mais do que reconhecer custos ambientais, essa abordagem permite identificar ativos ambientais estratégicos para a estabilidade econômica e social de longo prazo.
Em última análise, a Tradução Ecossistêmica não deve ser compreendida como um exercício de monetização da natureza, mas como uma ponte entre a ciência dos ecossistemas e os sistemas de decisão que moldam o futuro das sociedades.
Se quisermos que o capital natural seja efetivamente considerado nos espaços onde são definidas prioridades globais, investimentos e estratégias de desenvolvimento, será necessário traduzi-lo para uma linguagem capaz de dialogar com esses ambientes sem perder a complexidade ecológica que lhe confere significado.
Afinal, o que está em jogo não é apenas o valor de um rio, de uma floresta ou de um solo, mas a própria infraestrutura natural que sustenta a civilização humana.
Lucimar de Carvalho Medeiros recebe financiamento e apoio das seguintes instituições: Projeto Fapemig APQ-05719-24, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES (Código de Financiamento 001), Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGEO-UFMG), Programa de Pós-Graduação em Análise e Modelagem de Sistemas Ambientais (IGC-UFMG), Núcleo de Estudos e Pesquisas em Zoneamento Ambiental e Produtivo (NEPZAP-UFMG). INCT Montanhas (Processo nº 408704/2024-1) e INCT Solos do Brasil (Processo nº 408724/2024-2).
José Gabriel Vargas González trabalha para a Universidade Nacional Experimental dos Llanos Ocidentais Ezequiel Zamora (UNELLEZ), Venezuela, como professor em regime de dedicação exclusiva na área de Drenagem e Irrigação. Ele recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) como bolsista do Programa Internacional de Mobilidade GCUB-Mob, promovido pelo Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras, e do projeto APQ-05719-24. Também recebe apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Brasil (CAPES), Código de Financiamento 001; da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por meio do Programa Pronasolos (Convênio para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, Código Nº 01.22.0081.00); do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Montanhas (Processo Nº 408704/2024-1); e do INCT Solos do Brasil (Processo Nº 408724/2024-2), além do suporte institucional fornecido pelos Programas de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO-UFMG) e em Análise e Modelagem de Sistemas Ambientais (AMSA-UFMG) da Universidade Federal de Minas Gerais, bem como pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa em Zoneamento Ambiental e Produtivo (NEPZAP-UFMG). Ele é afiliado profissional à Universidade Nacional Experimental dos Llanos Ocidentais Ezequiel Zamora (UNELLEZ), Venezuela, e afiliado académico à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil.
Adriana Monteiro da Costa, Fernando António Leal Pacheco e Luís Filipe Sanches Fernandes não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
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